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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Padres, sim. Mas filhos dos outros?

Padre Hugo Gonçalves,  Diocese de Beja

Há uma contradição que merece ser pensada quando falamos da falta de sacerdotes na Igreja em Portugal: precisamos de padres, queremos mais padres, rezamos para que Deus suscite vocações sacerdotais – assim o espero – mas será que as famílias estarão verdadeiramente disponíveis para que um filho seu siga esse caminho? Ou preferimos que os padres sejam, de preferência, filhos dos outros?

É um facto cada vez mais evidente que a Igreja em Portugal sofre, há já várias décadas, de uma acentuada diminuição das vocações ao sacerdócio. Os seminários, outrora cheios, particularmente até ao final da década de 1960, encontram-se hoje com números muito reduzidos de alunos. Alguns estão mesmo vazios. Outros apresentam comunidades mais numerosas, mas uma parte significativa desses seminaristas é proveniente de outros países, sobretudo de países de expressão portuguesa e asiáticos, cujas Igrejas particulares enviam os seus jovens para Portugal a fim de aqui realizarem a sua formação teológica. Por isso, importa ter algum cuidado quando olhamos para os números e falamos de uma eventual primavera vocacional nos nossos seminários. O aumento de seminaristas nem sempre corresponde a um crescimento de vocações nas Igrejas diocesanas portuguesas. É verdade que muitos destes jovens, depois de ordenados, permanecem, por algum tempo, ao serviço das dioceses que os acolheram e formaram, contribuindo generosamente para a vida das nossas comunidades. Mas essa realidade não deve fazer-nos esquecer a questão de fundo: onde estão os jovens portugueses que se sentem chamados ao sacerdócio?

Num simpósio do Clero, realizado em Fátima, em meados da primeira década deste século, o então Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, recorria a uma imagem particularmente expressiva: as caravelas que outrora partiram de Portugal, levando missionários aos diferentes lugares do mundo, estavam agora a regressar, trazendo consigo missionários desses mesmos povos para reevangelizar Portugal.

Uma imagem que, com o passar dos anos, se tem tornado cada vez mais atual. Dificilmente encontraremos hoje uma diocese portuguesa que não conte com sacerdotes provenientes de outros continentes. É uma realidade que nos recorda, de forma muito concreta, a catolicidade da Igreja, a sua universalidade e a riqueza de uma fé que não conhece fronteiras. A Igreja não pertence a uma cultura, a um povo ou a uma nacionalidade. É verdadeiramente universal.

Contudo, esta nova realidade coloca-nos também alguns desafios que não podem ser ignorados. O primeiro é o da língua. Há sacerdotes que chegam às nossas dioceses e paróquias sem um conhecimento suficientemente sólido da língua portuguesa. E, se é verdade que a língua se aprende com o tempo e a convivência, também é verdade que o seu desconhecimento ou domínio insuficiente dificulta, pelo menos nos primeiros anos, a integração e o próprio exercício do ministério sacerdotal. A celebração dos sacramentos, a pregação, o acompanhamento espiritual, a escuta das pessoas e a proximidade com as famílias exigem uma capacidade de comunicação que não se adquire de um dia para o outro.

Outro desafio é o da integração cultural. A fé é a mesma, o Evangelho é o mesmo, os sacramentos são os mesmos, mas as culturas e as sensibilidades podem ser muito diferentes. Aquilo que é natural numa comunidade americana, africana ou asiática pode não o ser numa comunidade alentejana ou do norte. Os modos de comunicar, de estabelecer relações, de viver a religiosidade popular ou de compreender a autoridade e a participação na comunidade podem variar consideravelmente.

Não se trata de exigir que estes sacerdotes deixem de ser quem são, nem de desvalorizar a riqueza cultural que trazem consigo. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que a missão de um padre exige também a capacidade de conhecer, compreender e amar o povo ao qual é enviado. A inculturação não é um pormenor dispensável: faz parte da própria missão evangelizadora da Igreja.

Por vezes, porém, a urgência pastoral de encontrar sacerdotes para as paróquias leva a que este processo de integração seja desvalorizado. Perante a falta de padres, a solução parece simples: chegaram, são padres, precisam de comunidades e há comunidades que precisam de padres. Colocam-se então ao serviço paroquial e, entretanto, irão aprendendo a língua, conhecendo a cultura e descobrindo a realidade pastoral que têm diante de si.

Mas esta lógica pode revelar-se prejudicial, tanto para o sacerdote como para as comunidades que o recebem. Um padre não deve ser simplesmente colocado numa paróquia e deixado à sua sorte, na expectativa de que o tempo resolva todas as dificuldades. É necessário proporcionar-lhe um período de preparação, aprendizagem da língua, conhecimento da realidade social, cultural e eclesial do país e acompanhamento próximo. É um investimento na pessoa do sacerdote e na qualidade do serviço pastoral que poderá prestar.

Ainda assim, talvez o maior desafio não esteja apenas na chegada de sacerdotes de outros países, mas na dificuldade que temos em suscitar e acolher vocações nas nossas próprias comunidades.

É aqui que importa regressar à pergunta inicial: queremos realmente que os nossos filhos sejam padres?

É frequente ouvirmos lamentações sobre a falta de sacerdotes. Que já não há padres suficientes para as paróquias, que um sacerdote tem de assegurar várias comunidades, que os padres estão sobrecarregados e que, em algumas localidades, a celebração da Eucaristia se tornou menos frequente. Tudo isto é verdade e merece a nossa preocupação. Mas será que, nas nossas famílias, estamos disponíveis para acolher a possibilidade de um filho descobrir que Deus o chama ao sacerdócio?

Não raras vezes, a vocação sacerdotal é bem acolhida quando acontece na família dos outros. Admiramos o jovem que entra no seminário, felicitamos os pais do futuro sacerdote e participamos com alegria na sua ordenação. Mas, quando a possibilidade surge dentro da nossa própria casa, a reação pode ser bem diferente. Surgem receios, dúvidas, resistências e, por vezes, uma oposição mais ou menos explícita: «Tens a certeza?», «Ainda és muito novo», «Não estarás a desperdiçar a tua vida?», «E não gostavas de casar e ter uma família?».

Naturalmente, nenhuma família é obrigada a desejar que um filho seja padre. E uma vocação não se impõe, não se fabrica nem pode ser decidida pelos pais. É uma resposta livre a um chamamento de Deus. Mas uma família cristã deveria ser, antes de mais, um lugar onde um filho pudesse colocar todas as perguntas, discernir os seus caminhos e descobrir a vontade de Deus sem receio de desiludir aqueles que mais ama.

O problema começa quando, mesmo sem o dizer abertamente, transmitimos aos nossos filhos que há caminhos de vida mais desejáveis do que outros; quando consideramos o casamento e a constituição de uma família como a realização natural de qualquer jovem, mas olhamos para a possibilidade do sacerdócio como uma renúncia difícil de aceitar. Como se ser padre fosse, de alguma maneira, ficar aquém de uma vida plenamente realizada.

É importante recordar que a vocação sacerdotal não é uma vida de segunda escolha, nem uma alternativa para quem não conseguiu construir uma família. É uma forma própria de viver a entrega, o amor e a fecundidade. Um sacerdote não deixa de ter uma família: vive uma paternidade espiritual, ao serviço de uma comunidade e de tantas pessoas que lhe são confiadas.

Por isso, a promoção das vocações não pode ser apenas uma tarefa dos seminários, dos sacerdotes ou dos responsáveis pela pastoral vocacional. Começa nas famílias, nas comunidades cristãs, na catequese, nos grupos de jovens e na forma como apresentamos aos mais novos as diferentes possibilidades de viver a sua vida como resposta a Deus. Não basta rezar pelas vocações se, ao mesmo tempo, não criarmos ambientes onde elas possam nascer, crescer e ser acolhidas.

Precisamos de famílias que não tenham medo de oferecer os seus filhos a Deus. Precisamos de comunidades que saibam acompanhar os jovens que se interrogam sobre a possibilidade de serem padres, sem os pressionar, mas também sem lhes esconder a beleza e a exigência desta vocação. Precisamos de sacerdotes que testemunhem, com alegria e autenticidade, que vale a pena entregar a vida ao serviço de Deus e dos irmãos.

E precisamos, naturalmente, de continuar a acolher com gratidão os sacerdotes que chegam de outras Igrejas, reconhecendo neles uma expressão concreta da universalidade da Igreja e proporcionando-lhes as condições necessárias para que possam exercer o seu ministério com dignidade e fecundidade.

Mas não podemos acomodar-nos à ideia de que a solução para a falta de padres em Portugal virá sempre de fora. A Igreja portuguesa tem de continuar a ser terra de vocações, não apenas lugar de acolhimento de vocações provenientes de outras latitudes.

Talvez seja tempo de deixarmos de perguntar apenas onde estão os padres de que precisamos e começarmos também a perguntar que lugar estamos a dar, nas nossas famílias e comunidades, à possibilidade de Deus chamar um dos nossos.

Porque, no fundo, todos queremos que haja padres. Mas será que queremos que sejam nossos filhos?

Ou continuamos a preferir que sejam, de preferência, filhos dos outros?




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