Mini-conclaves, conclaves sem tecto e outras curiosidades...
Enquanto espera a fumaça branca com os seus amigos e parentes, pode comentar algum destes pontos e ficar como um autêntico especialista em história eclesial.
Actualizado 11 de Março de 2013
P.J.G./ReL
I - A forma de eleger o Papa que durante mais anos se manteve foi “por aclamação” do clero e do povo romano. Em 1996 João Paulo II eliminou definitiva e formalmente esta possibilidade da legislação eclesial, mas fica algo dela na simbologia de aparecer no balcão perante a multidão – hoje em dia internacional, mas ainda romana - na Praça de São Pedro.
II - Em 1059 os cardeais converteram-se nos principais eleitores do Papa, mas inclusive então os laicos e clérigos de Roma mantinham um direito a confirmar a eleição.
III - Não foi até 1179, no Terceiro Concílio de Letrán, que a Igreja assumiu que se elegesse o Papa por voto de dois terços dos cardeais. Também Bento XVI durante o seu pontificado voltou a estabelecer esta maioria de 2 terços (que seriam 77 votos dos 115 que há neste Conclave de 2013).
IV - O primeiro Conclave propriamente dito teve lugar em 1271 e não por decisão eclesial mas sim por imposição popular. Durante 3 anos não tinha havido Papa, e o povo de Viterbo, onde estavam reunidos os 12 cardeais, estava farto. Fecharam-nos juntos à chave e impediram-nos de sair até que elegessem Papa. Ao fim de uns dias, como os cardeais se negavam, racionaram-lhes a comida a pão e água. E finalmente inclusive tiraram o tecto para que passassem frio e humidade.
Acabaram elegendo Gregório X, hoje beato. Enquanto pode, no Segundo Concílio de Lyon, em 1274, Gregório, inspirando-se no vivido em Viterbo, estabeleceu as normas do Conclave, incluindo uma norma que obriga a alimentar os cardeais só com uma refeição se depois de 3 dias não se puseram de acordo, e a pão e água a partir do oitavo. Ordenava que o Conclave começasse 10 dias depois da morte do Papa.
V - Os cardeais podem eleger a qualquer varão baptizado no uso da razão. Gregório X não era sacerdote quando foi eleito em 1271. A toda a pressa ordenaram-no, consagraram-no bispo, nomearam-no bispo de Roma e Papa. Mas o Papa Urbano VI (1378-1389) foi o último homem eleito como Papa que não fosse cardeal. Na normativa de 1997 que deixou João Paulo II recolhe-se esta possibilidade de eleger como Papa alguém que não é nem bispo nem cardeal.
VI - Em 1417 o Conclave incluía 30 delegados que não eram cardeais e representavam as “nações” da Cristandade: França, Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha. Era um caso muito especial: tratava-se de acabar com várias décadas do Cisma do Ocidente, no qual havia chegado a haver 3 Pontífices ao mesmo tempo. E conseguiram-no.
VII - Este Conclave de 2013, com 115 eleitores, é o mais numeroso da história. No Conclave de 1261 só havia 7, por exemplo.
VIII - Em 1492, ano do descobrimento da América, teve lugar o primeiro Conclave na Capela Sistina, mas então não era tão impressionante: o seu tecto e paredes estavam por pintar. Faltavam 16 anos para que Miguel Ângelo pintasse os seus frescos. Tampouco foi normativo celebrar ali os Conclaves seguintes.
IX - Que o eleito como Papa mude o nome não é obrigatório nem sempre se fez. João II no ano 533 parece ser o primeiro que tomou tal decisão. Mas não era comum nos primeiros mil anos de história da Igreja.
Por outro lado, desde o ano 996 se fez muito comum. Marcelo II, eleito em 1555, foi o último papa que manteve o seu nome de origem. O “João Paulo”, de João Paulo I foi o primeiro “nome novo” na lista papal depois de mil anos, e de facto era uma combinação dos seus predecessores: João XXIII e Paulo VI.
X - Durante quase toda a história da Igreja, se exceptuarmos os três primeiros séculos e o último, um problema grave foi como limitar as ingerências dos poderes políticos nas eleições papais. O imperador romano, e até ao século VIII o bizantino, se arrogava o direito a “confirmar” a eleição do novo Papa.
Quando o Papa Leão III coroou Carlos Magno como “imperador romano”, foi o rei franco e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico quem se arrogou este direito. Inclusive até 1903 França, Espanha e o Império Austro-húngaro exerciam um direito a vetar um candidato papal no Conclave.
Nesse ano, Francisco José I da Áustria vetou o grande favorito, o cardeal Rampolla, o qual levou ao Trono de São Pedro o cardeal Sarto, que seria São Pio X e foi quem aboliu definitivamente este direito e estabeleceu excomunhão para qualquer cardeal que tentasse invoca-lo num Conclave.
Enquanto espera a fumaça branca com os seus amigos e parentes, pode comentar algum destes pontos e ficar como um autêntico especialista em história eclesial.
Actualizado 11 de Março de 2013
P.J.G./ReL
I - A forma de eleger o Papa que durante mais anos se manteve foi “por aclamação” do clero e do povo romano. Em 1996 João Paulo II eliminou definitiva e formalmente esta possibilidade da legislação eclesial, mas fica algo dela na simbologia de aparecer no balcão perante a multidão – hoje em dia internacional, mas ainda romana - na Praça de São Pedro.
II - Em 1059 os cardeais converteram-se nos principais eleitores do Papa, mas inclusive então os laicos e clérigos de Roma mantinham um direito a confirmar a eleição.
III - Não foi até 1179, no Terceiro Concílio de Letrán, que a Igreja assumiu que se elegesse o Papa por voto de dois terços dos cardeais. Também Bento XVI durante o seu pontificado voltou a estabelecer esta maioria de 2 terços (que seriam 77 votos dos 115 que há neste Conclave de 2013).
IV - O primeiro Conclave propriamente dito teve lugar em 1271 e não por decisão eclesial mas sim por imposição popular. Durante 3 anos não tinha havido Papa, e o povo de Viterbo, onde estavam reunidos os 12 cardeais, estava farto. Fecharam-nos juntos à chave e impediram-nos de sair até que elegessem Papa. Ao fim de uns dias, como os cardeais se negavam, racionaram-lhes a comida a pão e água. E finalmente inclusive tiraram o tecto para que passassem frio e humidade.
Acabaram elegendo Gregório X, hoje beato. Enquanto pode, no Segundo Concílio de Lyon, em 1274, Gregório, inspirando-se no vivido em Viterbo, estabeleceu as normas do Conclave, incluindo uma norma que obriga a alimentar os cardeais só com uma refeição se depois de 3 dias não se puseram de acordo, e a pão e água a partir do oitavo. Ordenava que o Conclave começasse 10 dias depois da morte do Papa.
V - Os cardeais podem eleger a qualquer varão baptizado no uso da razão. Gregório X não era sacerdote quando foi eleito em 1271. A toda a pressa ordenaram-no, consagraram-no bispo, nomearam-no bispo de Roma e Papa. Mas o Papa Urbano VI (1378-1389) foi o último homem eleito como Papa que não fosse cardeal. Na normativa de 1997 que deixou João Paulo II recolhe-se esta possibilidade de eleger como Papa alguém que não é nem bispo nem cardeal.
VI - Em 1417 o Conclave incluía 30 delegados que não eram cardeais e representavam as “nações” da Cristandade: França, Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha. Era um caso muito especial: tratava-se de acabar com várias décadas do Cisma do Ocidente, no qual havia chegado a haver 3 Pontífices ao mesmo tempo. E conseguiram-no.
VII - Este Conclave de 2013, com 115 eleitores, é o mais numeroso da história. No Conclave de 1261 só havia 7, por exemplo.
VIII - Em 1492, ano do descobrimento da América, teve lugar o primeiro Conclave na Capela Sistina, mas então não era tão impressionante: o seu tecto e paredes estavam por pintar. Faltavam 16 anos para que Miguel Ângelo pintasse os seus frescos. Tampouco foi normativo celebrar ali os Conclaves seguintes.
IX - Que o eleito como Papa mude o nome não é obrigatório nem sempre se fez. João II no ano 533 parece ser o primeiro que tomou tal decisão. Mas não era comum nos primeiros mil anos de história da Igreja.
Por outro lado, desde o ano 996 se fez muito comum. Marcelo II, eleito em 1555, foi o último papa que manteve o seu nome de origem. O “João Paulo”, de João Paulo I foi o primeiro “nome novo” na lista papal depois de mil anos, e de facto era uma combinação dos seus predecessores: João XXIII e Paulo VI.
X - Durante quase toda a história da Igreja, se exceptuarmos os três primeiros séculos e o último, um problema grave foi como limitar as ingerências dos poderes políticos nas eleições papais. O imperador romano, e até ao século VIII o bizantino, se arrogava o direito a “confirmar” a eleição do novo Papa.
Quando o Papa Leão III coroou Carlos Magno como “imperador romano”, foi o rei franco e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico quem se arrogou este direito. Inclusive até 1903 França, Espanha e o Império Austro-húngaro exerciam um direito a vetar um candidato papal no Conclave.
Nesse ano, Francisco José I da Áustria vetou o grande favorito, o cardeal Rampolla, o qual levou ao Trono de São Pedro o cardeal Sarto, que seria São Pio X e foi quem aboliu definitivamente este direito e estabeleceu excomunhão para qualquer cardeal que tentasse invoca-lo num Conclave.
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