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domingo, 23 de agosto de 2020

Cardeal Tobin lidera manifestação contra política de imigração dos EUA


 | 10 Set 19

Sob o lema “parem a desumanidade”, o cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark (Nova Jérsia, EUA), liderou um protesto de mais de 400 católicos, incluindo padres e freiras, contra o “tratamento desumano” e a detenção de crianças e famílias em centros de imigração nos Estados Unidos.

“Como filha e neta de imigrantes, como alguém que cresceu aqui, este problema importa-me muito e as nossas vozes devem ser ouvidas o mais alto possível, para que crianças e famílias estejam juntas”, afirmou a beneditina Jacqueline Small, antes de ser detida pela polícia com mais cinco manifestantes.

O cardeal Tobin afirmou que “estas medidas draconianas não são a solução para o deficiente sistema de imigração” dos EUA, que são uma violação da “dignidade humana” e contrárias a “todos os ensinamentos religiosos e aos nossos deveres sagrados para as nossas populações mais vulneráveis”. E acrescentou, citado pelo National Catholic Reporter: “Ao contrário de outros, não temos de procurar passagens bíblicas que justifiquem a construção de muros – elas não existem.”


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A “Ideologia do Género” e o ensino

O Papa Francisco já por várias vezes usou a expressão “colonização ideológica” para criticar a tentativa de imposição da “ideologia do género”, designadamente no âmbito do ensino, encarado como um meio eficaz de doutrinação e transformação da mentalidade corrente. Pretende-se que as crianças, desde a mais tenra idade, se habituem à ideia de que o género será uma escolha independente do sexo de nascença, e que não haverá modelos de família de referência, como não serão modelos de referência a paternidade e a maternidade.

Assim, por exemplo, o projeto de lei que no momento em que escrevo está em discussão em Espanha «contra a discriminação por orientação sexual, identidade ou expressão de género e características sexuais, e de igualdade social de lésbicas, gays bissexuais transsexuais, transgénero e intersexuais» impõe a «diversidade de género e familiar» como conteúdo obrigatório da educação infantil. Questões análogas têm suscitados polémicas em França, Itália e noutros países.

            Uma revolução antropológica

A “ideologia do género” parte da distinção entre sexo e género, a qual se insere na distinção mais ampla entre natureza e cultura. O sexo representa a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher. O género representa a construção histórico-cultural da identidade masculina e feminina (os comportamentos, funções e papeis que a sociedade e a cultura atribuem aos homens e às mulheres). Até aqui, nada de novo, ou ideológico. É uma evidência que as diferenças de papeis e funções de homens e mulheres variam no espaço e no tempo; hoje as mulheres exercem profissões que lhes foram vedadas durante séculos. A novidade reside na afirmação ideológica de que o género assim concebido deve sobrepor-se ao sexo assim concebido; a cultura deve sobrepor-se à natureza. O género não tem de corresponder ao sexo, corresponde a uma escolha subjetiva, que vai para além dos dados naturais e objetivos: posso escolher ser mulher mesmo que não o seja biologicamente. A diferença sexual entre homem e mulher em sentido natural e imutável estará na base da opressão da mulher (qualquer forma de definição de uma especificidade feminina é opressora para com a mulher; a maternidade como especificidade feminina é sempre uma discriminação injusta).

Se os dados naturais não impõem a esolham do género a nível individual,, também não imporão como normativa a união entre pessoas de sexo diferente. É indiferente a escolha de se ligar a pessoas de outro ou do mesmo sexo. Daqui surge a equiparação entre uniões heterossexuais e uniões homossexuais. A união heterossexual será apenas uma entre várias possívesis formas de família. O seu predomínio resulta apenas de condicionalismos socias e culturais. Privilegiá-la como modelo de referência (o heterocentrismo) é discriminatório e opressor.

Deixa, por isso e também, de falar-se em “paternidade” e “maternidade” como modelos de referência para a geração e educação e passa a falar-se em “parentalidade” indistinta, incluindo nesta a “homoparentalidade”. Dissocia-se em absoluto a sexualidade da procriação: o recurso à procriação artificial (incluindo a “maternidade de substituição”) é visto como uma alternativa à procriação natural, e não como forma de suprir a infertilidade patológica.

Podemos dizer que a “ideologia do género” tem subjacente uma vsão antropológica contrária à visão judaico-cristã e à visão de outras culturas tradicionais.

Afirmou, a este propósito, o Papa emérito Bento XVI no seu (célebre) discurso à Cúria Romana de 21 de dezembro de 2012:

«Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolução antropológica que lhe está subjacente. O homem contesta o facto de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem e como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: “Ele os criou homem e mulher” (Gn 1,27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher, mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza; agora; é só espírito e vontade. A manipulação da natureza, que hoje deploramos em relação ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha básica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstrato, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher são contestados como exigência, ditada pela criação, de haver formas de pessoa humana que se completam mutuamente. Se, porém, não há a dualidade de homem e mulher como um dado da criação, então deixa de existir também a família como realidade pré-estabelecida pela criação. Mas, em tal caso, também a prole perdeu o lugar que até agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe é própria; Bernheim mostra como o filho, de sujeito jurídico que era com direito próprio, passe agora necessariamente a objeto, ao qual se tem direito e que, como objeto de um direito, se pode adquirir».

A “ideologia do género” pretende contrariar o «livro da natureza» que, segundo o Papa emérito, «é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral» (Caritas in veritate, 51). 

O Papa Francisco, nesta linha, tem qualificado a “ideologia do género” como «pecado contra o Deus Criador». Afirma na exortação apostólica Amoris Laetitia (n. 56):

«Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador. Somos criaturas, não somos omnipotentes. A criação precede-nos e deve ser recebida como um dom. Ao mesmo tempo somos chamados a guardar a nossa humanidade, e isto significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la como ela foi criada».

E na encíclica Laudato sì (n. 155):

«A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existe uma “ecologia do homem”, porque “também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece”. Nesta linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação directa com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana. Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”».

Podemos dizer que a “ideologia do género” contraria a verdade objetiva do anor humano. Esta verdade é determinada por conteúdos objetivos que não dependem do arbítrio, pois o corpo humano contem uma linguagem e um significado que devem ser interpretados e respeitados. O significado da sexualidade humana corresponde a um desígnio maravilhoso que a pessoa deve acolher, que não deve ser contrariado, porque foi concebido por Deus para o maior bem da própria pessoa. Desses conteúdos fazem parte a aceitação do valor da dualidade sexual, a vocação à doação e à entrega totais a outra pessoa como ser único e irrepetível e a abertura fecunda à vida.

Sobre a “ideologia do género” afirma a carta pastoral da Conferência Episcopal portuguesa de 14 de março de 2013:

«Reflete um subjetivismo relativista levado ao extremo, negando o significado da realidade objetiva. Nega a verdade como algo que não pode ser construído, mas nos é dado e por nós descoberto e recebido. Recusa a moral como uma ordem objetiva de que não podemos dispor. Rejeita o significado do corpo: a pessoa não seria uma unidade incindível, espiritual e corpórea, mas um espírito que tem um corpo a ela extrínseco, disponível e manipulável. Contradiz a natureza como dado a acolher e respeitar. Contraria uma certa forma de ecologia humana, chocante numa época em que tanto se exalta a necessidade de respeito pela harmonia pré-estabelecida subjacente ao equilíbrio ecológico ambiental. Dissocia a procriação da união entre um homem e uma mulher e, portanto, da relacionalidade pessoal, em que o filho é acolhido como um dom, tornando-a objeto de um direito de afirmação individual: o “direito” à parentalidade.

«(...) É certo que a pessoa humana não é só natureza, mas é também cultura. E também é certo que a lei natural não se confunde com a lei biológica. Mas os dados biológicos objetivos contêm um sentido e apontam para um desígnio da criação que a inteligência pode descobrir como algo que a antecede e se lhe impõe e não como algo que se pode manipular arbitrariamente. A pessoa humana é um espírito encarnado numa unidade bio-psico-social. Não é só corpo, mas é também corpo. As dimensões corporal e espiritual devem harmonizar-se, sem oposição. Do mesmo modo, também as dimensões natural e cultural. A cultura vai para além da natureza, mas não se lhe deve opor, como se dela tivesse que se libertar.»

O valor da dualidade e conplementaridade sexual; homem e mulher chamados à comunhão

A “ideologia do género” esquese e desvaloriza o sentido e alcance da dualidade e complementaridade sexual. O sentido dessa dualidade é o do apelo à relação e à comunhão. Só nessa relação e comunhão a pessoa humana se realiza. Cada um dos sexos não exprime, por si só, a riqueza do humano na sua plenitude. Só na comunhão entre eles tal se verifica. A diferença básica que representa a dualidade sexual é, pois, uma ocasião de enriquecimento recíproco, não de oposição e conflito.

O homem e a mulher são chamados à comunhão porque só ela os completa e permite a geração de novas vidas. A família, célula básica da sociedade, assenta na colaboração das dimensões masculina e feminina. É esta que garante a geração de novas vidas, mas também o equilíbrio harmonioso e completo da educação destas, o qual supõe o contributo insubstituível de um pai e de uma mãe.

E se é assim na família como célula base da sociedade, também o é em todos os âmbitos desta. Todos eles, da política, ao trabalho e à cultura, benefeciam com o contributo de homens e mulheres no que ele tem de específico. E também é assim na vida da Igreja.

O Papa Francisco afirmou, no seu discurso à comunidade do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimónio e Família, de 27 de outubro de 2016:

«A incerteza e a desorientação que atingem os afetos fundamentais da pessoa e da vida desestabilizam todos os vínculos, familiares e sociais, fazendo prevalecer cada vez mais o “eu” sobre o “nós”, o indivíduo sobre a sociedade. É um êxito que contrasta com o desígnio de Deus, o qual confiou o mundo e a história à aliança do homem e da mulher (Gn 1, 28-31). Esta aliança — pela sua própria natureza — implica cooperação e respeito, dedicação generosa e responsabilidade partilhada, capacidade de reconhecer a diferença como uma riqueza e uma promessa, não como um motivo de sujeição nem de prevaricação.»

Colonização ideológica – da tolerância à imposição

A “ideologia do género” penetrou nos centros de poder político e legislativo, nacional e internacional Dessa penetração são reflexo a redefinição do casamento de modo a nela incluir uniões entre pessoas do mesmo sexo, as leis que permitem a adoção por pares do mesmo sexo, as leis que permitem o recurso à procriação artificial (incluindo a chamada “maternidade de substituição”) fora do âmbito da infertilidade patológica, a admissibilidade de cirurgias de “mudança de sexo”, e as leis que permitem a mudança do sexo oficialmente reconhecido independentemente das características fisiológicas do requerente. E até a generalização da expressão “igualdade de género”, em vez de “igualdade de sexos” ou “igualdade entre homem e mulher”.

Se, inicialmente, essa penetração se apresentou em nome da não discriminação e da tolerância para com as minorias («é lá com eles» - diziam muitos dos que aceitaram a legalização do casamento homossexual sem aderirem à “ideologia do género”), hoje assistimos a sinais crescentes de tentativa de imposição dessa ideologia como ideologia oficial, que deve inspirar o ensino (público e privado), a comunicação social, a deontologia profissional e limitar até liberdade de expressão do pensamento.

Parece-me adequada, a este propósito, a expressão “colonização ideológica”, a que tem recorrido o Papa Francisco, por dois motivos.

Por um lado, porque estamos perante uma notória tentativa de sobreposição da ideologia à realidade, confirmando aquilo que já se disse a este respeito: se os factos não confirmam a ideologia, «tanto pior para os factos».

Assim, em nome da ideologia, pretende-se negar, ou tornar irrelevante, a biologia, como se a pessoa não fosse uma unidade que a integra. Advoga-se a licitude das cirurgias de mudanças de sexo, e até do bloqueio da evolução pubertária em crianças e jovens pretensamente “transgénero”, tudo com base numa perceção subjetiva contrária aos dados objetivos. Especialistas consideram estas práticas uma «perigosa experiência de engenharia social», «baseada na ideologia e não na ciência», salientando que a grande maioria de casos de “disforia de género” em menores são superados, sendo que o bloqueio da evolução pubertária acarreta graves e irreversíveis danos. Também são muitos os casos de pessoas que se arrependem de cirurgias de “mudança de sexo”[1], mudança que acaba por ser ilusória, dada a dimensão genética do sexo, que é obviamente inalterável. O psiquiatra Paul Mc Hugh afirma que essas práticas mascaram e exacerbam o problema da “disforia de género”, sem o resolver, que delas resultam apenas homens efeminados e mulheres masculinizadas, e não quaisquer verdadeiras mudanças de sexo.

Também é uma negação da realidade a regra (que se pretende impor em vários Estados norte-americanos, dando origem a polémicas que chegam aos tribunais: a chamada WC War) de frequência de casas de banho, balneários e dormitórios segundo o “género” (escolhido) e não segundo o sexo (biológico): afinal, são só as diferenças biológicas, e não outras, as que justificam a separação.

Por outro lado, deve falar-se em “colonização” porque não estamos perante uma espontânea transformação de mentalidades, pretende-se que esta seja imposta coercivamente.

Isso traduz-se, desde logo, em tentativas de limitação da liberdade de expressão.

Vão-se multiplicando tentativas de condenação, incluindo no foro criminal, de pessoas que manifestam uma visão contrária à “ideologia do género”. Assim, contra vários bispos espanhóis (de Pamplona, de Valência, de Granada e de Alcalá de Henares), por exporem a doutrina católica sobre a prática homossexual. Ou contra o bispo de Solsona, na Catalunha, por afirmar que a ausência do pai está na origem da homossexualidade. Desde a condenação do pastor sueco Ake Green (absolvido só em segunda instância), vêm-se sucedendo condenações e tentativas de condenação de pregadores protestantes que citam textos bíblicos contrários à prática homossexual. O político francês Christian Vanneste foi condenado em primeira instância (também absolvido em recurso) por afirmar a danosidade da prática homossexual à luz da máxima kantiana relativa às consequências da universalização de um comportamento. Nem sempre estes casos se traduzem, pois, em condenações definitivas. Mas a condenação da política francesa Christine Boutin, por ter citado o Levítico qualificando a prática homossexual como “abominação”, foi definitivamente confirmada pelo tribunal de recurso.

Para fundamentar tais condenações, é invocada legislação contra as chamadas “homofobia” ou “transfobia” e o “discurso de ódio” (“hate speech”). Legislação que, numa interpretação que salvaguarde o núcleo essencial da liberdade de expressão e da liberdade religiosa, deve distinguir a livre discussão de ideias do desrespeito para com as pessoas e a sua dignidade, a livre condenação do eventual erro do respeito sempre devido à pessoa que possa errar

Mas o Supremo Tribunal canadiano, quando confirmou, em recurso, a condenação, por parte da Comissão de Direitos Humanos da Província de Saskatchewann, de uma pessoa que distribuiu panfletos que condenavam a prática homossexual (apelando aos ensinamentos bíblicos), não aceitou a relevância desta distinção, considerando que existe uma forte conexão entre a orientação sexual e a conduta sexual, e que quando a conduta visada pelo discurso é um aspeto crucial da identidade de um grupo vulnerável, os ataques a esta conduta são equiparáveis aos ataques ao próprio grupo[2].

Outro aspeto da limitação da liberdade que é consequência da imposição da “ideologia do género” diz respeito à liberdade contratual.

Em vários países já foram condenadas pessoas (pasteleiros, floristas, fotógrafos ou proprietários de restaurantes) que, por razões de consciência, se recusam a colaborar em casamentos entre pessoas do mesmo sexo[3]. Há propostas de leis de Estados norte-americanos (Geórgia; Mississipi; Indiana) que pretendem garantir esse direito, em nome da liberdade religiosa e de consciência. Mas tais Estados enfrentam ameaças de boicote por parte de grandes empresas, o que levou vários políticos a abandonar tais propostas.

Nestas situações, há que distinguir a discordância em relação a um ato com que não se quer colaborar por razões de consciência (neste caso o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo) da regra geral de não discriminação de pessoas dotadas de igual dignidade. As pessoas em questão não recusavam a prestação de quaisquer outros tipos de serviços a pessoas homossexuais em razão desta sua característica. Não infringiam, pois, tal regra de não discriminação.

Noutro aspeto, a tentativa de imposição da ideologia do género, traduz-se em limitação da autonomia profissional.

        Leis de vários Estados (e comunidades autónomas, em Espanha), e normas emanadas de associações profissionais, proíbem qualquer terapia de mudança de orientação sexual não desejada ou de mudança de identidade de género não desejada[4]. Mas já admitem, sem restrições, cirurgias de “mudança de sexo”. Invoca-se, para tal, um suposto “consenso científico” sobre a ineficácia e danosidade dessas terapias. Mas esse consenso não existe[5]. São razões ideológicas que conduzem a tais proibições, pois admitir a possibilidade de mudança de orientação sexual significa admitir que esta não é inata e constitutiva da identidade da pessoa. 

E podem evocar-se outros exemplos de limitação da liberdade consequência da tentativa de imposição da “ideologia do género”.

Nos Estados Unidos, o Gender Identity Mandate obsta à invocação da objeção de consciência por parte de médicos que se recusem a praticar cirurgias de “mudança de sexo” (questão que já chegou aos tribunais, tendo um tribunal do Texas reconhecido esse direito dos médicos, numa decisão recente).

No Canadá, a lei que regula a adoção (Bill 89 Supporting Children Teenth and Family Act), exige que o casal adotante não tenha uma visão negativa da conduta homossexual.

São várias as leis que impõem, a qualquer pessoas e em qualquer âmbito da vida social, a obrigação de identificação das pessoas transsexuais pelo seu género (escolhido), e não pelo seu sexo (biológico).

Todas estas limitações da liberdade (da liberdade religiosa e de consciência, da liberdade de expressão, de liberdade de educação, da liberdade contratual, da autonomia profissional) confluem no já referido projecto de lei atualmente em discussão em Espanha, «contra a discriminação por orientação sexual, identidade ou expressão de género e características sexuais, e de igualdade social de lésbicas, gays bissexuais transsexuais, transgénero e intersexuais», projeto que chega a prever a destruição de livros, o bloqueio de páginas da internet e a doutrinação de funcionários públicos e jornalistas, Alguns dos seus críticos já lhe atribuíram o epíteto de ley mordaza[6].    

A “ideologia do género” e o ensino

Um importante âmbito de penetração impositiva da “ideologia do género” é o do ensino, encarado como um meio eficaz de doutrinação e transformação da mentalidade corrente (a esta questão também se tem referido o Papa Francisco). Pretende-se que as crianças, desde a mais tenra idade, se habituem à ideia de que o género é uma escolha independente do sexo de nascença, e que não há modelos de família de referência, como não são modelos de referência a paternidade e maternidade. A educação deverá servir para desconstruir os chamados estereótipos de género, nestes se incluindo qualquer forma de especificidade masculina e feminina (não apenas as que possam ser consideradas injustamente discriminatórias), incluindo no vestuário e nas brincadeiras espontâneas (com bonecas ou carrinhos).

E a tentativa de imposição estende-se até ao ensino não estatal.

Nesta linha, podem ser assinalados, como exemplos, a condenação em multa, do diretor do colégio espanhol Juan Pablo II, de Alcorcon, ou a política do Estado canadiano de Yukon de recusa de financiamento público de escolas que ensinem a doutrina católica sobre a prática homossexual.

Contra esta tentativa de imposição da “ideologia do género” no ensino, estatal e não estatal, podem invocar-se relevantes normas de direito internacional e de direito constitucional português. Assim, o artigo 26,º, n.º 3, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estatui: «Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos». Estatui, por seu turno, o artigo 2.º do Protocolo nº 1 adicional à Convenção Europeia dos Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais. «O Estado, no exercício das funções que tem de assumir no campo da educação e do ensino, respeitará o direito dos pais a assegurar essa educação e ensino consoante as suas convicções religiosas e filosóficas». E estatui o artigo 43.º.n.º 2, da Constituição portuguesa: «O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas políticas, ideológicas ou religiosas».

       Importa, de qualquer modo, esclarecer bem o alcance da recusa da imposição da “ideologia do género”, no âmbito do ensino e noutros âmbitos.

O Papa Francisco tem salientado com insistência que a condenação dos erros da “ideologia do género” não implica faltar à caridade para com qualquer pessoa que experimente atração por pessoas do mesmo sexo (facto que não depende da sua vontade e pode, para ela representar, uma provação), tenha uma prática homossexual ou se considere de um género diferente do seu sexo (transsexual).

A respeito das pessoas com tendência homossexual, o Papa Francisco com frequência alude ao Catecismo da Igreja Católica, que afirma (n. 2538) que elas devem ser tratadas «com respeito compaixão e delicadeza», e que contra elas deve ser evitada qualquer «discriminação injusta». Na conferência de imprensa durante o voo de regresso da viagem à Geórgia e Azerbeijão, afirmou: «As pessoas devem ser acompanhadas como as acompanha Jesus. Quando chega diante de Jesus uma pessoa que tem esta condição, com toda a certeza Jesus não lhe dirá: “Vai-te embora porque és homossexual”». E o mesmo afirmou em relação a pessoas transsexuais.

Por isso, são de condenar todas as formas de ódio, violência, injúria, humilhação ou bullying de que qualquer destas pessoas possa ser vítima. Não podemos ignorar que é muitas vezes a exigência de evitar alguma destas situações que serve de pretexto para implementar a “ideologia do género”. Condenar esta não significa aceitar alguma dessas situações.

Também é verdade que a ideia de especificidade masculina e feminina tem servido, ao longo da história, para consolidar divisões de tarefas rígidas e esteriotipadas, que, sobretudo, limitaram o papel da mulher na sociedade. Contra essas limitações, é justo reagir. As especificidades masculina e feminina não são algo de rígido (e daí também a sua beleza) e são assumidas por cada pessoa como ser único e irrepetível (nem todos os homens são iguais, nem todas as mulheres são iguais, cada homem é homem a seu modo, cada mulher é mulher a seu modo). Isso mesmo salientam a nota da Conferência Episcopal Portuguesa já referida e a exortação apostólica Amoris Laetittia. Nesta se afirma (n. 286):

«É verdade que não podemos separar o que é masculino e feminino da obra criada por Deus, que é anterior a todas as nossas decisões e experiências e na qual existem elementos biológicos que é impossível ignorar. Mas também é verdade que o masculino e o feminino não são qualquer coisa de rígido. Por isso é possível, por exemplo, que o modo de ser masculino do marido possa adaptar-se de maneira flexível à condição laboral da esposa; o facto de assumir tarefas domésticas ou alguns aspetos da criação dos filhos não o torna menos masculino nem significa um fracasso, uma capitulação ou uma vergonha. É preciso ajudar as crianças a aceitar como normais estes “intercâmbios” sadios que não tiram dignidade alguma à figura paterna. A rigidez torna-se um exagero do masculino ou do feminino, e não educa as crianças e os jovens para a reciprocidade encarnada nas condições reais do matrimónio. Tal rigidez, por seu lado, pode impedir o desenvolvimento das capacidades de cada um, tendo-se chegado ao ponto de considerar pouco masculino dedicar-se à arte ou à dança e pouco feminino desempenhar alguma tarefa de chefia. Graças a Deus, isto mudou; mas, nalguns lugares, certas ideias inadequadas continuam a condicionar a legítima liberdade e a mutilar o autêntico desenvolvimento da identidade concreta dos filhos e das suas potencialidades.»

Outra coisa é, porém, como faz a “ideologia do género”, negar qualquer especificidade masculina ou feminina, ou desvalorizar a paternidade e matermidade no que têm de insubstituível. Nem todas as diferenças são socialmente construídas, há as que são espontâneas (como podem ser, até certo ponto, os jogos e brincadeiras de rapazes e meninas) e baseadas em dados biológicos (a partir de diferentes configurações cerebrais). Poderá ser tão opressora a imposição de estereótipos socialmente construídos como a igualmente arbitrária e artificial negação dessas diferenças. Diz também o Papa Francisco na Amoris Laetitia (n. 173): «Aprecio o feminismo, quando não pretende a uniformidade nem a negação da maternidade.» E também (n. 175): «Há funções e tarefas flexíveis, que se adaptam às circunstâncias concretas de cada família, mas a presença clara e bem definida das duas figuras, masculina e feminina, cria o âmbito mais adequado para o amadurecimento da criança.»

                                                                       Pedro Vaz Patto


[1] Ver www.sexchangeregret.com

[3] No momento em que escrevo, estão pendentes nos tribunais norte-americanos os casos dos pasteleiros Aaaron e Melissa Klein, de Gresham (Oregon), e de Jack Philips, de Lakewood (Colorado), assim como o da florista  Barronelle Stutzman, de Richland (Washington).

[4] No momento em que escrevo, estão em discussão linhas guia da Ordem dos Psicólogos portuguesa que vão nesse sentido.

[5]Contra tal suposto consenso pode ver-se o estudo de Lawrence Mayer e Paul Mc Hugh «Sexuality and Gender Findings from the Biological Psicological and Social Sciences», em New Atlantis, n.º 50, 2016 (www.thenewatlantis.com/docLib/20160819_TNA50SexualityandGender.pdf) e o estudo da National Association for Research and Therapy of Homosexuality publicado no Journal of Human Sexuality, vol I, (https://static1.Squarespace.com/static/5527394ae4b0ab26ec1c196b/t/557b0f80e4b08777d54df70c/1434128256329/What-research-shows -homosexuality.NARTH_.pdf). E podem ver-se os testemunhos de mudança de Luca del Tove (Erro Gsy A Medjugorje ho ritrovato me stesso Piemme 2008 Milão) e de Richard Cohen (Abriendo las Puertas del Armario lo que no sabias sobre la homosexualidad, tradução espanhola, Libroslibres Madrid 2013).

[6] Críticas pormenorizadas a esse projeto de lei surgiram do Foro Espanol de la Familia (ver https://www.forofamilia.org/notas-de-prensa/el-foro-de-la-familia-manifiesta-su-apoyo-al-derecho-de-los -padres-para-decidir-en-libertad-la-educacion-de-sus-hijos-en-materia-de-sexualidad) e da Aliança Evangélica Espanhola (ver http://www.aeesp.net/2017/07/13/proposicion-de-ley/)


sábado, 22 de agosto de 2020

Arte e espiritualidade

Alguma vez pensou em olhar para as obras de arte como símbolos da evolução do Homem, em particular da sua natureza espiritual?

Na verdade, a arte esteve desde sempre ligada à necessidade que o homem tem de se eternizar, de fixar a sua memória para as gerações vindouras, de se rebelar contra a finitude da sua existência.

Assim, os homens da pré-história criavam obras de arte usando matérias-primas rudimentares, como o sangue dos animais e o carvão. Estas pinturas, denominadas “arte rupestre”, eram desenhadas principalmente no interior das cavernas.

Repare, por exemplo, nas figuras que se encontram no interior das grutas de Lascaux, em França:

Ao observar estes desenhos, conseguimos ver e ler como viviam homens daquela época, o quanto os animais eram importantes para eles e faziam parte do seu dia-a-dia.

Mas percebe-se, no Homem que cria estes desenhos, para além desta necessidade de “escrever” pintando tudo aquilo que fazia parte do seu meio ambiente, uma aspiração a imortalizar a sua experiência. A arte é, portanto, uma expressão da espiritualidade que todos os homens possuem e buscam.

Esta espiritualidade – a capacidade de refletir sobre a sua experiência e de a reproduzir, mas também o desejo de saber o que há para além da vida mortal neste mundo – foi sempre um motor do conhecimento e aperfeiçoamento da humanidade. Esta mais-valia, que permite aos homens expressarem as suas vivências através de símbolos, ajuda-os a comunicar; a arte é por isso, também, uma forma de comunicar.

Os desenhos dos homens primitivos são muitas vezes abstratos, puros e belos, apesar de nem sempre corresponderem à nossa ideia de belo. O belo é uma forma sobrenatural de comunicar, mesmo que, por vezes, não possuamos a chave que nos permite descodificar uma obra de arte.

A este propósito, diz-nos o Papa Francisco no seu livro A Minha Ideia de Arte: “Não devemos ter medo de encontrar e utilizar novos símbolos, novas formas de arte, novas linguagens, mesmo aquelas que parecem pouco interessante a quem evangeliza ou aos curadores, mas que são, todavia, importantes para as pessoas, porque sabem falar às pessoas.”

Os nossos antepassados também não tiveram medo de se expressar de maneiras surpreendentes. Assim, num período posterior, as mulheres são retratadas com formas claramente arredondadas, querendo simbolizar a fertilidade. É exemplo disso a “Venus de von Willedorf”, com as suas formas exageradas, que evocam a reverência dos artistas pelo mistério da vida, pela capacidade feminina de transmitir a vida humana, encarada como uma vida que não é simplesmente animal.

Como se vê, os elementos das obras de arte têm valor simbólico. A simbologia cristã primitiva, por exemplo, é muito rica e nela os símbolos figurativos juntam-se aos abstratos, como o peixe, a pomba com o ramo de oliveira no bico, o paavão, a âncora, o lírio, o cacho de uvas, a espiga de trigo, entre outros.

O peixe representava Cristo, pois as iniciais das palavras gregas “Jesus Cristo filho de Deus Salvador”, formam “ICHTUS”, que significa peixe em grego.

A pomba fazia alusão a Noé; o pavão era o símbolo da eternidade; a âncora significava a salvação pela firmeza da fé ou a cruz do calvário; o lírio significava pureza, o cacho de uvas o sangue de Cristo e a espiga representava o pão da eucaristia.

Como estes símbolos têm um significado, também a obra do artista deve ser conhecida na sua totalidade, a fim de se decifrar a respetiva simbologia.

Ana Figueiredo 






sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A humanidade está doente

O homem da nossa época parece ter perdido o sentido da sua verdadeira grandeza e da sua imensa superioridade face aos outros animais.

A tecnologia num mundo totalitarista escraviza a humanidade e torna-se uma barbárie cultural e intelectual, tão satirizada ou profetizada por George Orwell no seu livro “1984”.

A ciência experimental limita-se a estudar causas e efeitos materiais que se podem relacionar com observações e experiências, pelo que é descabido ou incorrecto procurar provar a existência de Deus e muito menos utilizá-la para apoiar ideologias materialistas ou ateias.

Estas tendências reinantes apresentam a ciência como uma profecia disfarçada de cientismo, que pretende impressionar ou convencer a humanidade de que é portadora duma verdade “cientificamente testada”. Porém o cientista é tão só um humilde investigador da verdade e a ciência não contaminada pelas pressões materialistas e cientistas, sabe que estas ameaças comprometem gravemente os valores culturais e religiosos que modelaram e inspiraram a nossa sociedade com a sua herança cristã.

Quando Darwin publicou, em 1859, “ A origem das espécies”, estas ideias alcançaram repentinamente grande difusão, em parte por motivos ideológicos, porque muitos cientistas e filósofos influentes viram no darwinismo um apoio científico para o materialismo e ateísmo que queriam defender, reduzindo assim o Homem a um mero animal.

Esta perspectiva acarretou consequências que conduziram à permissão de toda a manipulação do homem a qualquer nível, pois negado o fundamento da dignidade da pessoa como ser espiritual de origem superior, com capacidade para pensar, falar e transcender-se, fica à mercê das correntes utilitaristas que não respeitam a vida humana e a destroem a seu belo prazer, por caprichos bélicos ou tendências selectivas, tendo como exemplo os extermínios nazis e comunistas, ainda bem presentes na nossa memória.

O Homem não é um mero animal, é um ser mais complexo, tem uma constituição composta por um corpo material e uma alma com dimensão espiritual. O facto de a ciência só poder trabalhar no campo da experimentação na matéria, a alma humana fica fora do seu âmbito de investigação, pelo que não pode confirmar directamente nem afirmar a existência da alma, e também não a pode negar.

A ciência reconhece e apoia-se numa ordem objectiva da natureza, e em que o Homem tem uma inteligência capaz de penetrar nessa ordem, a própria ciência é um produto de uma actividade intelectual que ultrapassa as possibilidades do mundo puramente material. Assim a ciência experimental pressupõe bases metafisicas, e uma delas é a capacidade intelectual humana, que exige um suporte espiritual.

Provado está que a existência e o progresso da ciência são uma contínua confirmação da metafisica, pois a física tem respostas insatisfatórias no que toca ao campo metafisico, ético e religioso.

Nestes tempos de forte pressão ideológica e mediática, a ciência corre o risco de ser instrumentalizada em favor das tendências totalitaristas ateias ou agnósticas, que nada têm a ver com a ciência, mas a utilizam essencialmente como forma ideológica de capa de rigor, para destruir a teologia natural ou sobrenatural.

Engels escrevia a Marx: “ O Darwin que estou agora a ler é magnífico. A Teologia ainda não estava destruída em algumas das suas partes. Mas agora isso acaba de ocorrer”.

Poder-se-á ainda perguntar porque é que Darwin teve e tem tanto êxito?

Maria Susana Mexia 


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Substituir Deus pelo demónio

O livro “Igreja e Maçonaria”, do professor universitário Alberto de la Bárcena, expõe as profundas diferenças entre a fé católica e a prática maçónica. Entre os rituais deste grupo, aponta o autor, há consagrações ao demónio, assim como a explícita renúncia do Cristianismo pisando uma cruz.

 

Neste livro, reitera o seu autor, não há rumores nem juízos de valor, porque contém “documentos pontifícios, encíclicas, pronunciamentos dos Papas”. “Todas as frases estão documentadas”, lamentando que este “é um tema do qual não se fala e, muitas vezes, os próprios cristãos estão confusos”.“Queria que este livro mostrasse a verdade da doutrina em relação à maçonaria”.

 

Além disso, insiste que “a posição da Igreja não mudou em nada desde a primeira condenação em 1738, embora alguns quisessem difundir a opinião de que é possível pertencer a uma loja e a uma Igreja. Mas não é assim”, e as condenações dos Papas não foram genéricas ou superficiais, mas claras e detalhadas, explicando por que foram excomungados os maçons.

Três séculos após a fundação da primeira Grande Loja Maçónica, os princípios dessa instituição continuam frontalmente incompatíveis com a doutrina católica. O antagonismo recíproco entre a Igreja Católica e a Maçonaria está bem confirmado e é de longa data, as duas instituições têm sido reconhecidas, mesmo pela mentalidade secular, como implacavelmente opostas uma à outra. Aparentemente, a Maçonaria pode parecer não passar de um clube esotérico, mas ela já foi, e continua sendo, um movimento filosófico altamente influente com grande impacto, ainda que subtil, na sociedade e na política moderna.

Entre o Papa Clemente XII, em 1738, e a promulgação do primeiro Código de Direito Canónico, em 1917, oito papas ao todo escreveram condenações explícitas à Franco-maçonaria. Todas previam a mais estrita pena eclesiástica para quem se associasse: excomunhão automática reservada à Sé Apostólica. O que Clemente XII denunciou originalmente, não era uma sociedade republicana revolucionária, mas um grupo que propagava o indiferentismo religioso: a ideia de que todas as religiões (e nenhuma delas) têm igual validade, e que na Maçonaria estão todas unidas para servirem a um entendimento comum e mais elevado da virtude. Desde o princípio, a preocupação primária da Igreja foi a de que a Maçonaria submete a fé de um católico à da loja, obrigando-o a colocar uma fraternidade secularista fundamental acima da comunhão com a Igreja. 

A Igreja Católica nunca aceitou que os seus fiéis fossem da maçonaria e historicamente já se opôs radicalmente a esta sociedade secreta, devido aos seus princípios anticristãos, em especial os deístas, libertários e humanistas ou iluministas.

A longa história de condenação pública começou quando o Cardeal André Hercule de Fleury, primeiro-ministro de Luís XV, a 14 de Setembro de 1737, proibia todas as reuniões secretas e, especialmente, a formação de associações qualquer que fosse o pretexto e qualquer que fosse a denominação.

Depois foi a vez do Papa Clemente XII, a 28 de Abril de 1738, que proibiu os católicos de se tornarem membros de lojas maçónicas, através da bula In eminenti apostolatus specula.

A Igreja Católica assinalava assim a incompatibilidade entre o juramento e o segredo das obediências maçónicas e a condição de cristão integrado na Igreja Católica Romana. Após essa primeira condenação, surgiram mais de vinte outras.

Entre elas, que fazem referências desfavoráveis à maçonaria além da referida, enumeram-se as seguintes: Providas Romanorum, de Bento XIV (1751); Ecclesiam a Jesu Christo, de Pio VII (1821); Quo Gravioria Mala, de Leão XII (1825); Traditi Humilitati (1829), Litteris Altero (1830), Pio VIII; Mirari Vos (1832), Gregório XVI; Qui Pluribus (1846), Quibus Quantisque Malis (1849), Quanta Cura (1864), Multiplices Inter (1865), Apostolicae Sedis Moderatoni (1869), Etsi Multa (1873), Etsi Nos (1882), de Pio IX; Humanum Genus (1884), Officio Sanctissimo (1887), Dall’Alto Dell’Apostolico Seggio (1890), Inimica Vis (1892), Custodi di quella fede (1892), Praeclara (1894), Annum ingressi (1902), de Leão XIII.

O último documento oficial de referência é a Declaração sobre a maçonaria, assinado pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, em 26 de Novembro de 1983. O texto afirma que permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

Até 1983, a pena para Católicos que se associassem a essa sociedade era de excomunhão. Desde então, a pena é um interdito, afastando o fiel da recepção dos Sacramentos (principalmente Confissão e Eucaristia).

Mais recentemente, o Papa Francisco tem mostrado a  sua grande preocupação com uma infiltração maçónica na Cúria e noutras organizações católicas.

Foi e é um desejo maçónico tirar da Igreja qualquer forma de controlo ou influência sobre escolas, hospitais, instituições de caridade públicas, universidades e qualquer outra associação que sirva ao bem comum, como o de reduzir o matrimónio a um mero contrato civil, promover o divórcio e apoiar a legalização do aborto.

É praticamente impossível saber destas intenções e não reconhecer nelas a base de quase todo o discurso político contemporâneo e constatar o sucesso deste processo de secularismo.


Artur Pereira dos Santos 


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O que faço versus o que gostaria de fazer

A eterna dualidade. O sentimento de que não nos encontramos, na maioria dos casos, a fazer o que gostamos de realizar habitualmente. Torna-se necessário optar. Na semana passada foi dia dos avós, dia de Santa Ana e de São Joaquim, pais de Maria, mãe de Jesus, padroeiros dos avós. Estava com a minha neta de férias escolares há já algumas semanas. Muito viva e ativa, toda a atenção que lhe dedico é pouca. Logo, tive de deixar de parte algumas atividades do dia-a-dia que gosto de concretizar, entre elas a Escrita, as longas caminhadas… Mas tudo tem o reverso da medalha. Usufrui da sua companhia: visitei museus, vi filmes infantis, li histórias, isto é, vi o mundo sob uma perspetiva diferente. Acompanhou-me à missa. Colocou-me tantas questões que fiquei admirada com o seu poder de observação. Interiorizava cada momento que vivenciava. Ainda assim, ontem já me sentia esgotada, confesso. Sentia imensa falta da escrita. Mas também uma alegria imensa por ter usufruído da sua doce e às vezes “birrenta” companhia. Reconheço que se torna muito difícil educar, ser firme, mas é necessário. Quantas vezes tive necessidade de me impor, com o coração apertado. Era para o seu bem. Quem será mesmo que disse que os avós não têm de educar? Na realidade eu já o disse, mas é quando vem de visita… Apesar de tudo, quando partiu com o pai, fiquei com a sensação de ninho vazio. Mas também, algum descanso para poder retomar as minhas atividades normais. Ainda não consegui, de modo algum, o almejado equilíbrio, talvez devido a alguma falta temporária de energia, que seja suficiente para ser avó e realizar as tarefas habituais. Mas tudo tem o seu tempo. Agora tornava-se prioritário usufruir em pleno da sua presença. Como tinha crescido! Achei imensa graça, quando foi reclamar junto do pai: “a vovó dá-me uma pasta dentífrica dos 2 aos 6 anos e eu já tenho 8”. E era mesmo verdade. Tinha pedido na farmácia uma pasta infantil com sabor a morango. Contudo, não reparei na idade. Sempre atenta. Como cresceu. Ainda há pouco tempo era uma bebé! Numa das suas “chamadas de atenção”, recuei muitos anos atrás, recordando ter vivenciado uma situação semelhante com um dos meus filhos. Os anos passaram e a situação vivenciada com o meu filho repete-se agora com a minha neta, a genética a funcionar, noutra geração. Hoje de manhã referiu: “É o dia dos avós. Quero ir almoçar contigo”. Mas seria jantar, com presença do pai num restaurante escolhido por ela, “fast-food”, porque oferecia um colchão de praia. Bem, não teve importância. O melhor mesmo era a sua companhia neste dia especial. Comentei com o meu filho, que o hambúrguer que ele tinha escolhido, era o que eu costumava pedir em Nova Iorque, há muitos anos atrás. Ainda o provei e reconheci o mesmo sabor. No entanto, agora tinha mais cuidado com a alimentação. E partiu feliz, não sem antes insistir com o pai que queria ficar comigo porque era ainda dia dos avós. E senti a mesma dualidade. Queria ficar comigo, mas também ir para casa ver um filme na companhia do pai. Acabei por a incentivar para que fosse com o pai. Já tinha sido muito bom. Recordei o que o Papa Francisco tinha referido relativamente à festa de Santa Ana e de São Joaquim, enfatizando a importância dos avós na transmissão da fé e da humanidade, o precioso papel dos avós na família e na sociedade. Quão importantes são eles na vida de família para comunicar o património de humanidade e de fé, que é essencial para qualquer sociedade. Na verdade, as crianças absorvem os valores que a família lhes transmite.

Bem, já sem a companhia da minha neta resolvi ir ao cinema. Havia um filme que queria muito ver Pavarotti. Graças a Deus ainda se encontrava em exibição. Marcaram-me as palavras “a dureza do mundo não nos impeça de darmos o melhor que temos”. Depois a voz deste tenor lírico, sobejamente conhecido, é simplesmente sublime. Foi excelente ouvir inúmeros excertos de operas, agora contextualizados, conhecer pormenores da sua vida pessoal que desconhecia, o seu interesse e apoio a crianças em sofrimento por diferentes motivos. Uma vida cheia, de alguém que, com origens modestas, lutou e fez render os seus talentos, tornando-se um dos maiores tenores mundiais, que muito ajudou a difundir a ópera. Vieram-me as lágrimas aos olhos quando ouvi magistralmente cantada a ária “Riti Pagliaccio”: “Ria Palhaço…” transforma em risos os espasmos e o choro… Ria Palhaço no seu amor aos pedaços, ria da dor que lhe envenena o coração”. Foi indescritível assistir à primeira atuação de “Os 3 Tenores”, (Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras), nas Termas de Caracala em Roma. Nessum Dorma, da ópera Turandot, entre muitas outras árias de óperas cantadas em diferentes palcos, os melhores a nível mundial, tais como no Metropolitan em Nova Iorque, no Staats Oper em Viena… tantos locais que se torna impossível enunciar. O seu sofrimento e pobreza na infância, durante a guerra, fizeram-me recordar que “A pobreza e a guerra não se encontram escritas nas estrelas, não são fruto de um qualquer desígnio de Deus, mas sim do homem”. Mais rica culturalmente, feliz, deixei a sala de cinema ainda debaixo do efeito de tudo o que me tinha sido dado a observar e ainda com o som da música da voz magnífica deste tenor. Liguei o telemóvel. A minha neta trouxe-me à realidade com um telefonema via Whatsapp a questionar se tinha gostado do filme, dando ênfase de que tinha sido muito longo. Sentia saudades da vovó. E eu dela!

E assim nesta dualidade entre “O Que Faço versus O Que Gostaria de Fazer”, que dá o título a este artigo, terminou a minha tarde “sob um manto de estrelas…” ao som da música “Chitarra Romana”, cantada por Pavarotti, “que me acompanha em silêncio”. Na realidade a ópera, enquanto expressão de arte e de cultura é uma maravilha, faz mesmo milagres. Termino este artigo no dia em que se celebra a festa de Nossa Senhora da Paz, a quem recorremos, no sentido de rogar pela Paz que o Mundo procura sem encontrar. Que o Seu auxílio maternal nos faça valentes, pacientes e eficazes, no sentido de nos comprometermos a trabalhar pela justiça, fundamento da paz de que carecemos. 

Maria Helena Paes