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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Francisco e Kirill: de acordo com a imprensa internacional, “uma reunião histórica”

A imprensa internacional celebra o ponto de viragem nas relações entre católicos e ortodoxos e destaca as possíveis consequências no tabuleiro do Oriente Médio e nas relações com a Rússia

  Papa Francisco


O primeiro encontro histórico entre um pontífice da Igreja Católica Romana e um patriarca da Igreja Ortodoxa de Moscovo foi seguido de perto pela media de todo o mundo. Francisco e Kirill abriram em Cuba uma nova primavera no diálogo entre as duas Igrejas cristãs – e as consequências podem ir muito além da esfera religiosa.

“O papa Francisco se tornou o primeiro pontífice a se encontrar com um patriarca de Moscovo e tudo aconteceu em um lugar inesperado: o aeroporto de Havana, em Cuba”, diz um artigo de Jim Yardley no The New York Times. “Durante décadas, o Vaticano procurou o encontro com o patriarca de Moscovo como tentativa de sanar a rachadura entre a Igreja ocidental e a oriental. Bergoglio, que tem mantido um profundo compromisso com o ecumenismo no centro do seu pontificado, conseguiu alcançar a meta graças a uma combinação de factores. Mas nada disso teria acontecido se os interesses do patriarcado de Moscovo não tivessem coincidido com os do Kremlin de se apresentar como defensor do cristianismo no Oriente Médio, tentando assim sair do isolamento diplomático em que o Ocidente procura confinar a Rússia com as sanções económicas”.

Por outro lado, prossegue o New York Times, Kirill pôde explorar o “evento para reforçar a sua imagem em vista do próximo concílio pan-ortodoxo, agendado para Junho em Creta e organizado pelo patriarca Bartolomeu de Constantinopla, seu ‘rival’ na ‘hegemonia espiritual’ sobre a Igreja ortodoxa”.

“O primeiro encontro entre um papa e um patriarca de Moscovo construiu uma ponte sobre uma fenda no cristianismo que já dura quase mil anos, mas o coração do encontro foi a situação no Oriente Médio”, afirma um artigo de Nick Miroff e Brian Murphy no Washington Post. “A conversa de duas horas foi seguida pela publicação de um documento conjunto de trinta pontos, em que se exalta um novo espírito de cooperação para a protecção dos cristãos perseguidos e para a defesa da vida e da família tradicional, mas pouco se diz sobre a substância dos colóquios”.

O Washington Post destacou ainda que Bergoglio agradeceu pela hospitalidade ao presidente cubano, Raul Castro, e falou sobre a importância de Cuba como ponto de encontro e diálogo, como já tinha acontecido também nas negociações de paz entre o governo colombiano e os rebeldes das FARC, negociações que são fortemente apoiadas pelo papa. Não se pode esquecer, tampouco, “o papel fundamental de Francisco na restauração das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba”.

Acrescentam Miroff e Murphy: “Para o Vaticano, este foi o culminar de décadas de aproximação à Igreja ortodoxa, percurso aplanado por João Paulo II e Bento XVI. Também poderiam abrir-se mais canais de cooperação com Moscovo para resolver a crise humanitária no Oriente Médio, enfrentar a emergência das ondas migratórias e parar a perseguição do Estado Islâmico e de outras milícias islamitas contra as comunidades cristãs”. Segundo o padre católico inglês Paul McPartlan, professor de teologia na Universidade Católica da América e figura de destaque, desde 2005, no diálogo entre as confissões cristãs, “uma reconciliação completa e orgânica entre as duas Igrejas é algo muito remoto no momento, mas este foi, ainda assim, um passo importante que pode levar a muitos outros”.

Focado na Europa, um artigo escrito por Alec Luhn no Guardian se concentra nas implicações políticas do encontro, hipotizando que Kirill tenha participado dele por impulso do governo de Moscovo a fim de “reduzir o isolamento do país devido às sanções económicas ocidentais causadas pela questão da Ucrânia e às críticas pela intervenção armada na Síria”. Diz o jornal britânico: “A Igreja ortodoxa russa tem laços tradicionalmente estreitos com o Estado, e o patriarca de Moscovo tem um relacionamento especial com Putin, a quem descreveu como ‘um milagre de Deus’ por ocasião da sua reeleição como presidente em 2012. Kirill teve de superar também resistências internas, com vários ultraortodoxos o chamando de herege por concordar em se encontrar com Francisco, por eles considerado quase como um anticristo”.

Luhn então citou o analista político Alexei Makarkin: “A única razão pela qual o patriarca de Moscovo concordou em participar desta reunião é que Putin lhe fez este pedido”. Neste contexto, promover a questão da protecção dos cristãos no Oriente Médio faria parte da “estratégia para legitimar as acções da Rússia na Síria”. O analista Masha Lipman, por sua vez, destacou que a reunião em Cuba poderia ser, para Kirill, uma oportunidade “de fortalecer a imagem da Igreja russa para o próximo concílio pan-ortodoxo”. Sua imagem, afinal, estaria “enfraquecida pela perda de influência na Ucrânia devido à guerra civil”.

De acordo com a agência de notícias russa Itar Tass, o metropolita Hilarion Alfeyev, presidente do Departamento de Relações Exteriores do patriarcado de Moscovo, considera a reunião “muito frutífera”: o evento, para ele, foi histórico a partir de vários pontos de vista. Foi o primeiro encontro entre um patriarca de Moscovo e um papa de Roma e não seguiu os tradicionais cânones protocolares. Alfeyev acrescentou que o encontro poderia ter ocorrido já faz dois anos, mas a crise na Ucrânia impediu: os conflitos entre pró-ocidentais e pró-russos trouxe à tona o problema dos cristãos ucranianos de rito grego, mas ligados à Igreja católica, que os ortodoxos chamam de uniatas. “Apesar de que o uniatismo continue a ser uma questão muito sensível no nosso diálogo”, disse o metropolita, “a piora na situação internacional não podia mais atrasar um evento tão importante. E o mundo precisava da intervenção de dois líderes religiosos tão importantes”.

A Itar Tass também destacou os comentários positivos por parte do governo russo. “O Kremlin saúda o encontro entre Kirill, patriarca de Moscovo e de Toda a Rússia, e o papa Francisco, bem como a sua intenção de avançar no diálogo”, disse Dmitry Peskov, porta-voz do presidente Vladimir Putin. “É um evento único do ponto de vista do conteúdo, daquilo que simboliza e pela afirmação da intenção comum de proteger os interesses dos cristãos em todo o mundo”.

Na Espanha, o El Mundo falou do evento como “um símbolo da melhora nas relações entre católicos e ortodoxos”. Segundo o jornal, “o abraço histórico de Francisco, líder espiritual de mais de um milhar de milhões de católicos, e Kirill, patriarca de 165 milhões de ortodoxos, pode indicar uma convergência mais profunda entre as duas Igrejas e abrir as portas para a visita do papa à Rússia”.


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