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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Reconciliar e perdoar

1. Sentinelas da paz
Semanas atrás o Papa Francisco visitou duas regiões do planeta que desde há muitos anos vivem em permanente tensão, onde, de vez em quando, rebenta um conflito armado e há corte de relações. Refiro-me ao Médio Oriente, sobretudo Israel e Palestina e Extremo Oriente, a Coreia. Essas visitas, repletas de belos discursos e gestos simbólicos parecem ter sido inúteis. O Papa rotulou a situação mundial de início de uma guerra mundial aos pedaços. Para quem viveu os horrores da segunda guerra mundial e sofreu as suas terríveis consequências, deveria tentar tudo para que isso não se tornasse verdade.

Na missa deste último domingo as leituras bíblicas lembraram a missão dos cristãos e da Igreja a este respeito. O profeta Ezequiel dizia que devemos ser sentinelas que advertem os pecadores e transgressores da ordem, pois se não o fizermos somos corresponsáveis pelo mal que acontece e chamados a sofrer também o castigo.

Ao meditar este trecho bíblico, adveio-me o pensamento da inutilidade de tantas esforços e tentativas da Igreja e das organizações internacionais para estabelecer a paz entre os povos e dentro de alguns países profundamente divididos e envolvidos em guerras civis. Será que vamos às causas dos conflitos? Serão inúteis todos os esforços?

A Fundação Calouste Gulbenkian concedeu o prémio deste ano de 2014 a uma organização católica conhecida por Comunidade Santo Egídio, movimento nascido há 50 anos, durante o Concílio Vaticano II, no bairro romano de Trastevere e que hoje está espalhado em mais de 70 países, com cerca de 60 mil leigos empenhados em promover o diálogo ecuménico e em apoiar pessoas sem abrigo, idosos, crianças, presidiários, vítimas de guerras e imigrantes, assim como em mediar conflitos através do diálogo, da oração e do testemunho de vida comunitário. É bem conhecido o seu papel na reconciliação dos movimentos armados na guerra civil em Moçambique. Divulgando os valores e princípios de um novo humanismo, esta comunidade acredita que a paz é possível. Aqui está uma maneira de ser sentinela da paz e da reconciliação entre os povos.

Por isso não desiste de acreditar e intervir em situações de conflito. Assim também o Papa Francisco. E nós, como vivemos e agimos face a tantas situações de conflito, a começar pelas nossas famílias e comunidades cristãs? As leituras deste domingo deram-nos matéria para alimentar as nossas convicções e atividades ao longo do ano e da vida. Na carta aos Romanos S. Paulo diz-nos que não devemos ficar a dever nada a ninguém, a não ser o amor de uns para com os outros, no qual consiste o pleno cumprimento dos mandamentos.

E nós, nas empresas, na sociedade, no Estado devemos tantos justos salários e remunerações, sinal de que o amor ao próximo e a justiça andam muito espezinhados.

Mesmo dentro das comunidades cristãs o evangelho de S. Mateus aponta-nos como devemos resolver os nossos conflitos, apenas desistindo quando o prevaricador não quer dar ouvidos a ninguém. Muitas vezes tornamos impossível o diálogo, começando por não ouvir o próprio nem ninguém. Assim é impossível o ministério da reconciliação.

2. Renovar os métodos da nossa pastoral
No sábado, de tarde, reuni com cristãos comprometidos vindos de todos os cantos da nossa diocese, em ordem a iniciar uma ação de formação para os qualificar melhor para a missão da Igreja. Temos de ser criativos na formação e ação dos nossos colaboradores. Pena que muitas vezes não disponibilizamos o nosso tempo para esta qualificação nem encontramos os meios mais adequados para o conseguir. Mas desistir é pecado. Seremos responsabilizados pela omissão de sermos sentinelas e promotores de comunidades que se empenham na reconciliação das pessoas, das famílias e da sociedade. Muitas vezes ficamos no lamento pessimista de que tudo anda mal. Vemos o argueiro na vista dos outros, julgando-os precipitadamente e estamos cegos para as imensas possibilidades de nos convertermos em profetas da esperança, do amor, da justiça e da paz.

A grande renovação da Igreja, isto é, de nós, cristãos baptizados e dos frequentadores dos nossos templos, tem de começar pela conversão e renovação pessoal das nossas convicções e atitudes. E, a seguir, estarmos atentos a quem manifesta vontade em caminhar, mas se encontra perplexo, com dúvidas, só e desanimado. É preciso escutar, acompanhar, perguntar sobre as razões profundas do desânimo, iluminar os companheiros de caminho a partir da nossa fé e experiência e reconduzi-los à alegria da comunidade, que celebra e vive a realidade de Cristo ressuscitado. Isto nos mostra o trecho do evangelho de S. Lucas, cap. 24, conhecido por história dos discípulos de Emaús. Este mesmo método de acção segue o Papa Francisco e na sua grande Exortação Apostólica Alegria do Evangelho propõe para toda a Igreja, cuja leitura e reflexão recomendo, não apenas alguns números semanalmente, como o faz o Notícias de Beja, mas como livro que se começa a ler sem intercalar muitos outros.

Por hoje fico-me por aqui. Na nossa caminhada sinodal voltaremos ao assunto.

† António Vitalino, Bispo de Beja

Nota semanal em áudio:



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