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sábado, 21 de março de 2026

A (Im)Perfeição Humana

Afinal em que ficamos, na perfeição ou na imperfeição humana? Confesso que não sei. Porém, pelo que tenho observado, é sábia a atitude de se aceitar ser tal como se é, isto é, reconhecendo e valorizando as capacidades e sentimentos próprios e alheios. Também é sábia a atitude de aceitar as circunstâncias que nos vão sendo oferecidas ao longo da vida. Porém, tudo isto que dá trabalho, muito trabalho, faz parte da natureza humana, faz parte da sua perfeição.

Sim, faz parte da natureza do Homem ser incompleto para ser capaz de ser perfeito. A sua perfeição passa pela necessidade de se relacionar com outros mediante a ajuda mútua. No humorístico livro “História de la Gente”, do espanhol Mingote, o autor começa com a frase, acompanhada do correspondente desenho, “No princípio, a gente era apenas dois”; no final do volume, a gravura mostra um grupo de pessoas que se perguntam, observando o disco voador chegado com seres vestidos de modo diferente: “Mais gente?”. Entre a primeira e a última página, os desenhos são elucidativos: a “gente” ia mudando de habitação, de traje, de dieta, de modo de se vestir, de meios de transporte, de utensílios culinários, de armas...

A “gente” mantém as suas características ao longo daquelas páginas que contam uma história de milhares de anos, com texto e desenhos: cada indivíduo da “gente” possui uma cabeça sobre um tronco com quatro membros, dois superiores e dois inferiores. Quanto ao corpo, desde a primeira página até à última, Mingote não o modificou. Parece perfeito. Porém, os cenários, as roupas, as atividades... vão evoluindo. Que acontece com a “gente” e não acontece com plantas e animais que não modificam os seus costumes? Acontece que a “gente” pensa, trabalha, colabora, ensina educa-se e... modifica, domina a Terra.

A aparente incapacidade de sobrevivência do homem que necessita de uma palmada para começar a respirar, de ser levado em braços para ser alimentado e se deslocar, de ser apoiado e protegido para caminhar, de ser vestido para não adoecer...) torna-o capaz de gerar “gente” nova, de transportar pedras mais pesadas, de cultivar maiores campos... desde que se une à mulher ou se apoia nos filhos que o levam ao local dos seus trabalhos para ouvir conselhos. A colaboração, a transmissão de conhecimentos, a formação da vontade através da disciplina do corpo, o respeito e controlo dos sentimentos próprios e alheios..., tudo isto são formas de comunicação da “gente” que levam a superar os obstáculos e dificuldades que a “gente” vai encontrando ao longo da sua história.

Por vezes, a história de Mingote mostra desenhos de lutas ou guerras acontecidas em diversas épocas. Todas estas gravuras mostram destruição, lágrimas, sofrimento. Parece que a perfeição humana brilha apenas em tempo de paz, sempre que o mais forte atende ao mais fraco, sempre que o mais sábio ensina o ignorante...

Qual é, onde está, se é que existe, essa coisa admirável que leva a “gente” a   descobrir o que é novo; a compreender o que uma coisa é e para que serve; a ser capaz de utilizar essa novidade em seu proveito...?

Talvez a resposta verdadeira e concisa seja: é cooperação. A perfeição humana passa sempre pela ajuda mútua e pela aceitação dos outros: dos seus gostos, das suas limitações, das suas habilidades..., aquilo a que chamamos manifestações de amor.

Mas a maior perfeição de toda a gente, de todos nós, consiste em colaborar com o Criador, em seguir aquilo a que chamamos vocação, um processo de aperfeiçoamento que deve durar toda a vida e consiste numa permanente luta entre o corpo e o espírito. Numa primeira fase, o espírito parece estar escondido na criança que só comunica chorando e sorrindo. No final da vida, é o espírito que tem de aprender a sujeitar-se às limitações do corpo. O tempo de cooperação entre corpo e alma está a chegar ao fim. Mas ainda há amigos (filhos, sobrinhos, amigos, médicos) que continuam a apoiar a “gente” com os seus conhecimentos sempre renovados.

Isabel Vasco Costa


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