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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O Sentido

No momento em que escrevo estou num hotel em Pequim e acabo de tomar o elevador. O prédio tem vinte e oito andares, além dos pisos do subsolo, e estamos hospedados no sexto andar. Na verdade há um ligeiro drible do entendimento, porquanto não existem os andares 4, 13, 14 e 24. E por que não existem? Porque o número 4 é sinónimo de má sorte na cultura chinesa, ainda pior que o número 13. A coisa é levada tão a sério que linhas telefónicas que possuam o número 4 são mais baratas por aqui. O número 9 é sinal de saúde, o número 8 de riqueza. Como a cartilha de um viajante recomenda sempre que se aceite hábitos e costumes do país que se visita, luto comigo mesmo para não contestar, mesmo intimamente.

Pergunto a uma chinesa que nos acompanha se possui fé. Responde que não. Tem menos de trinta anos e firme convicção, aparentemente, de que a vida aqui se encerra. Depois da morte? Nada. No entanto são supersticiosos. Como explicar a conjunção do materialismo com a crença de que o sobrenatural intervenha e que até os números o traduzam? A China teve três grandes veios de espiritualidade: o taoismo, o confucionismo e o budismo. Confúcio ditou preceitos interessantes, mas hoje pouco se fala nele. Os templos budistas que se vê, de vez em quando, são destituídos do prestígio de que um dia gozaram. Há um grupo pequeno de muçulmanos, corpo estranho que um dia veio do mundo árabe e hoje conta entre os mais pobres. Quantas pessoas têm alguma fé neste país maior que o Brasil? Poucas, a ponto de se poder imaginar que existe por estas terras - que um dia Marco Polo palmilhou,- mais de um bilião de ateus. 

Se um só ateu me é difícil de entender, o que dizer de um exército de ateus como este? A muralha da China e seus mais de oito mil quilómetros de extensão foram uma tentativa de proteger o país de invasões de mongóis e hunos. Linha dispendiosa, precedeu a linha Maginot em muitos séculos e mostrou-se tão ineficiente quanto. Não há linhas de defesa capazes de deter algo que esteja sobejamente acima delas. Será que a muralha religiosa será duradoura?

Foram várias as dinastias chinesas, iniciadas em Guilin. Ming e Qing são as duas últimas e também por conta disto talvez sejam as mais conhecidas. A dinastia Qing proveio do norte da China, da Manchúria, chão dos Xamanes. A palavra xamã já sugere algo por si mesma, como uma raiz de superstição. A turma de Mao Tse-tung, precedida pelo exemplo dos bolcheviques, instalou o comunismo nestas terras distantes, impondo a um povo uma utopia que matou milhões, inclusive de fome. Ninguém de sã consciência defenderá o modelo anterior, pontuado pela dissipação de imperadores e a exploração criminosa dos europeus, mas o receituário de Mao foi trágico, a despeito do recente e inegável progresso material. Hoje, aliás, se reconhece que foi Deng Xiaoping, sucessor de Mao, quem dirigiu a guinada económica chinesa.

Visitar o mausoléu de Mao, o camarada que se intitulava Grande Timoneiro, foi um souvenir de que não abrimos mão. Permanecemos pouco mais de uma hora na fila, em plena praça Tian´anmen, que tem como uma de suas laterais a entrada da Cidade Proibida. Passamos pelo controle de segurança e nos aproximamos do portentoso edifício, entre chineses de todos os cantos, compungidos pelo momento que se aproximava. Naquela mesma praça, em outubro de 1949, líder vencedor de uma guerra civil, Mao Tse-tung fundou a República Popular da China. Ainda hoje seu retrato estampa a entrada da Cidade Proibida, construída bem antes do descobrimento do Brasil. Imperador deposto, timoneiro reposto.

Quando entramos no prédio vislumbramos uma estátua enorme de Mao, sentado com elegância, pernas cruzadas, algo similar à famosa representação de Lincoln em Washington.  Uma imensa pintura na parede, às suas costas, representa os cimos das montanhas e nuvens que quase os cobrem. Mao está acima das montanhas, acima das nuvens, como figura mitológica no Olimpo chinês. Radical além da conta, Mao comandou o extermínio da religiosidade de um povo, que hoje sonha carros e viagens ao exterior. E se colocou no altar dos santos.

O que será desta gente, que humildemente labora como formiga? Submetida a uma lavagem cerebral sem precedentes, os chineses, voltados exclusivamente para o materialismo, têm mostrado também a espiritualidade de formigas. Receio que, sufocados pelo governo, do qual já desconfiam, tenham perdido o sentido da vida, que não pode ter como objectivo apenas a triste e indigente busca por bens. A despeito de tudo, creio que o tempo abrandará o estrago, porque não há muralha ideológica capaz de apagar o que está inscrito no coração dos homens.

J. B. Teixeira



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Dia dos avós, dias disto e daquilo…

Quando eu era pequenina (sim, é verdade, também usava fitas e laços…) não havia tantos dias festivos ou festivaleiros, era-se mais pródigo e comedido nas celebrações, havia uma certa contenção nos gastos, pelo que consumismo era uma palavra que não fazia parte do nosso léxico. Também não havia umas siglas modernas, confusas, perturbadoras e desencadeadoras de intranquilidade. Não as vou citar para não ferir susceptibilidades.

As coisas eram como eram, nem melhores, nem piores, mas sim como as circunstâncias sociais, económicas, culturais e políticas o permitiam e o bom senso familiar estipulava.

Todos trabalhavam muito, e feitas bem as contas sobrava pouco dinheiro para os gastos necessários (os supérfluos não existiam, nem faziam falta). Também não havia problema, pois o tempo livre e as alienantes solicitações ainda não tinham sido inventados, as publicidades, as vertigens comerciais que impelem a seduções de compras e de gastos sem freio.

Vivia-se ao ritmo natural do tempo e dos tempos, sem stress, sem ansiedades, sem angústias existenciais. Comia-se o estritamente necessário, pelo que também não havia problemas de obesidade em qualquer idade, tudo era bonomia e uma alegre caminhada.

Recordo a minha infância como um tranquilo e colorido estado da minha vida. Uma família feliz, contente e serena, com doenças e contenções, mas sempre em harmonia e na procura do salutar equilíbrio afectivo, numa diligente vontade de desencadear o bem em tudo e em todos. Os problemas resolviam-se, as doenças lá se iam curando e a vida fluía como um rio de paz.

Também não havia conflitos de gerações, nem problemas de aprendizagem, nem híper actividade, os alunos só estudavam se queriam fazer um curso, caso contrário o ofício esperava por eles. Não havia crises, nem de adolescência, nem de meia-idade, nem de coisa alguma, creio mesmo que nunca ouvi esta palavra…

Falava-se duma guerra lá muito longe, no Ultramar, e constava que havia umas prisões tão más, que o melhor era nem falar disso, até porque muito pouco ou nada se sabia…

Éramos muito ecológicos e avançados, só cozinhávamos o estritamente necessário, aproveitávamos tudo, não se deitava nada fora. Poupar e não estragar eram as palavras de ordem em qualquer casa portuguesa, e como a necessidade aguça o engenho, ideias não faltavam…

Dias da criança, dos avós, dos namorados, sei lá que mais, ainda não tinham sido inventados. Só o dia da mãe, nessa altura celebrado a 8 de Dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição. Como em qualquer outro dia festivo vestíamos a roupinha de “ver a Deus”, as refeições eram mais longas e a ementa também marcava a diferença. Conversávamos todos muito à mesa e para mim eram dias em que podia disfrutar da presença total dos meus pais, pois o seu afecto não era interrompido por nenhum afazer laboral, era dia de descanso…

Prendas? Nem pensar! Um beijinho mais repenicado na bochecha da mãe, umas flores colhidas no quintal em volta da casa e uma alegre canção que eu trauteava, enquanto saltitava ao pé-coxinho: “Mãe há só uma, a minha a mais nenhuma”.

Lições de vida sem filosofias, manuais de pedagogia ou conselhos de psicologia, todos sabíamos que o ser se sobrepunha ao ter, e o ser feliz e amar os outros pode excluir grandes despesas, caros presentes, ou outros excessos consumistas. O que interessava era a pessoa em si e não o que ela possuía, os valores afectivos sobrepunham-se aos valores económicos…

Vendo bem, isto não foi no tempo da pedra lascada, mas simplesmente há um escasso, mas vertiginoso, meio século. Será que hoje os avós, os pais, as mães e as crianças são mais felizes?

Meus queridos filhos e netos podem vir visitar-me sempre, todos os dias, sem presentes, porque a vossa companhia é que é algo de transcendente e, por favor, nesses momentos desliguem-se das redes sociais e conectem-se simplesmente com a nossa relação familiar.

Maria Susana Mexia 



quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A verdade acerca da mentira na história

 

”No tempo em que a mentira parece prevalecer, procurar viver pela verdade é, em si mesmo, o mais glorioso acto de liberdade”

 

“O insuspeito George Orwell, que dizia ter ido para Espanha com o firme propósito de `matar fascistas´, concluía depois que a guerra civil espanhola tinha produzido uma das mais abundantes ´colheitas de mentiras´ da nossa História recente. Fora em Espanha que vira, pela primeira vez, reportagens jornalísticas `que não guardavam a menor relação com os factos, não revelando sequer `o tipo de relação com a realidade que se espera das mentiras comuns correntes´. E era sobre estes relatos, sobre as `mentiras vendidas pelos jornais de Londres´, que 'ávidos intelectuais´ construíam `superestruturas emocionais sustentadas em eventos que nunca tinham ocorrido´. Para ele, os métodos de distorção dos jornais de esquerda, mais subtis, causavam maior entrave ao conhecimento da verdade do que os alucinados exageros da imprensa pró-rebeldes. Por isso levou a cabo uma cruzada pessoal para desafiar a versão `autorizada ‘dos acontecimentos que a imprensa comunista e liberal inglesa divulgava, apelando à necessidade de se recomeçar pela recolha e análise dos factos e batendo-se por uma verdade sem `factos alternativos´, por uma questão de honestidade intelectual. Este alarme, quanto ao extravio do conceito de verdade objectiva, levou-o à reflexão sobre os mecanismos do sistema totalitário que acabaria por ficcionar em 1984. George Orwell não era um santo nem um génio mas a sua posição moral perante a verdade ilumina hoje, mais do que nunca, a relação que deve existir entre a acção política e a História.

O Oxford English Dictionary define o conceito de `pós-verdade´ como `relativo à maior influência na opinião pública das emoções e das crenças pessoais do que dos factos objectivos´. (…)

Para Orwell, `quem controlava o Presente controlava o Passado, e quem controlava o Passado controlava o Futuro´. Por isso a manipulação dos facos históricos assustava-o `muito mais do que as bombas´.”

Esta pequena passagem retirada do livro “REVOLUÇÃO!”, de José Luís Andrade, é um simples apontamento que nos ajuda a compreender, como de forma tão grave, o passado tem sido vilipendiado, nomeadamente desde o século XIX, já ele recheado de factos intencionalmente distorcidos, mas passados como verdades, que desde os alvores da Revolução Francesa, deslizando por todo o século XIX, apoiados por pensadores, escritores e toda uma ampla rede de intelectuais carentes de protagonismo politico, social e filosófico.

O epicentro desta obra é a reposição da Verdade, aquela que foi omissa ao longo de muitos anos, nas Escolas, nos Liceus, nas Faculdades e nos Mass Media, aqui e além-fronteiras, nomeadamente em Espanha e França, a cuja influência se renderam incondicionalmente os nossos ilustres pensadores.

Um livro verdadeiramente apaixonante no sentido da coerência e transparência dos factos, com uma leitura clara e fluente, que nos conduz pelos meandros da História dos últimos séculos, chegando ao fim com a agradável sensação de não nos termos maçado com as descrições, porque o são duma leveza clara, inquestionável e irresistível.

Maria Susana Mexia


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Caminhadas à beira-rio

Recomecei com alegria e algum grau de dificuldade as minhas caminhadas à beira-rio depois de um período mais conturbado face a uma doença das crianças em que tive que apoiar a minha neta bem como no período das férias escolares. Este reencontro com a natureza reveste-se da maior importância para o meu equilíbrio a nível da saúde, já que consiste no único desporto que me atrai. Tem o condão de me ajudar a descarregar o stress, a descomprimir, a encontrar-me comigo própria, fonte de inspiração, com o ambiente usufruindo de toda a energia positiva que me transmite, e com Deus. Com algum grau de frequência, aproveito estes momentos para rezar o terço ou meditar sobre a vida enquanto caminho. Desta vez estava feliz pela minha neta que tinha feito 8 anos. Tinha conseguido reunir a maior parte dos seus amiguinhos e a família. É bom saber notícias de familiares que não víamos há muito tempo. Também o renovar das gerações. Uns membros já partiram, tendo chegado novos membros. Recordámos os que já partiram. Admirámos as graças e as parecenças dos mais novos. A dada altura em que estava acompanhada por uma amiga de idade muito avançada, apresentei-lhe uma neta e os bisnetos da sua maior amiga. Ficaram todos felizes. A minha amiga foi partilhando histórias e vivências da sua amiga que já tinha partido. Os seus descendentes muito curiosos e ávidos por reviverem as memórias do seu ente querido foram colocando questões. Encontravam-se representadas quatro gerações. Muito comovedor. O pai, antigo professor catedrático de economia já se encontrava reformado. Contudo tinha encontrado outro interesse na vida no qual se tinha empenhado. Aprender chinês. Já tinha sido inclusivamente convidado para ir à China, em virtude de ter sido o melhor aluno. Esta sua filha trabalhava com as novas tecnologias de um modo muito avançado. Com interesse tomámos conhecimento do seu trabalho admirando a evolução das mesmas. Um dos jovens presentes, investigador, referiu que tencionava partir novamente. Tinha terminado o contrato com uma universidade. Sentia vontade de voltar a estudar no estrangeiro. E as novidades foram sendo divulgadas. Ficámos felizes com esta rica permuta de conhecimentos e de histórias, com a alegria e boa disposição da minha neta e do modo simples e descontraído como decorreu a sua festa de aniversário, que bem merecia, depois de um período mais conturbado. Também por ver a minha amiga quase centenária feliz.

A propósito da festa e dos jovens, recordei que há muitos anos atrás tinha sido forçada a fazer uma opção na minha vida rumo ao desconhecido. A diferença é que então era mais jovem e tinha todo um futuro pela frente. Recordo que, quando referi que me ia embora, me disseram: “Porque se vai embora? Tem tudo o que nós queríamos que uma colaboradora tivesse!” Mas a família, os sonhos, as ideias, as causas, foram determinantes para esta minha tomada de decisão. E assim prossegui o meu caminho. São opções que se fazem a certa altura da nossa vida. E o caminho torna-se irreversível, rumo ao melhor ou ao pior, sendo contudo uma viagem sem retorno. Várias vezes durante o nosso percurso de vida somos confrontados com decisões que mudam a nossa vida. Passos que damos rumo ao futuro com decisões que julgamos serem definitivas, mas fatores externos ou que têm a ver com o nosso crescimento, com situações que vivenciamos alheias à nossa vontade, que nos impelem a procurar alternativas, outros percursos de vida. O que era já não é, já não faz mais sentido. Encontramo-nos então numa encruzilhada. Trocar o certo pelo incerto, ou continuar a vivenciar uma situação que, com algum grau de frequência, nos parece tornar prisioneiros de uma decisão tomada, quando o contexto envolvente se modificou, e já não acrescenta valor à nossa vida quotidiana. Começamos a pesar os prós e os contras, a colocar na balança os nossos sonhos e projetos, a estabilidade versus a instabilidade, e aceitamos ou não a situação que vivenciamos no presente. Recordo-me que há uns anos atrás, conheci um médico excelente, muito boa pessoa, por quem os doentes tinham um enorme apreço. Parecia e acredito que o era, muito feliz com o trabalho que desenvolvia em prol da sociedade. Um dia fui surpreendida ao saber que se ia embora. Sentia necessidade de aprofundar os seus conhecimentos para melhor prestar o serviço à sociedade. E partiu para fazer um doutoramento noutro país. Calculo que terá tido de colocar na balança a sua decisão, de ter ponderado bastante e de ter feito uma opção que se adequava mais ao seu projeto de vida. Nunca mais tive notícias suas. Suponho que não terá regressado ao nosso país! E assim vamo-nos cruzando com pessoas que a certa altura da vida, alteraram completamente o seu rumo. Por ironia do destino hoje sou confrontada com uma frase do Papa Francisco: “Os Pastores não vivem para si mesmos, mas para as suas ovelhas… um amor sem medida”. Na verdade, tenho uma grande admiração não só pelos sacerdotes, mas também pelas pessoas que consagram a sua vida a Deus, em serviço ao próximo. Temos os exemplos recentes da Madre Teresa de Calcutá, do Papa João Paulo II, de S. Josemaria, de tantos que foram mártires (sem o serem), que lutaram no seu dia-a-dia, que foram pessoas correntes e que hoje são santos de altar que, com o exemplo da sua vida, nos fazem acreditar na bondade do ser humano e ver Jesus no próximo. Passo a citar S. Josemaria que escreveu sobre o chamamento universal à santidade in Forja: “Repara bem: há muitos homens e mulheres no mundo e nem um só deles deixa o Mestre de chamar. Chama-os a uma vida cristã, a uma vida de santidade, a uma vida de eleição, a uma vida eterna”. Já o Papa Francisco, referindo-se aos Santos Pedro e Paulo, que comemorámos há dias, comentou num tweet “foram transparentes diante de Deus. Na vida, mantiveram essa humildade, até ao fim: eles compreenderam que a santidade não está no elevar-se, mas no abaixar-se”.

E várias vezes ao longo da vida me deparei com diferentes encruzilhadas, em que fui impelida a tomar decisões, acreditando piamente que os desígnios de Deus são insondáveis, que se uma porta se fecha outra se abre, que se torna sempre necessário manter a esperança no futuro, que Deus escreve direito por linhas tortas, que se não compreendo, de momento, um dia, mais tarde, tornar-se-á claro, o que Deus pedia numa situação concreta. E hoje, ainda sinto alguma inquietação e vontade de partir rumo ao desconhecido. Vários fatores me prendem: a família, a idade, as responsabilidades… Talvez não me dissessem: “Tem tudo o que nós queríamos que tivesse!” O melhor mesmo é continuar, sempre que possível, as minhas caminhadas à beira-rio. Santa Maria, rainha da Família, abençoa e protege todas as famílias.

Maria Helena Paes



segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Razões da participação dos cristãos na Vida Política - I

Os resultados das últimas eleições europeias impelem-nos a reflectir sobre as razões, a necessidade e a urgência da participação dos cristãos na vida política.

A maior parte de nós viveu a sua adolescência e juventude numa época em que a participação na vida política estava na ordem do dia. Havia interesse, debatiam-se ideias, confrontavam-se argumentos. A verdade é que, na primeira pessoa, ou através de figuras de familiares, crescemos em presença de uma cultura de participação política ativa.

Com a maturação do regime democrático em Portugal, esta incandescência arrefeceu e fomo-nos deixando tomar pelo rótulo do ‘povo de brandos costumes’. Todavia, cada um de nós - arrisco a dizer - pela sua história pessoal, de um modo ou de outro, também já percepcionou o quão importante foi para aquele filho, aquele amigo, aquela escola, instituição, a intervenção certeira, verdadeira e cristã que conseguiu separar as águas, distinguir o preto do branco e mostrar um caminho que parecia ofuscado pelo ambiente e pela cultura dominante.

Ser cristão é identificarmo-nos com Jesus Cristo e conformarmos a nossa vida ao Evangelho. Ser Cristão é uma opção pessoalmente exigente que impele a uma cidadania responsável. Esta ideia não é de agora. Ao lermos as Epístolas encontramos inúmeras referências de que assim foi desde o início, nas diversas exortações a uma existência virtuosa, ao respeito e atendimento dos mais desfavorecidos, ao cumprimento das obrigações cívicas, como pagamento pontual dos impostos, o respeito pela autoridade, entre outras - “dai a cada um o que lhe é devido: o imposto, a quem se deve o imposto; a taxa a quem se deve a taxa; o respeito a quem se deve o respeito; a honra a quem se deve a honra (Rm 13,7)”.  Ainda podemos ler na Carta a Diogneto, de um autor eclesiástico dos primeiros tempos -“Os cristãos residem na sua própria pátria, mas vivem todos como de passagem; em tudo participam como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria (…). Obedecem às leis estabelecidas, mas pelo modo de vida superam as leis (…). Tão nobre é o posto que Deus lhes assinalou, que não lhes é lícito desertar”.

Cada tempo histórico desafia os cristãos a diferentes formas de participação na vida política. Conquistados os direitos e liberdades fundamentais, através dos quais podemos eleger os nossos representantes no governo central e local, é interessante pensar de que forma poderemos concretizar modos de intervenção cívica e política que cristianizem a sociedade defendendo os valores e verdades fundamentais. São João Paulo II, na exortação apostólica  Christifidelis laici nº 42, refere - “Num sistema político democrático, a vida não poderia processar-se de maneira profícua sem o envolvimento ativo, responsável e generoso de todos, ‘mesmo na diversidade e complementaridade de formas, níveis, funções e responsabilidades’.” Numa nota doutrinal da Congregação da Doutrina da Fé sobre a participação dos Católicos na vida pública (2002) pode ler-se -“ (…) os fiéis leigos desempenham também a função que lhes é própria de animar cristãmente a ordem temporal”. Chegadas a este ponto creio ser interessante que pensemos, em conjunto e também cada uma de per si, como poderemos fazê-lo?

Isabel Alexandre



domingo, 2 de agosto de 2020

Patriarca Bartolomeu diz que é “vital” ligar defesa ecológica e fé cristã


 | 5 Set 19

O patriarca Bartolomeu no Amazonas, em 2006, durante o simpósio Reliigão, Ciência, Ambiente, dedicado à região amazónica e ao tema da “água, fonte de vida”: é necessária uma “atenção especial à formação cristã” da juventude, defende Bartolomeu na encíclica sobre a ecologia. Foto © RSE


O patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, defende que os cristãos são “obrigados a assumir medidas maiores para a aplicação das consequências ecológicas e sociais” da sua fé. Numa encíclica sobre a questão ecológica, publicada no passado domingo, 1 de setembro, o líder espiritual dos cristãos ortodoxos escreve que é “vital” que as estruturas cristãs “promovam iniciativas e atividades para a proteção do meio ambiente, mas também programas de educação ecológica”.

Neste documento de três páginas, o “patriarca verde” dirige-se não só aos ortodoxos, mas também a outros cristãos, representantes de diferentes religiões, líderes políticos, ambientalistas e cientistas sobre a necessidade de “compreender as causas e oferecer respostas adequadas à crise ecológica.”

Bartolomeu manifesta “preocupação com a crise ecológica e com as dimensões e consequências globais do pecado – dessa alienante ‘inversão de valores’ no interior da humanidade – [que] trouxe à tona a conexão entre questões ecológicas e sociais, bem como a necessidade de abordá-las em conjunto.” E acrescenta, sobre uma das tarefas que os cristãos – e a Igreja Ortodoxa, em particular – devem desenvolver, que se deve dar uma “atenção especial à formação cristã” da juventude, “para que ela possa trabalhar como uma área de cultivo e desenvolvimento de um ethos ecológico e solidário”.

O patriarca, cujos textos e pronunciamentos sobre a questão ecológica, são várias vezes citados na encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, defende a necessidade da protecção da “Casa Comum”, ou seja a salvaguarda e protecção dos ecosistemas da Terra, afirmando que mobilizar “forças para a proteção da integridade da criação e para a justiça social são ações interconectadas e inseparáveis.”

O interesse do Patriarcado Ecuménico pela protecção da criação, refere, não surgiu como reação ou em resultado da crise ecológica contemporânea. Esta foi simplesmente a motivação e a ocasião para a Igreja Ortodoxa expressar, desenvolver, proclamar e promover os seus princípios ambientalmente amigáveis, justifica.

Para o patriarca, a “crise ecológica revela que o nosso mundo compreende um todo integral, que os nossos problemas são globais e compartilhados”. E acrescenta, numa crítica implícita ao ceticismo de líderes políticos e cidadãos: “É inconcebível que a humanidade, mesmo reconhecendo a gravidade do problema, continue a comportar-se como se ele não existisse.” Não pode haver progresso genuíno, afirma, “quando a criação ‘muito boa’ e a pessoa humana feitas à imagem e semelhança de Deus sofrem.”

Bartolomeu justifica ainda o interesse da teologia cristã pela questão ecológica como fazendo parte da “identidade” da Igreja: “Respeitar e cuidar da criação são uma dimensão da nossa fé, o conteúdo da nossa vida na Igreja e como Igreja.” O interesse da Igreja pela proteção do meio ambiente é uma extensão da eucaristia “em todas as dimensões de sua relação com o mundo”, acrescenta no texto, cuja versão integral portuguesa pode ser lida aqui.

Comentando esta última observação, um colunista do jornal brasileiro Gazeta do Povo afirma que o patriarca faz “uma leitura sobre a eucaristia que não estamos muito acostumados a fazer, mas que está no cerne da teologia eucarística.”

O “patriarca verde”

Bartolomeu no Amazonas, em 2006: a ideia dos simpósios era criar uma rede “entre os mundos da religião, ciência e ambiente, com o interesse de proteger o ambiente.” © RSE


Apelidado por vezes de “patriarca verde”, esta não é a primeira vez que o primus inter pares (primeiro entre iguais) dos líderes ortodoxos expressa a sua paixão e preocupação pela defesa do meio ambiente. Durante vários anos, o patriarca dinamizou e apoiou a realização dos simpósios Religião, Ciência e Ambiente (RSE, da sigla em inglês), que juntavam cientistas, teólogos, responsáveis religiosos e ambientalistas.

Em 2006, no simpósio realizado em Manaus e na região amazónica, o patriarca foi também visitar, com os participantes, o Parque Nacional do Jaú, onde experimentou o fogo e o cheiro perfumado da resina das árvores. Como contava na altura o jornalista António Marujo numa reportagem da revista dominical do Público, o patriarca comentou que “tudo o que o macaco come, as pessoas podem comer na floresta”.

Nesse simpósio, Bartolomeu participou numa “bênção das águas” no sítio exacto, diante de Manaus, onde se juntam os rios Negro e Solimões, dando origem ao Amazonas: “Abençoando as águas do grande Amazonas, proclamamos a nossa convicção de que a proteção ambiental é um problema moral e espiritual que diz respeito a todos. (…) Persistir no atual caminho de destruição ecológica não é apenas uma loucura. É um pecado contra Deus e a criação”, disse ele na cerimónia.

Na página oficial dos simpósios RSE, podem ver-se os documentos das diferentes iniciativas, desde o primeiro em 1995 no mar Egeu (Grécia) até ao último em 2009 no rio Mississippi (Estados Unidos). Sendo uma organização não-governamental, criada em 1993, o objetivo da RSE e dos seus simpósios era criar uma “reunião entre os mundos da religião, ciência e ambiente, com o interesse de proteger o ambiente.”

Desde que é patriarca de Constantinopla, em 1991, Bartolomeu tem sido umas das vozes mais ativas na defesa do meio ambiente, da preservação dos ecosistemas e do diálogo entre crenças, religiões e poderes de todo o mundo. Ainda na semana passada, a propósito dos recentes incêndios da Amazónia, afirmara que as “árvores não são valiosas apenas na sua beleza estética ou no seu benefício comercial, mas essencialmente para a nossa defesa contra as mudanças climáticas”.

 

(Este texto teve o contributo de António Marujo)






Papa convoca Eusébio para jogar na equipa dos jovens


Jovens muçulmanos cantam diante do Papa: “O islão é paz” (Imagem captada do vídeo da transmissão).

O Papa Francisco convocou o exemplo de Eusébio, no seu encontro com jovens moçambicanos de diferentes religiões, para dizer que os mais novos nunca devem resignar nem desistir dos seus sonhos. Este foi um dos momentos altos do primeiro dia da visita de Francisco a Moçambique, durante o qual o Papa argentino insistiu na importância da “coragem da paz”, nas diferenças “necessárias”, na proposta da alegria e na sugestão da “mão estendida” para ajudar quem precisa.

Um ambiente de grande júbilo e contentamento marcou o primeiro dia papal nas ruas de Maputo, a capital moçambicana, bem como no pavilhão desportivo do Maxaquene e na catedral, dois dos locais onde decorreram actos do programa desta quinta-feira.

Num clima festivo, num coro que durou largos minutos, os cinco mil jovens reunidos no Maxaquene resumiam uma das ideias que marcou o dia de Francisco: “Pela reconciliação!” E repetiam ainda o grito quando o Papa entrou no pavilhão. De tal forma que, no seu discurso, o próprio Francisco fez uma pausa para perguntar aos jovens se queriam escrever uma nova página na história do seu país: “Vós juntos – assim como estais – sois o palpitar deste povo, onde cada qual desempenha um papel fundamental, num único projecto criador, para escrever uma nova página da história, uma página cheia de esperança, paz e reconciliação. Quereis escrever esta página?”

Ao grito de um “sim” que encheu o Maxaquene, o Papa disse que escutara o que os jovens diziam quando entrou e pediu-lhes que repetissem a frase, dizendo com eles várias vezes: “Pela reconciliação!” Uma hora antes, perante o Presidente Filipe Nyusi e representantes do corpo diplomático e da sociedade civil, Francisco já afirmara que a reconciliação é “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique enfrenta como nação.

Os golos de Eusébio e o roubo da alegria

Diante dos jovens – onde havia muçulmanos, hindus, bahá’is, protestantes e católicos e representantes de organizações juvenis –, o Papa Bergoglio insistiu na importância de eles saberem “jogar juntos”. Foi quando convocou o exemplo de Eusébio, “a pantegra negra”, como se referiu ao antigo jogador do Maxaquene e do Benfica.

“Sei que a maioria de vós gosta muito de futebol. Recordo um grande jogador destas terras que aprendeu a não se resignar: Eusébio da Silva, a pantera negra. Começou a sua vida desportiva no clube desta cidade. As graves dificuldades económicas da sua família e a morte prematura do seu pai não impediram os seus sonhos; a sua paixão pelo futebol fê-lo perseverar, sonhar e continuar para diante… chegando a marcar 77 golos para este clube de Maxaquene! Não faltavam razões para se resignar…”

Além de Eusébio, o Papa referiu ainda a atleta moçambicana Maria Mutola que, depois de participar em três Olimpíadas, ganhou na quarta, em Sidney, a medalha de ouro. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma; os seus nove títulos mundiais não a fizeram esquecer-se do seu povo, das suas raízes, mas continuou a olhar pelas crianças necessitadas de Moçambique. Como o desporto nos ensina a perseverar nos nossos sonhos!”

A partir do desporto e da audiência que tinha diante de si, o Papa insistiu ainda várias vezes na valorização positiva das diferenças: “Estais a fazer a experiência de que todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários. (…) vimos de tradições diferentes e inclusive podemos falar línguas diversas, mas isto não impediu de nos encontrarmos. (…) podemos fazer a experiência maravilhosa de deixar de lado as diferenças para lutar juntos por um objetivo comum. (…)Procurai crescer na amizade também com aqueles que pensam de maneira diferente.”

Brincando várias vezes com os jovens, o Papa apelou ainda: “Não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis de cantar e expressar-vos de acordo com todo o bem que aprendestes das vossas tradições. Que não vos roubem a alegria!” Mas a alegria que se percebia no Maxaquene não era oca: os jovens de todas as confissões religiosas foram muito claros, nas músicas, danças e actuações artísticas, sobre a única mensagem que queriam partilhar com o Papa – e, indirectamente, dirigir aos políticos e à sociedade civil moçambicana: a paz e a reconciliação são a única coisa que (lhes) interessa.

Um grupo de jovens hindus durante a dança que fizeram perante o Papa Francisco (Imagem captada do vídeo da transmissão).

Mãos estendidas para dar

Os jovens muçulmanos cantaram uma música que repetia “o islão é paz”. Numa altura em que incidentes no norte do país têm sido interpretados como possíveis incursões de violência jihadista, até essa mensagem adquiriu um significado político concreto. E, na actuação dos jovens católicos, a coincidência entre a guerra e as catástrofes naturais como o Idai enquanto fenómenos que provocam a destruição e a morte foi também evidente.

Francisco pediu ainda aos jovens que mostrem o poder da “mão estendida”: para com os mais idosos, para com as vítimas dos ciclones, para com os que chegam à cidade à procura de trabalho ou para com o planeta. Essa mesma preocupação quis o Papa concretizá-la, já ao final da tarde, com a visita privada à casa Mateus 25 (alusão à passagem bíblica que fala do julgamento final, em que os que se salvam são os que ajudam os necessitados). A instituição acolhe cerca de uma centena de crianças de rua, toxicodependentes, doentes e sem-abrigo e é resultado da cooperação de várias congregações religiosas.

A mão estendida a quem precisa é também condição para uma paz que se joga no concreto. Aliás, já no discurso perante o Presidente e o corpo diplomático, o Papa tinha sido claro no pedido aos políticos: “Não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra… Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”

Nessa primeira intervenção, num dos salões do palácio da Ponta Vermelha, a residência oficial do Presidente da República, Francisco falou da necessidade da “coragem da paz” e da tenacidade e inteligência necessárias para guardar essa “flor frágil”. E que não pode deixar ninguém de lado: “Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”, afirmou, num discurso que foi também ouvido pelos líderes dos dois principais partidos da oposição.

Recado a padres e religiosos: o mundo mudou

Antes, num gesto simbolicamente importante, o Presidente Filipe Nyusi mencionou os seus dois adversários políticos pelo nome, convidando-os a levantar-se diante de Francisco: Ossufo Momade, pela Renamo, e Daviz Simango, do Movimento Democrático de Moçambique. Filipe Nyusi não se cansou de recordar o importante papel da Igreja Católica no país, desde há séculos, em campos como a educação e a saúde, bem como o gesto do Papa Paulo VI ao receber, em audiência, os dirigentes dos movimentos de libertação das então colónias africanas portuguesas, entre os quais Marcelino dos Santos, então líder da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, que governa o país desde a independência em Setembro de 1975).

Já à tarde, na catedral, no encontro com responsáveis da Igreja Católica – bispos, padres, religiosas, catequistas e seminaristas – Francisco repetiu alguns dos apelos. Contestou os muros que dividem e criam “ódio, rancor” e pediu que aqueles agentes não se deixem paralisar pelo medo. Mas a ideia forte do seu discurso foi quando apelou a que os mais empenhados da Igreja olhem para a realidade “como ela é”. E acrescentou: “Os tempos mudam e devemos reconhecer que muitas vezes não sabemos como inserir-nos nos novos cenários; podemos sonhar com as ‘cebolas do Egipto’, esquecendo que a Terra Prometida está à frente, não atrás, e neste lamento pelos tempos passados, vamo-nos petrificando, vamo-nos mumificando. Em vez de professar uma Boa Nova, o que anunciamos é algo cinzento que não atrai nem inflama o coração de ninguém.”

Finalmente, referiu-se à crise de identidade do clero, afirmando: “Perante a crise de identidade sacerdotal, talvez tenhamos que sair dos lugares importantes e solenes; temos de voltar aos lugares onde fomos chamados, onde era evidente que a iniciativa e o poder eram de Deus.” Esses lugares de origem, referiu, são o serviço às pessoas e o cansaço por causa de estar próximo de quem necessita.

“É uma honra que os americanos me ataquem”

Terça-feira, na viagem que levou o Papa de Roma para Maputo, não faltou um pequeno incidente: ao receber a oferta de um livro do jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do La Croix no Vaticano, que fala sobre “Como a América quer mudar o Papa”, Francisco comentou “É uma honra para mim que os americanos me ataquem” e voltando-se para o seu secretário, acrescentou: “É uma bomba.”

O livro, conta o Le Monde, explica como grupos conservadores católicos dos EUA se têm organizado para não só atacar o Papa como para tentar que este pontificado se torne apenas um “parêntesis”, através de uma operação baptizada como The Red Hat Report  (Relatório chapéu vermelho), numa alusão ao barrete dos cardeais.

Para sossegar os espíritos mais inquietos, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, distribuiu uma declaração escrita aos jornalistas: “Num contexto informal, o Papa quis dizer que considera as críticas sempre uma honra, sobretudo quando provêm de pensadores com autoridade e de uma nação importante, como é o caso”.

Nesta sexta-feira, o Papa despede-se de Maputo, depois de visitar o hospital de Zimpeto e celebrar uma eucaristia para cerca de 90 mil pessoas, no estádio nacional com o mesmo nome. Às 12h40 (menos uma hora em Lisboa) está prevista a sua partida para Antananarivo, capital de Madagáscar, segunda etapa desta viagem africana que ainda o levará a Port-Louis, capital das Maurícias.



Dei-te um louvor rasgado

Há alguns dias tive o prazer de me cruzar com uma amiga que já não via há muitos anos. Infelizmente foi por pouquíssimo tempo, já que a chamaram para uma consulta. Ainda assim gostei de a rever. Sempre com o mesmo ar doce e disponível. Também aguardava a sua vez um colega, que lhe referiu algo, que muito me sensibilizou tendo dado o mote para esta narrativa. “Dei-te um louvor rasgado”. E olhando para mim acrescentou: “Quando há alguém que sobressai, tenho o hábito de o fazer. Nunca fiz uma queixa de um colega, referiu com algum orgulho”. Entretanto, chegou igualmente a sua vez e a conversa terminou por aqui, com muita pena minha. Segui o meu caminho, dirigindo-me para a minha sessão de fisioterapia, a pensar que bom que era, valorizar o trabalho de alguém. A minha amiga deveria ter ficado feliz. Contudo, pelo seu ar surpreendido pareceu-me que desconhecia o facto. Na verdade, há pessoas muito boas, que passam por nós discretamente, fazem o bem, sem se evidenciarem ou darem conhecimento. Que bom que assim seja. Sem protagonismo. Tem um valor imenso. Recordei uma frase de S. Josemaria: “Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar…” Interiormente pensei quão difícil é julgar ou avaliar o próximo, particularmente numa época em que abundam as “fake news”. É preciso possuir uma enorme sensibilidade, boa formação, valores, capacidade de observação, de justiça, de critérios éticos, estar atento às questões morais, às diferenças culturais, de raça, não sendo de todo uma tarefa fácil. Como julgar com princípios e valores, que sejam aceites por todos, independentemente de todas as diferenças que possam eventualmente existir, no sentido de não se tecer um juízo errado? Quantas vezes, não nos teremos enganado ao longo da história, ou mesmo da nossa vida ao tecer um juízo de valor? O que parecia, afinal, não era, tínhamo-nos enganado redondamente! O melhor mesmo é evitar julgar o próximo, dando o benefício da dúvida, a presunção da inocência. “Até se provar que é culpado, está inocente”! Ainda assim, há enganos. Nem tudo o que parece é, vindo-se mais tarde, algumas vezes, a ter conhecimento de que o culpado afinal estava inocente. Recordo S. Mateus, VII: 1-2: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados, porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados, e com a medida que medirdes, vos medirão também a vós”.

Podemos compartilhar os mesmos gostos, as mesmas opiniões, contudo, os acontecimentos afetam-nos de forma diferente. Quantas vezes, não utilizamos os nossos sentimentos, as nossas referências, enquanto medida para julgar os outros? Quando se trata da complexidade do comportamento do ser humano, é muito complicado. A ciência, a moral, a ética, a política versus o bem comum em toda a sua plenitude ao serviço do ser humano. Descartes, comentou que embora a faculdade do julgamento tenha sido feita por Deus, os seres humanos, frequentemente cometem erros. O erro humano constitui apenas um defeito que vem de um ser imperfeito. Segundo Descartes que se observou atentamente a si próprio, no sentido de determinar a natureza do ser humano, tendo percebido que dependia de duas causas simultâneas; a faculdade do conhecimento que se encontrava dentro dele, e a faculdade de escolha ou liberdade da vontade. Ou seja, o erro humano depende do intelecto e da vontade, excluindo de imediato o intelecto como a fonte do erro do ser humano, uma vez que, apenas o capacita para entender as ideias que são sujeitas a possível um julgamento. Posto isto, segundo Descartes, a fonte do erro humano deve ser atribuída à vontade. Como a vontade ou a liberdade de escolha foi dada por Deus, Descartes acredita que ela seja suficientemente extensa e perfeita, constituindo simplesmente, a nossa capacidade em optar por fazer ou não fazer algo, (afirmar ou negar, perseguir ou evitar). O erro humano surge assim quando as pessoas tentam julgar coisas que se encontram para além do escopo do ser humano. Acrescenta ainda que se a perceção, é de algum modo duvidosa e nublosa, em vez de clara e distinta, existe o risco de erro. Logo, o julgamento deve ser evitado porque se afasta da verdade, com uma perceção confusa sendo por isso necessário uma cautela enorme. Quanto mais segura a pessoa se encontra, porque entende as razões da verdade e da bondade, ou ainda devido a uma disposição divina, devidamente produzida nos seus pensamentos mais íntimos, maior é a probabilidade de evitar cometer um erro. Deus não deve, de todo, ser culpado pelo erro humano, uma vez que não é culpa de Deus, que os seres humanos procurem julgar factos que se encontrem para além do seu entendimento. Constitui um dever do ser humano evitar cometer um erro, sendo cauteloso nos seus julgamentos, julgando unicamente os casos em que existe uma certeza. “Os sentidos enganam, de vez em quando, e é prudente nunca confiar totalmente naqueles que nos enganaram uma única vez”.

Termino este artigo, concebido durante uma sessão de fisioterapia com origem numa inflamação dos tendões, devido, talvez a algum esforço, uma queda, uma posição incorreta no computador… O meu intelecto diz que desconhece a origem. A vontade refere que o melhor mesmo é recuperar. Logo, estou a fazer o possível! Santa Maria, rainha da esperança, intercede para que todos os julgamentos sejam realizados em prol do bem comum do ser humano e da sociedade.

Maria Helena Paes










sábado, 1 de agosto de 2020

Cartaz d’agosto

Olá bom dia!

Votos de um ótimo mês de agosto, neste verão que já está na história por motivos que ninguém desejaria... Mas outros existirão para que se torne memorável, na esperança de que seja pelas melhores razões para todos.

Porque queremos contribuir para que assim seja, a Ecclesia tem a agenda do mês de agosto repleta de (boas) propostas, num cartaz para ver, ler e ouvir.

Por partes:

Em cada dia, temos propostas de destinos, locais, livros, momentos de descanso! Na primeira semana de agosto seguimos as sugestões do padre Adelino Ascenso (que foi missionário no Japão), na segunda José Manuel Rodrigues (presidente da Assembleia Legislativa da Madeira), depois a Irmã Amélia Costa (de carisma franciscano e apaixonada pela música) e na quarta semana de agosto temos o gosto de contar com a participação de D. José Avelino Bettencourt, natural dos Açores e Núncio Apostólico na Arménia e Geórgia.

Vão ser presenças nas redes sociais da Agência Ecclesia nas "CONVERSASaGOSTO", de segunda a sexta-feira, a partir das 17h00, e no programa Ecclesia na Antena 1, pelas 22h45 de segunda a sexta-feira.

No programa que passa na RTP2, de segunda a sexta-feira pelas 15h00 e é possível ver também na internet, temos muitas propostas, ao longo do mês de agosto:

. Em cada segunda-feira, partilhamos narrativas na primeira pessoa: Artur Mourão, Eugénia Costa quaresma, frei José Luís Monteiro, o missionário no Quénia padre Filipe Resende e o padre da consolata Joaquim Gonçalves, que esteve 40 anos no Brasil, são presenças até ao dia 31 de agosto;

. À terça, convidamos a conhecer Sistelo, o projeto da Cáritas “Mind”, Senhora da Peneda e a Terra Santa;

. À quarta mostramos documentários sobre a perseguição aos cristãos, numa parceria com a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre: Bolívia, Bulgária, Etiópia, Zâmbia e Venezuela são os países que propomos conhecer melhor;

. Em cada quinta-feira, damos voz ao padre Adelino Ascenso e à sua experiência oriental, a D. Anacleto por ocasião dos 50 anos de ordenação sacerdotal, a António Bagão Félix e ao livro que publicou “Um dia haverá” e a D. António Augusto Azevedo no início das celebrações dos 100 anos da Diocese de Vila Real; 

. À sexta-feira, partilhamos pistas de reflexão sobre a liturgia de domingo, com o padre Armindo Vaz, Juan Ambrosio, padre Robson Cruz, frei José Nunes e padre Nélio Pita.

Ao domingo não fazemos “folga”... No programa Ecclesia que passa na Antena 1, pela manhã, e no programa 70x7 emitido na RTP2 pelas 17h00 mostramos-lhe muitas histórias: Casa Velha, Gonçalo Cadilhe, Santa Luzia, frei Agostinho da Cruz e 100 anos da Diocese de Vila Real...

Um cartaz repleto para o mês de agosto, para ouvir na rádio, para ver na televisão e sobretudo para acompanhar em agencia.ecclesia.pt e nas redes sociais, a qualquer hora! Queremos ser companhia, também em dias de descanso, sempre a cuidar da saúde de todos! 

Desejo-lhe um ótimo verão e bom descanso! E porque os autores desta mensagem, em cada dia, precisam também de descansar, regressamos no dia 31 de agosto (só esta mensagem...  Continuamos a informar, todos os dias, sobre o que vai acontecendo em www.agencia.ecclesia.pt)

Paulo Rocha

 

 


www.agencia.ecclesia.pt