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terça-feira, 3 de setembro de 2019

O mês da oração pela Terra

Bom dia!
Ainda no arranque de setembro, com muitos recomeços, aproveito para lhe falar do ‘Tempo da Criação’: uma iniciativa ecuménica de oração e ação que se prolonga até à festa de São Francisco de Assis, na qual Igrejas Cristãs promovem um mês de oração e ações concretas em defesa do ambiente.
O Papa apelou a todos os católicos para que rezem com ele neste mês de setembro, pedindo que os políticos, cientistas e economistas se unam na proteção dos oceanos. Já no domingo, Francisco defendeu estilos de vida sustentáveis, perante a “emergência climática”.

Já de regresso à atividade normal no Vaticano, esta segunda-feira o Papa deixou críticas à legalização da eutanásia, falando a pacientes e médicos da Associação Italiana de Oncologia Médica, no Vaticano.
A prática da eutanásia, que já se tornou legal em vários Estados, somente aparentemente se propõe a incentivar a liberdade pessoal; na realidade, baseia-se numa visão utilitarista da pessoa”

O programa ECCLESIA está hoje na sua companhia, pelas 15h30, na RTP2, com uma entrevista sobre voluntariado Missionário. Às 22h45, na Antena 1 da rádio pública, prossegue a série de programas sobre uma iniciativa da comunidade de Lisboa das Missionárias da Verbum Dei, que promove um campo de trabalho para jovens, em Vale de Lobos, como proposta para “rezar o Verão” e preparar o novo ano letivo.

Despeço-me com votos de boas notícias, sempre.
Octávio Carmo

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Rentrée com um novo cardeal português

Olá bom dia! Os dias de verão foram de descanso, encontros, leituras e trabalhos que só nestes dias acontecem? Por certo que sim! Entre praia e campo, família e amigos, projetos solidários e missionários, os meses de julho e agosto são, em muitos casos, ocasiões excecionais para novas experiências e para programar um novo ano de escola ou de trabalho!
Mas hoje queremos assinalar o recomeço destas mensagens matutinas, escritas pelos vários jornalistas da redação da Agência Ecclesia, onde destacamos as notícias principais do dia anterior (é a nossa “banca” dos jornais da manhã) e adiantamos o que possivelmente marca a informação desta agência e dos programas de rádio e de televisão, na jornada que começa.
Claro que nesta "rentrée" a notícia principal é uma escolha do Papa Francisco: D. José Tolentino Mendonça vai ser criado cardeal no consistório de 5 de outubro. É o sexto cardeal português neste século XXI!
A notícia mereceu muitos comentários e congratulações: D. Manuel Clemente destaca o percurso de D. José Tolentino Mendonça no diálogo cultural; D. António Marto espera que novo cardeal português seja «grande apoiante» da renovação promovida pelo Papa; o bispo do Funchal refere a «alegria» dos madeirenses com a nomeação cardinalícia de D. José Tolentino Mendonça; a reitora da Universidade Católica sublinha a personalidade «profundamente cosmopolita» do novo cardeal; e o presidente da República felicita D. José Tolentino de Mendonça, falando numa “personalidade ímpar” da Igreja e da sociedade.
Uma ótima notícia, nesta "rentrée"!
Neste mês de setembro vão decorrer as Jornadas de Comunicação! Tome nota da data e, a partir de amanhã, terça-feira, ao fim do dia, pode fazer a inscrição em www.ecclesia.pt/jornadas2019, onde encontrará o programa detalhado!
Votos de uma boa semana! Se coincide com o fim de férias e recomeço de atividades, que sejam dias  com muito ânimo e criatividade! 
Paulo Rocha

domingo, 1 de setembro de 2019

Iémen, a guerra esquecida

O bombardeamento desta fábrica em Sanaa, em Julho de 2015, deixou 1300 trabalhadores sem emprego. Foto © Almigdad Mojalli (VOA)/Wikimedia Commons
Acredito que as pessoas mais atentas e que gostam de ler sobre geopolítica e geoestratégia conheçam o Iémen. Mas, para a grande maioria, será um país desconhecido. É, aliás, pouco estudado, pouco trabalhado e pouco analisado. O que geralmente não se sabe é que no Iémen se vive a maior crise humanitária do mundo.
O país que faz fronteira com Omã e a Arábia Saudita é o país árabe mais pobre do mundo e não tem reservas de petróleo ou de gás natural consideráveis. No entanto, é ali que se trava uma guerra que atingiu picos de inusitada destruição e violência. Vale a pena perguntar: “Porquê?” Se é um país tão pobre, o que leva a Arábia Saudita a liderar uma coligação Internacional que apoia o governo Iemenita Internacionalmente reconhecido? Ou o que motiva os EUA a apoiar essa mesma coligação tendo, do lado oposto, o Irão a apoiar um movimento de rebeldes xiitas chamado “Houthis” (que começou no seio da família Al-Huthi)?
Neste e em outros textos procurarei reflectir sobre o Médio Oriente, as suas dinâmicas e conflitos e trazer as respostas aquelas perguntas, analisando o Iémen sob quatro prismas distintos:  a situação política do país e o que significa ser hoje um Estado falhado, a sua posição geoestratégica absolutamente essencial na região, a crise humanitária que ali se vive e, por fim, as negociações de paz iniciadas no final de Dezembro de 2018 e que hoje estão severamente ameaçadas.
É importante trazer alguns números para que todos possamos ter a noção real da catástrofe que se vive naquele país e que justifica que a ONU a tenha já considerado como a maior crise humanitária do mundo.
De acordo com as Nações Unidas, no Iémen morre uma criança a cada 10 minutos e 24 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária. Também segundo a ONU, 14 milhões de pessoas estão à beira da fome, sendo que oito milhões necessitam de ajuda urgente.
A organização Save The Children afirmou que, nos três anos de guerra, morreram cerca de 85 mil crianças com menos de cinco anos de idade. Há ainda dois milhões de crianças subnutridas, sendo que 400 mil estão gravemente doentes. Para além destes números, mais de 70 mil pessoas já morreram morreram desde o início do conflito em 2015estimando-se que tenham morrido cerca de 10 mil pessoas desde o final de 2018 e um surto de cólera já afetou cerca de 1,2 milhões de pessoas.
Mas os números não acabam aqui. O departamento da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) contabilizou 16 milhões de pessoas sem acesso a água potável e saneamento básico e 16,4 milhões de pessoas sem acesso a cuidados de saúde adequados.
O mesmo organismoacrescenta que cerca de 1,25 milhões de funcionários públicos não recebem qualquer salário desde Agosto de 2016 ou recebem-no de forma intermitente, devendo aqui lembrar-se que o Estado é o principal empregador no país. O que significa que centenas de milhar de famílias ficaram, de repente, sem qualquer meio de sustento. A esta equação devemos adicionar o aumento da inflação e do desemprego. Isto é, para além da crise, as pessoas não conseguem comprar comida ou água potável mesmo que a consigam encontrar.
Os dados impressionam ainda mais se se pensar a longo prazo. Estão em causa gerações de jovens e de crianças que deixaram de ir à escola. Entre 12 mil a 14 mil escolas fecharam e os professores deixaram de receber salário. Os problemas que se vivem no Iémen terão efeitos prolongados no tempo. Mesmo que o conflito terminasse em 2019, estas crianças e jovens obrigadas a abandonar a escola terão enormes dificuldades em se adaptar às exigências de um mundo em mudança. São crianças e jovens traumatizados pela guerra e que viram o seu futuro ser-lhes completamente negado.
É urgente fazer com que o Iémen deixe de ser a “guerra esquecida”, a guerra de que ninguém fala, a guerra que não importa. A catástrofe humanitária não se limita a deixar a nu aquilo que a humanidade tem de pior. A guerra no Iémen também ajuda a explicar as dinâmicas da região e como a Arábia Saudita e o Irão se continuam a combater em guerras por procuração.
Agora, é tempo de acordar. E já é tarde.

José Monteiro Limão é jurista, a concluir o mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais na UCP-IEP, tendo escrito a sua dissertação sobre o significado do Iémen no Grande Médio Oriente; é vogal da Comissão Política Nacional da Juventude Popular, com o pelouro das Relações Internacionais; zelimao15@hotmail.com


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Papa não quer núncios a viver no luxo e andar em mexericos


“É feio ver um núncio que busca o luxo no meio de pessoas sem terem o mínimo. É um contra-testemunho. A maior honra para um homem da Igreja é ser servo de todos”, afirmou o Papa Francisco num discurso aos núncios (embaixadores do Vaticano junto dos Estados), no qual acrescentou que“não se pode ser um representante pontifício e criticar o Papa pelas costas, ter blogues ou mesmo unir-se a grupos hostis a ele, à Cúria e à Igreja de Roma”.
Falando na passada quinta-feira, o Papa fez, desse modo, referências indirectas ao escândalo provocado pelo ex-núncio nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganó, que, no ano passado, chegou a pedir, ao lado de outros líderes católicos integristas, a renúncia do Papa por supostamente não ter dado importância a alegadas denúncias de abusos sexuais na Igreja. Um representante papal não pode cair em mexericos e calúnias, acrescentou Francisco.
O Papa deixou ainda uma espécie de decálogo para a sua conduta evangelizadora, em que diz que o núncio deve ser um homem de Deus, da Igreja, de zelo apostólico, de reconciliação, do Papa, de iniciativa, de obediência, de oração, de caridade e de humildade.

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Sínodo sobre Amazónia: Vaticano entreabre a porta a ordenação de homens casados e ministério para mulheres


Manifestação indígena em Brasília: as populações indígenas devem ser escutadas em todos os âmbitos, defende o documento preparatório do Sínodo dos Bispos católicos. Foto © Guilherme Cavalli/Conselho Indigenista Brasileiro

Abertura à ideia de ordenar homens casados e de um ministério para as mulheres. Estas são duas das propostas, no âmbito da organização eclesial católica, que se podem ler – ainda apenas como sugestões – no documento de trabalho preparatório da assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que decorrerá entre 6 e 27 de Outubro.
O texto propõe que se debata a ordenação de anciãos, “preferentemente indígenas, respeitadas e aceites pela sua comunidade, ainda que tenham já uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã”. Apresentada como uma das várias “sugestões” no capítulo da organização das comunidades, a medida é uma das que propõe “novos ministérios para responder de modo mais eficaz às necessidades dos povos amazónicos”.
A ideia de ordenar “viri provati”, na expressão latina, homens maduros e provados, já tinha sido apontada pelo Papa Francisco em outras ocasiões, mesmo reafirmando o compromisso da Igreja Católica com o celibato. Esta não será, no entanto, a primeira excepção católica à regra do celibato: já antes foram admitidos padres anglicanos, que eram casados, ​​ao serviço da Igreja Católica, depois de terem deixado a Comunhão Anglicana; e há várias igrejas católicas orientais (melquitas ou maronitas, por exemplo), que aceita a ordenação de homens casados.
“As comunidades têm dificuldade em celebrar frequentemente a eucaristia” por causa da falta de padres, verifica o documento. “A Igreja vive da eucaristia” e a eucaristia edifica a Igreja. Por isso se pede que, em vez de deixar as comunidades sem eucaristia, se mudem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para a celebrar”, justifica o texto.

“Identificar o ministério a conferir às mulheres”
As mulheres “pedem para recuperar o espaço” que lhes foi dado por Jesus” e devem ter “garantida a sua liderança”, diz o texto. Foto © António Marujo

No documento há, entretanto, várias outras sugestões que apontam para mais mudanças de paradigma no catolicismo. Logo no ponto seguinte, sugere-se (seguindo a versão italiana) “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tomando em conta o papel central que hoje desempenham na Igreja amazónica” (na versão espanhola, há um erro de concordância; além disso, registe-se que, estando cerca de 60 por cento da floresta da Amazónia situada em território brasileiro, o documento ainda não tem versão oficial em português disponível).
Neste ponto, a questão pode ter a ver com a ordenação de mulheres diáconos, cujo lugar na história da Igreja foi objectvo do trabalho de uma comissão de especialistas. Mas o Papa Francisco considerou que o relatório do grupo era inconclusivo.
Instrumento de Trabalho aponta muito mais, no âmbito da participação dos fiéis católicos em lugares de responsabilidade comunitária: a promoção de vocações “autóctones de homens e mulheres” cuja contribuição decisiva deve ser o “impulso para uma autêntica evangelização a partir da perspectiva indígena, segundo os seus usos e costumes”; os crentes devem ter “protagonismo” e “espaço para que sejam sujeitos da Igreja em saída”, também com a abertura de processos sinodais “com a participação de todos” os fiéis; e devem ser criados itinerários formativos à luz do pensamento social católicos, “com enfoque amazónico”, em especial nos âmbitos da cidadania e política”.

“Conversão eclesial” na Amazónia
O documento, que foi apresentado nesta segunda-feira em Roma, não deixa dúvidas sobre os objectivos, logo a partir do título: “Amazónia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Divide-se em três partes e 21 capítulos, além da introdução e conclusão. “A voz da Amazónia” é a primeira e nela se fala da Amazónia como “fonte de vida” que, no entanto, se encontra ameaçada e cuja exploração é preciso “enfrentar”; fala-se também de um território onde tudo está ligado, do tempo de inculturação e de grandes desafios que se vive e dos caminhos de diálogo que são necessários.
A segunda parte aborda a “Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres”. Destruição extractivista, o isolamento voluntário dos povos indígenas, as ameaças que pesam sobre eles e as suas vulnerabilidades, as migrações das populações para os grandes centros, os desafios das culturas urbanas, a corrupção como “flagelo moral estrutural”, a saúde (incluindo a valorização das medicinas tradicionais) e a educação integral são os aspectos tratados.
Esta parte termina com um ponto dedicado à necessária “conversão eclesial” na Amazónia, apontando caminhos que a Igreja deve trilhar neste âmbito: desmascarar as novas formas de colonialismo; ser crítica das ideologias que fomentam o ecocídio amazónico; promover mercados eco-solidários e uma sobriedade que respeite a natureza e os direitos dos trabalhadores; e reconhecer formalmente um ministério especial na comunidade católica de promotor do cuidado da Casa Comum.
A terceira parte é dedicada especificamente à estrutura, organização e dinâmica eclesial: privilegiar uma Igreja com “rosto amazónico e missionário”, que esteja numa atitude de escuta e despojamento, através da inculturação (incluindo na liturgia), com atenção à evangelização nas cidades, ao diálogo ecuménico e inter-religioso e aos meios de comunicação.

“Indígenas que preguem a indígenas”
Crianças indígenas na região amazónica de Manaus: o documento sugere que deve ser apoiada a inserção dos religiosos junto dos mais pobres e excluídos, dando prioridade às necessidades dos povos locais. Foto © António Marujo

No que se refere à abertura do ministério presbiteral (de padre) a homens casados, o texto reafirma que “o celibato é um dom para a Igreja”, mas que a hipótese deve ser estudada para zonas mais remotas da região amazónica. Homens e mulheres com lugares de liderança nas comunidades devem ser “indígenas que preguem a indígenas a partir de um profundo conhecimento da sua cultura e da sua língua, capazes de comunicar a mensagem do evangelho com a força e eficácia de quem tem a sua bagagem cultural”. E acrescenta: “Há que partir de uma ‘Igreja que visita’ para uma ‘Igreja que permanece’, acompanha e está presente através de ministros que surgem dos seus próprios habitantes.”
Acerca do papel das mulheres, o texto destaca que nem sempre ele é valorizado nas comunidades católicas. “Elas pedem para recuperar o espaço dado por Jesus às mulheres” e devem ter “garantida a sua liderança”, assim como “espaços cada vez mais amplos e relevantes, na área formativa”. Deve ainda escutar-se a voz das mulheres e dar-lhes possibilidade de ser consultadas.
Sobre o papel dos religiosos e religiosas, o documento sugere ainda que deve ser apoiada a sua “inserção junto dos mais pobres e excluídos e a incidência política para transformar a realidade”. Ao mesmo tempo, as necessidades dos povos locais devem ser prioritárias para as congregações religiosas.
A assembleia especial amazónica do Sínodo dos Bispos – órgão consultivo do Papa, que reúne membros dos episcopados do mundo inteiro ou de determinada região do mundo, como neste caso – reunirá não só bispos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname, como também “homens e mulheres pertencentes aos povos amazónicos”, que possam “transmitir os seus desejos e anseios mais profundos”.
No final da assembleia sinodal, os participantes votarão um documento com propostas a entregar ao Papa que, por sua vez, redigirá a partir desse texto uma exortação apostólica, com indicações precisas sobre os caminhos a percorrer.

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Recuperado relicário com ossadas de frei Bartolomeu dos Mártires


O relicário com os restos mortais do beato frei Bartolomeu dos Mártires, que fora furtado no passado dia 11 de Junho, terça-feira, da igreja de São Domingos (Viana do Castelo), foi recuperado. O suspeito do furto, um homem de 25 anos, foi detido pelas autoridades.
A Polícia Judiciária de Braga, que tinha a seu cargo a investigação do caso, por envolver uma peça de arte sacra, indicou em comunicado que a peça de arte sacra “continha uma vértebra que se reputa pertencer ao arcebispo frei Bartolomeu dos Mártires”, relíquia objecto “de grande devoção religiosa na diocese de Viana do Castelo”.
O padre Vasco Gonçalves, pároco de São Domingos, disse à agência Lusa que “a peça de culto religioso tem de ficar exposta para veneração dos fiéis”, mas terão de ser encontradas formas mais seguras de “proteger a relíquia”. 

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Primeira missa depois do incêndio em Notre-Dame: o vídeo da transmissão

Dois meses depois de ter sido muito danificada por um incêndio, a catedral de notre-Dame de Paris abrirá de novo as suas portas este sábado e domingo, para a celebração da missa, informou a diocese de Paris em comunicado. “A primeira missa em Notre-Dame será celebrada no fim-de-semana de 15 e 16 de Junho”, lê-se no texto. A celebração de sábado tem lugar às 17h de Lisboa. 
A celebração da eucaristia, que será presidida pelo arcebispo de Paris, Michel Aupetit, será possível também graças à colaboração de um amplo dispositivo de segurança constituído por bombeiros e técnicos. No entanto, por razões de segurança, apenas algumas pessoas poderão estar dentro da catedral. As outras podem, no entanto, assistir em directo, através da televisão católica francesa, a KTO, através do seu canal Youtube, disponível neste endereço.

As causas do incêndio continuam entretanto a ser investigadas e o Presidente Emmanuel Macron insiste na ideia de que será possível a reabertura total da catedral de Paris dentro de cinco anos.
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Nas margens da filosofia – Um Deus que nos desafia

Etty Hillesum, numa foto publicada no livro Nos Passos de Etty, de Filipe Condado (ver https://setemargens.com/nos-passos-de-etty-hillesum-pre-publicacao/)
No passado dia 11 de Maio, o 7MARGENS publicou uma entrevista de António Marujo ao  cardeal Gianfranco Ravasi. Nela se abordavam temas de interesse no âmbito da Igreja Católica, tais como o afastamento  dos jovens, os conflitos internos na Igreja,  o papel das mulheres, o estatuto dos refugiados, etc. A esta conversa foi dado o título “O problema não é saber se Deus existe: é saber qual Deus”. É um tema que vem de longe e que particularmente nos interpela, não tanto num contexto teológico/metafísico quanto no plano da própria acção humana. Para nos ajudar a responder a esta interpelação, recorremos a duas figuras que, no século passado, se debruçaram sobre a temática, na altura insólita, da fragilidade de Deus e das consequências da mesma: Etty Hillesum e Dietrich Bonhoeffer. Em contextos diferentes – Holanda e Alemanha – viveram os terríveis anos da II Guerra Mundial, sofrendo na pele a ameaça do nazismo, da qual foram vítimas.
Etty Hillesum foi uma judia holandesa que nas suas Cartas Diários ( Lisboa, Assírio e Alvim, 2008 e 2009) relatou o sofrimento dos judeus sob a ocupação nazi. Pelo testemunho que nos legou, ficamos cientes do seu  processo de auto-conhecimento, o qual culminou numa profunda espiritualidade. Etty assumiu-se como alguém que encontrou em Deus a força para ultrapassar as misérias do quotidiano. Recusando a ajuda de amigos que pretendiam escondê-la, colaborou com o Conselho Judaico no campo de Westerbork, onde ajudou uma população em trânsito para Auschwitz, um destino que também foi o seu.
Cuidar dos outros impediu-a de perder a esperança. Contra o inferno da lama e da doença, opôs a beleza da vida e enfatizou a capacidade regeneradora da mesma. Não tinha ilusões quanto ao futuro que a esperava mas apreciava os raros momentos de felicidade – a visão de uma flor ou de um pôr do sol. A sua presença luminosa no meio do sofrimento dos condenados a uma morte certa, levou a que os companheiros lhe chamassem “o coração pensante das barracas”. Etty tentou superar o sofrimento procurando dentro de si a presença de Deus. Um Deus frágil e silencioso, destituído de poder, carente de ajuda: “Há algo que cada vez é mais evidente para mim: que Tu não nos podes ajudar e que nós teremos que Te ajudar a ajudar-nos” (C W 2, p. 780). Ela  entendeu a criação como algo inacabado. Deveríamos colaborar com Deus para a completar pois é nosso dever ajudar Deus na solução dos problemas do mundo.
Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão, fundador da Igreja Confessante (Bekennende Kirche), um desvio da Igreja Luterana a que pertencia. Acusado de ter participado numa conspiração contra Hitler, esteve dois anos preso e foi enforcado no fim da guerra. Bonhoeffer é uma personagem multifacetada, na qual se fundem de um modo coerente, o cidadão e o crente, o teólogo e o investigador, o pastor que fala em nome da fé e o rebelde que se indigna contra a passividade e colaboração da Igreja Luterana alemã perante a questão judaica.
A prisão deu-lhe oportunidade para rever a fé e reformular conceitos bíblicos (vd.Resistência e Submissão. Cartas e anotações escritas na prisão, S. Leopoldo, Sinodal/EST, 2003 e Ética, Lisboa, Assírio e Alvim, 2007). É em nome da fidelidade a Deus que Bonhoeffer se propõe reformar a Igreja, repensar a teologia e refundar a ética. Num mundo que, segundo ele, “atingiu a maioridade”, o seu intento foi descobrir uma linguagem divina inequivocamente colocada ao serviço dos homens. Para ele, ser cristão é ser homem, é viver num mundo emancipado de Deus, situação essa que acaba com uma ideia falsa de divindade e nos leva a uma procura total, empenhada no concreto e no quotidiano.
Criticando a concepção de um Deus ex machina,Bonhoeffer propôs-nos um Deus sofredor e impotente, um Deus que  remete directamente para Cristo e para os homens. Os escritos que nos deixou visam tempos futuros, uma nova época sem Deus mas na qual a palavra de Deus comanda. No seu entender, não mais podemos ser religiosos no sentido tradicional do termo. Há que tomar parte activa no mundo, numa luta em prol da justiça e da paz. O cristianismo não é uma religião mítica dirigida para um além. Num mundo emancipado de Deus a nossa busca deverá voltar-se para a sociedade, para a vida de todos os dias. E encontramos Deus no mundo, no centro da vida, nas falhas humanas. A Igreja e os cristãos têm como missão manter-se vigilantes, denunciar e agir, ajudando Deus a realizar-se com os homens, no meio deles e com eles, na construção de uma nova época, num mundo sem Deus onde, no entanto, a palavra de Deus impere.
Alguns anos mais tarde, o filósofo judeu/alemão Hans Jonas interrogou-se sobre a incompatibilidade da existência de Deus e do Holocausto (O conceito de Deus após AuschwitzSão Paulo, Paulus, 2016). Um Deus que aceita o mal terá que ser enigmático, ininteligível, absconditus. Jonas pôs em causa o conceito de Deus como Senhor da História. Revisitando Job  perguntou: como foi possível Auschwitz? que Deus é este que permitiu tais atrocidades? Para o filósofo, a existência do mal é incompatível com o poder absoluto de Deus. Por isso declarou a Sua impotência, da qual a Shoahseria a melhor demonstração. Depois de criar o mundo, Deus não tem mais nada a oferecer aos homens. São estes que deverão trabalhar o que lhes foi dado.
O conceito de Deus, presente nestes três pensadores, tem de comum a vulnerabilidade. Note-se que tanto Etty como Bonhoeffer não puseram em causa a confiança em Deus. Para eles, um Deus frágil não representa algo de negativo. Implica sim a dignificação do homem, que é interpelado a colaborar numa criação incompleta, carente da ajuda humana para atingir a plenitude. Trata-se de uma resposta possível à acusação de Jonas de um Deus impotente, entendendo a fragilidade divina não como carência ou defeito mas como apelo à humanidade, convidando-a a colaborar numa criação incompleta, perante a qual uma atitude contemplativa não basta.
Penso que estes dois testemunhos constituem achegas a considerar para uma possível resposta à pertinente questão levantada pelo cardeal Ravasi: “O problema não é saber se Deus existe: é saber qual Deus”. Pela mão de Etty e de Bonhoeffer somos confrontados com  um Deus que nos considera parceiros activos da sua obra – um Deus que nos desafia.

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática  de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site; luisarife@sapo.pt)

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