Era grande a agitação no recreio da escola, naquela tarde em que começavam as férias de Natal. Os miúdos falavam que iam fazer o presépio, até porque a paróquia tinha decidido que ia haver um concurso de presépios. Uma professora até lhes tinha sugerido que cada boa acção que fizessem, ou cada sacrifício, seria mais uma palhinha para a cama do Menino Jesus, cama que era na verdade a manjedoura daquela gruta que servia de estábulo, onde recolhiam animais. Como esta criança se mantinha calada os amigos perguntaram-lhe quando faria o seu presépio ao que respondeu que não fazia aquilo em que não acreditava. O rapaz vivia com os avós, porque os pais desempregados tiveram que emigrar e isso deixara-o bastante revoltado. Os colegas falaram-lhe então que o Filho de Deus descera à Terra e nascera numa família de Nazaré na Palestina. Como o Pai era descendente de David, tiveram de ir a Belém para se recensearem e durante a sua estadia o Menino nasceu numa gruta nas cercanias da cidade porque não havia lugar para eles na hospedaria, nem ninguém lhes deu guarida.
A criança foi para casa pensativa e nessa noite sonhou com aquele Menino que era Deus e nasceu tão pobre que nem casa os pais tinham. Afinal ainda era pior que ele, que tinha a casa dos avós que tanto lhe queriam e os pais que só partiram por não encontrarem trabalho no seu país. Afinal também José e Maria tiveram de ir a Belém e para a altura, só com um burrito, comparativamente, era mais longe de Nazaré que a Alemanha era de Portugal.
Sonhou tanto que falou mesmo com aquele Menino em Quem não queria acreditar. Contou-lhe a sua vida e a sua revolta de não passar o Natal com os seus pais. Tinha muitas saudades do colo da mãe e dos abraços fortes do pai. Perguntou-Lhe mesmo se no Natal celebrávamos o Seu nascimento e prometeu-Lhe, como prenda de anos, fazer o presépio para assim se sentir mais acompanhado e alegrar os avós.
Foi tão bonito o seu presépio que ganhou mesmo o concurso, mas muito melhor que o prémio foi a ajuda que teve para o fazer. Na madrugada depois da noite do seu sonho bateram à porta e só ouviu a avó a chorar agarrada a quem estava a bater. Saltou da cama e correu para ver o que se passava mas só pode balbuciar - eu acredito, eu acredito em Ti, acredito que és mesmo Deus e obrigado pois trouxeste-me os meus pais.
Maria Teresa Conceição
professora aposentada
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