O Santo Padre fala sobre a misericórdia
em uma entrevista concedida à revista Credere, a publicação oficial do
Ano Santo Extraordinário
Roma,
03 de Dezembro de 2015
(ZENIT.org)
Ivan de Vargas
A revista italiana Credere, publicação oficial do Ano Santo
Extraordinário, que começa no próximo dia 8 de dezembro, realizou uma
entrevista exclusiva ao Papa Francisco na qual o pontífice explica os
motivos do Jubileu da Misericórdia e as expectativas.
"A questão da misericórdia, diz o Santo Padre para o editor da
revista, o padre Antonio Rizzolo - acentua-se fortemente na vida da
Igreja desde Paulo VI. Foi João Paulo II que a enfatizou fortemente com a
Dives in Misericordia, a canonização de Santa Faustina e a instituição
da festa da Divina Misericórdia na Oitava de Páscoa”. Nesta linha,
“senti que existe como que um desejo do Senhor de mostrar aos homens a
sua misericórdia. Então, não é que me surgiu do nada, mas retomo uma
tradição relativamente recente, embora sempre existiu. E percebi que era
necessário fazer algo para continuar com esta tradição”.
"É óbvio que o mundo de hoje tem necessidade de misericórdia, precisa de compaixão, ou de padecer com”,
continuou o Pontífice. "Estamos acostumados às más notícias, às
notícias cruéis e às atrocidades maiores que ofendem o nome e a vida de
Deus”, lamenta. “O mundo precisa descobrir que Deus é Pai, que tem
misericórdia, que a crueldade não é o caminho. Cai-se na tentação de
seguir uma linha dura, na tentação de enfatizar só as normas morais, mas
quantas pessoas ficam fora!”, enfatiza.
"Veio-me à mente a imagem da Igreja como um hospital de campanha após
a batalha; é a verdade: quantas pessoas feridas e destruídas! Os
feridos são curados, ajudados e não submetidos a exames de colesterol.
Acho que este é o momento da misericórdia", disse o papa. "Todos nós
somos pecadores, todos temos pesos interiores. Senti que Jesus quer
abrir a porta do Seu coração, que o Pai quer mostrar as suas entranhas
de misericórdia, e, por isso, nos envia o Espírito: para mover-se e para
mover-nos. É o ano do perdão, o ano da reconciliação”, reitera.
Questionado sobre a sua experiência pessoal da misericórdia divina,
Francisco reconhece: “Sou pecador, me sinto pecador, tenho certeza de
ser pecador; sou um pecador a quem o Senhor olhou com misericórdia. Sou,
como eu disse aos presos na Bolívia, um homem perdoado. Sou um homem
perdoado, Deus me olhou com misericórdia e me perdoou. Ainda cometo
erros e pecados, e me confesso a cada quinze ou vinte dias. E se me
confesso é porque preciso sentir que a misericórdia de Deus ainda está
em mim”.
O Santo Padre recorda também que teve essa sensação de forma especial
no dia 21 de setembro de 1953, quanto sentiu a necessidade de entrar em
uma igreja e confessar-se com um sacerdote que não conhecia e a partir
de então a sua vida foi diferente; decidiu tornar-se sacerdote e aquele
confessor, enfermo de leucemia, o acompanhou durante um ano. “Morreu no
ano seguinte – relata -. Depois do funeral chorei amargamente, me senti
totalmente perdido, como que com o temor de que Deus tivesse me
abandonado. Este foi o momento em que me submergi na misericórdia de
Deus e está muito unida ao meu lema episcopal: o dia 21 de setembro é o
dia de São Mateus, e Beda o Venerável, falando da conversão de Mateus,
diz que Jesus olhou-o miserando ataque elegendo”. “Trata-se de uma
expressão impossível de traduzir, porque em italiano um dos dois verbos
não tem gerúndio, nem sequer em espanhol. A tradução literal seria
“misericordando e elegendo”, quase como um trabalho artesanal.
“Misericordiou-o!”: esta é a tradução literal do texto”, indica.
"Muitos anos depois, recitando o breviário latino, achei esta
leitura, lembrei-me de que o Senhor tinha me modelado artesanalmente com
a Sua misericórdia. Cada vez que vinha à Roma, porque ficava hospedado
na Via della Scrofa, ia até a Igreja de São Luis dos Franceses, para
rezar diante do quadro de Caravaggio, sobre a Vocação de São Mateus”,
diz.
Para o Papa, o Jubileu da Misericórdia também pode ser uma
oportunidade para redescobrir a "maternidade" de Deus: "Ele mesmo o
afirma quando diz em Isaías que se uma mãe se esquecesse do seu filho,
também uma mãe pode esquecer... “eu, pelo contrário, não te esquecerei
jamais”. Aqui se vê a dimensão materna de Deus. Nem todos compreendem
quando se fala da “maternidade de Deus”, não é uma linguagem popular –
no bom sentido da palavra – , parece uma linguagem um pouco escolhida;
por isso prefiro usar a ternura, própria de uma mãe, a ternura de Deus, a
ternura nasce das entranhas paternas. Deus é pai e mãe”.
Por fim, o Papa Francisco adverte que a descoberta de um Deus
misericordioso traz uma mudança de atitude em relação aos outros. "Hoje,
a revolução é a da ternura, porque daqui vem a justiça e todo o resto",
afirma. "A revolução da ternura é aquela que hoje temos que cultivar
como fruto deste ano da misericórdia: a ternura de Deus com cada um de
nós. Cada um de nós deve dizer: “Sou um desgraçado, mas Deus me ama
assim; então, também eu tenho que amar os outros da mesma forma”,
esclarece. “Descobrir isso nos levará a ter uma atitude mais tolerante,
mais paciente, mas terna”, conclui.
(03 de Dezembro de 2015) © Innovative Media Inc.
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