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quinta-feira, 7 de abril de 2016

A arte dos loucos

“A obra de arte constitui um campo aberto de sentido, um fluxo inesgotável de significação. Uma obra toca-nos na medida em que há nela algo que nos olha, que prende a nossa atenção e desperta uma parte de nós mesmos. Entre a obra e aquele que a frui estabelece-se uma unidade dinâmica, um diálogo vivo. Mas ao mesmo tempo que ela nos fala e nos comunica alguma coisa também nos desafia a enfrentar aquilo que nela se mantém enigmático. Não há arte sem dose de mistério, nela nunca está tudo dito e é por isso que ela é irredutível a tudo aquilo que nós possamos dizer a seu respeito”.

O termo Arte Bruta, usado pela primeira vez por Jean Dubuffet en 1945, refere-se a obras de arte ditas “marginais”, designa as criações produzidas por personalidades cuja alteridade social ou mental os extrai das correntes estéticas dominantes: arte nua, natural, primitiva e brutal, a arte de loucos, dos mediuns, das personalidades extraordinárias, invadidas por um impulso criativo que é revelador de uma perturbante originalidade.

A Arte Bruta (Art Brut, em francês) é uma forma de expressão de pessoas que por uma razão qualquer escaparam do condicionamento cultural e do conformismo social. Ignorantes da tradição, indiferentes às críticas, únicos destinatários das próprias obras, os criadores de Arte Bruta agem por instinto, transgridem as formas da arte estabelecida, sem se preocuparem com a sua divulgação ou comercialização, e a maior parte das vezes escondem-se para criar. 

Sem submissão a escolas ou regras, normas ou eventuais pressões exteriores, a Arte Bruta brota da livre associação de ideias, fantasias, caprichos e medos que em desproporcionada incoerência extravasa e colide com uma aparente hierarquia tradicional ou admitida como “esteticamente correcta”

Criam como respiram, constroem o mundo à sua (des)medida e provocam a premência de um novo paradigma de sentido sobre o funcionamento e a interpretação da força de desconhecidos poderes da imaginação criadora como forma de catarse ausente de preceitos e preconceitos, estes geniais inventores, criaram o seu próprio método.

Autodidactas na sua maioria, pairando numa outra dimensão, recorrendo a matérias fortuitos, em segredo, escondidos e em silêncio, ergueram verdadeiros monumentos à sensibilidade, à inteligência e à liberdade.

Estes artistas, que não reivindicam o estatuto de criadores, transgridem as normas da “arte estabelecida” sem se preocuparem em revelar o seu trabalho,  que permaneceu muitas vezes desconhecido ou ignorado, tendo como única preocupação a paixão/obsessão de criar. Génios distantes do mundo cultural, marginalizados, exclusos ou internados em hospitais psiquiátricos são, sem saber, os artífices da Arte Bruta.

Estas obras são um tesouro a preservar, a conservar, a contemplar e a admirar. Em Portugal, no Oliva Creative Factory, em São João da Madeira, existe o único espaço do género na Península Ibérica, criado por dois colecionadores verdadeiramente apaixonados por esta perturbante forma de criatividade artística, que nos garantem, do cimo da sua audaz e bem conseguida aventura, que após uma visita a tão emblemático Museu - NADA FICARÁ COMO DANTES.

É ver para crer e querer dar valor e sentido de reconhecimento a quem tanto fez e faz por aqueles que o mundo exclui, rejeita, ignora ou minimiza.

Afinal estes também são as periferias numa sociedade que tarda em aprender a amar, a reconhecer, a valorizar e a integrar.

Maria Susana Mexia





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