Páginas

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Imaculada: Mãe de Misericórdia

O Cardeal Mauro Piacenza pede à Nossa Senhora: “a custódia do Santo Padre", "uma grande e renovada primavera de vocações" e "a confirmação de Fátima, com o triunfo do Seu Imaculado Coração".

Roma, 08 de Dezembro de 2015 (ZENIT.org) Antonio Gaspari

Por que os católicos celebram a Festa da Imaculada? O que isso significa e o que tem a ver com misericórdia? Por que o Papa escolheu a festividade da Imaculada para começar o Jubileu? A Misericórdia se reduz ao mero perdão ou é muito mais?

Estas e outras questões ZENIT fez ao cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor da Penitenciaria Apostólica.

E aqui estão as respostas.

***

ZENIT: Eminência, o Ano Jubilar Extraordinário, proclamado pelo Papa Francisco começa nesse dia 8 de dezembro, solenidade da Imaculada Conceição da Beata Maria. Poderia explicar o motivo dessa coincidência?
Card. Piacenza: Em cada celebração mariana, a Igreja sempre volta a contemplar as raízes da sua própria vida e da própria irredutível vocação a ser Esposa do seu Senhor, Mãe dos redimidos e Corpo Místico, Presença viva de Cristo no mundo. A grande verdade da Imaculada foi proclamada dogmaticamente no dia 8 de dezembro de 1854, pelo Beato Papa Pio IX. Bem sabemos, porém, como as proclamações dogmáticas sejam sempre, na verdade, uma “explicitação” de uma verdade própria da Divina Revelação, certamente também objeto de particulares aprofundamentos teológicos, como no caso da Imaculada, mas crida, na Igreja – como diz Vicente de Lerim – sempre, em todos os lugares e por todos. A verdade da Imaculada indica Maria de Nazaré, como a “pré-redimida”: Ela, naturalmente concebida no seio de Santa Ana, foi preservada da mancha do pecado original, desde o primeiro instante da sua existência, por força dos futuros méritos de Cristo na Cruz. Proclamando este Dogma, no final do século XIX, a Igreja respondia ao duplo erro do iluminismo, que idolatrava a razão, e do positivismo, que pretendia salvar o homem, unicamente modificando as instituições nas quais ele vive.

ZENIT: E o que a Imaculada ainda tem a dizer ao homem ocidental “saciado e desesperado”, preso entre a pretensão de emancipação, de ver transformado em direito cada uma das suas vontades, e com a ausência de um significado último para a própria vida?
Card. Piacenza: Talvez o homem esteja somente desesperado, dado que a crise económica derrubou também as seguranças que tinha há alguns anos! Você usou uma palavra interessante: “emancipação”. A única emancipação possível, para o homem, não pode ser a da verdade, mas do pecado.

A emancipação da verdade, da verdade de Cristo, Deus feito homem, e da própria natureza humana criada e da lei moral escrita no coração, a emancipação daquela inteligente e humilde obediência, que a verdade sempre requer, só pode levar o homem a uma solidão última, na qual se torna incapaz de ver a Deus, de comunicar com os irmãos e de escutar o que o “grande sinal” da realidade, incessantemente, sugere. O pecado é sempre uma “negociação prática” da verdade. Emancipar-se disso permite que o homem se abra ao grande horizonte de Deus, de entrar em um verdadeiro diálogo com cada outro homem e naquela extraordinária “amizade” com o criador, que vemos em tantos Santos, como o grande São Francisco de Assis e que o Papa Francisco quis colocar na encíclica “Laudato Sì”. Não há, portanto, outra emancipação do pecado, outra “salvação”, que não seja em Cristo. A Imaculada é a cheia de graça porque “pré-redimida”, ou seja, redimida por Cristo, não somente, mas antes de qualquer outra criatura, na própria raíz do ser. Maria Santíssima é integralmente humana. Nela floresce a plenitude da humanidade. Ao contrário de nós, homens, não é "travada" pelo pecado original no que constitui o único, verdadeiro propósito adequado da natureza humana: a relação, inteligente e livre, com a verdade de Deus e com o Seu amor.

ZENIT: Eminência, a devoção mariana, nas últimas décadas, por vezes tem sido colocada à margem da investigação teológica é da ação pastoral, citando expressamente, como razão, a necessidade de uma maior concentração “cristológica”, talvez também com a finalidade de um mais eficaz diálogo ecuménico. Mas, é realmente possível ignorar a Imaculada no pensamento e na vida da Igreja?
Card. Piacenza: Cada palavra e cada escolha de Cristo, que é Deus feito homem, são para nós, simplesmente, imprescindíveis. Se Ele divinamente escolheu não querer deixar de lado Maria de Nazaré, para fazer-se homem e salvar-nos, não podemos, nem mesmo nós, querer marginalizá-la. Em Maria, além do mais, toda a Revelação cristã encontra, podemos dizer, o próprio “cardine”, o próprio “método” e a própria contínua “custódia”. A Revelação tem Nela o próprio “cardine”, teologicamente e historicamente falando: teologicamente, porque Deus, concebido antes no seu Coração e depois no seu seio Imaculado, toma carne Nela e Dela, unindo-se definitivamente à nossa natureza; historicamente, porque entrando no mundo por meio de Maria – “Esposa de um homem da casa de Davi, de nome José”, nos diz São Lucas - , Cristo se insere plenamente no grande rio da história humana e da estirpe de Davi, em particular. Em Maria, a Revelação tem, depois, o próprio “método”: como à liberdade puríssima de Maria, no momento da Anunciação, o Mistério conferiu o poder sem precedentes de abrir ou não as portas do céu, assim Cristo, que é o Mistério feito carne, dá a cada homem igualmente o inaudito poder de acolher, ou não, a Sua Pessoa e a Sua graça. Em Maria, por fim, a Revelação tem a própria contínua “custódia”, porque o Cristianismo, sendo uma “vida”, a Vida divina de Cristo em nós, não precisará só de uma humana coerência e nem sequer de grandes especulações, mas sempre e especialmente de uma Mãe! E depois, como ensina o grande São Maximiliano Maria Kolbe, não devemos ter nenhum medo de amar "muito" a Nossa Senhora, porque Cristo a amará sempre mais do que nós.

ZENIT: Eminência, você acredita que a Imaculada possa ter um especial significado também para este Ano Jubilar dedicado à Misericórdia?
Card. Piacenza: Certamente. A Imaculada nos mostra, de fato, de forma simples e clara, como entender o Mistério da Misericórdia. Hoje é difundida, de fato, uma certa tendência a “medir” a Misericórdia “sobre o pecado”, quase que o pecado tenha o poder, ou pior, o direito de suscitar a divina Misericórdia; quase que a Misericórdia possa reduzir-se a mero “perdão” da culpa. Certamente a divina Misericórdia significa também perdão do pecador, mas, ao mesmo tempo, é imensamente mais. É o “irromper” de Deus na história do homem; é o Seu revelar-se a nós, abrindo-nos ao Mistério da própria intimidade divina; é o Seu compartilhar a nossa própria condição humana, até o fundo, até a experiência da morte, para tornar-nos inteiramente partícipes da Sua própria Vida divina; é o participar do Batismo, que muda radicalmente o nosso ser, atraindo-o no próprio ser de Cristo, no seu Ser Filho do Eterno Pai, e colocando-nos na grande comunhão dos Batizados, que abraça céu e terra, que é a Comunhão da Igreja; é o doar-nos a Sua Presença Real na Santíssima Eucaristia, que nos une sempre mais perfeitamente a Ele e nos atrai na sua Salvífica oferta ao Pai. A Misericórdia, compreendida como perdão da culpa individual, chega somente “depois”, neste sentido. Antes há o Dom imenso da Vida de Cristo e depois a admirável “remoção” do que em nós o ofuscou ou comprometeu. A Imaculada é o real começo de tudo isso e o seu ventre, para sempre.

ZENIT: Uma última pergunta, Eminência, esperando que possa dar-nos essa confidência: o que pede à Imaculada para a Igreja neste Ano Jubilar?
Card. Piacenza: Respondo com prazer, elevando então, através deste meio, a minha minha oração à Imaculada, para que obtenha três grandes graças: em primeiro lugar a custódia do Santo Padre na sua inaudita tarefa de Pastor Supremo da Igreja, perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, chamado a confirmar os irmãos na fé, resistindo à tempestade dos erros que atingem o mundo; em segundo lugar, peço à Imaculada uma grande e renovada primavera vocacional, que possa dar à Igreja santos sacerdotes e consagrados, para a glória de Deus e a salvação da humanidade; por fim, peço simplesmente, que queira ouvir a grande promessa de Fátima, cujo centenário será em 2017: o grande triunfo do Seu Coração Imaculado. Desejo a todos uma santa Solenidade da Imaculada.

(08 de Dezembro de 2015) © Innovative Media Inc.
in


Sem comentários:

Enviar um comentário