Sim, faz parte da natureza do Homem ser incompleto para ser capaz de ser perfeito. A sua perfeição passa pela necessidade de se relacionar com outros mediante a ajuda mútua. No humorístico livro “História de la Gente”, do espanhol Mingote, o autor começa com a frase, acompanhada do correspondente desenho, “No princípio, a gente era apenas dois”; no final do volume, a gravura mostra um grupo de pessoas que se perguntam, observando o disco voador chegado com seres vestidos de modo diferente: “Mais gente?”. Entre a primeira e a última página, os desenhos são elucidativos: a “gente” ia mudando de habitação, de traje, de dieta, de modo de se vestir, de meios de transporte, de utensílios culinários, de armas...
A “gente” mantém as suas características ao longo daquelas páginas que contam uma história de milhares de anos, com texto e desenhos: cada indivíduo da “gente” possui uma cabeça sobre um tronco com quatro membros, dois superiores e dois inferiores. Quanto ao corpo, desde a primeira página até à última, Mingote não o modificou. Parece perfeito. Porém, os cenários, as roupas, as atividades... vão evoluindo. Que acontece com a “gente” e não acontece com plantas e animais que não modificam os seus costumes? Acontece que a “gente” pensa, trabalha, colabora, ensina educa-se e... modifica, domina a Terra.
A aparente incapacidade de sobrevivência do homem que necessita de uma palmada para começar a respirar, de ser levado em braços para ser alimentado e se deslocar, de ser apoiado e protegido para caminhar, de ser vestido para não adoecer...) torna-o capaz de gerar “gente” nova, de transportar pedras mais pesadas, de cultivar maiores campos... desde que se une à mulher ou se apoia nos filhos que o levam ao local dos seus trabalhos para ouvir conselhos. A colaboração, a transmissão de conhecimentos, a formação da vontade através da disciplina do corpo, o respeito e controlo dos sentimentos próprios e alheios..., tudo isto são formas de comunicação da “gente” que levam a superar os obstáculos e dificuldades que a “gente” vai encontrando ao longo da sua história.
Por vezes, a história de Mingote mostra desenhos de lutas ou guerras acontecidas em diversas épocas. Todas estas gravuras mostram destruição, lágrimas, sofrimento. Parece que a perfeição humana brilha apenas em tempo de paz, sempre que o mais forte atende ao mais fraco, sempre que o mais sábio ensina o ignorante...
Qual é, onde está, se é que existe, essa coisa admirável que leva a “gente” a descobrir o que é novo; a compreender o que uma coisa é e para que serve; a ser capaz de utilizar essa novidade em seu proveito...?
Talvez a resposta verdadeira e concisa seja: é cooperação. A perfeição humana passa sempre pela ajuda mútua e pela aceitação dos outros: dos seus gostos, das suas limitações, das suas habilidades..., aquilo a que chamamos manifestações de amor.
Mas a maior perfeição de toda a gente, de todos nós, consiste em colaborar com o Criador, em seguir aquilo a que chamamos vocação, um processo de aperfeiçoamento que deve durar toda a vida e consiste numa permanente luta entre o corpo e o espírito. Numa primeira fase, o espírito parece estar escondido na criança que só comunica chorando e sorrindo. No final da vida, é o espírito que tem de aprender a sujeitar-se às limitações do corpo. O tempo de cooperação entre corpo e alma está a chegar ao fim. Mas ainda há amigos (filhos, sobrinhos, amigos, médicos) que continuam a apoiar a “gente” com os seus conhecimentos sempre renovados.
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