Papa Francisco escreve prefácio de uma bíblia dirigida aos jovens
Roma,
04 de Dezembro de 2015
(ZENIT.org)
A revista dos jesuítas, "La Civiltà Cattolica" publicou o Prefácio
de uma Bíblia voltada ao público jovem, escrito pelo Papa Francisco.
Francisco relata no texto que os jovens se surpreenderiam com a
aparência de sua Bíblia, "velha e usada", mas que por nada faria menos
dela, pois é para ele “um inestimável tesouro”, que o acompanhou
“metade” de sua vida.
O Prefácio foi escrito para uma Bíblia dirigida aos jovens, que
também colaboraram com os comentários da mesma. (Bibel. Jugendbibel der
Katolishcen Kirche). A ideia da obra é de Thomas Söding, professor do
Novo Testamento na Universidade de Bochu, e por longos anos membro da
Comissão Teológica Internacional da Santa Sé. Pai de três filhos, sentia
a necessidade de oferecer aos jovens uma possibilidade de acesso à
Bíblia que fosse atraente. Assim, entrou em contato com Georg Fisher
(Universidade de Innsbruck) e Dominik Markl (Pontifício Instituto
Bíblico, em Roma), jesuítas austríacos e Professores de Antigo
Testamento, convidando-os a colaborar com o projeto. Após a ampla
divulgação do catecismo para jovens Youcat, os autores convidaram a
Youcat Foundation (Augsburg), junto com a Katholische Bibelanstalt
(Stuttgart) para colaborar com o projeto.
Rádio Vaticano publicou ontem o texto na íntegra, que segue abaixo para os nossos leitores:
***
“Meus queridos jovens amigos,
Se vocês vissem a minha Bíblia, talvez vocês não ficariam por nada
tocados. Diriam: “O que? Esta é a Bíblia do Papa? Um livro assim velho,
assim usado!”. Poderiam também me presentear uma nova, quem sabe uma de
1.000 euros: não, não gostaria. Amo a minha velha Bíblia, aquela que me
acompanhou metade da minha vida. Viu a minha alegria, foi banhada pelas
minhas lágrimas: é o meu inestimável tesouro. Vivo dela e por nada no
mundo eu faria menos dela.
A Bíblia para os jovens, que vocês apenas abriram, me agrada muito: é
tão vivaz, tão rica de testemunhos de santos, de jovens, que dá vontade
de lê-la de uma só vez, desde o início até a última página. E depois?
Depois a escondem, desaparece numa prateleira de uma biblioteca, quem
sabe atrás, na terceira fila, acabando por encher-se de poeira. Até o
dia em que os vossos filhos a venderão num mercadinho de usados. Não,
isto não pode ser!
Quero dizer uma coisa a vocês: hoje, mais do que no início da Igreja,
os cristãos são perseguidos; por qual razão? São perseguidos porque
usam uma cruz e dão testemunho de Cristo; são condenados porque possuem
uma Bíblia. Evidentemente a Bíblia é um livro extremamente perigoso, que
causa tanto risco, que em certos países quem possui uma Bíblia é
tratado como se escondesse no armário bombas de mão!
Mahatma Gandhi, que não era cristão, uma vez disse: “A vocês cristãos
é confiado um texto que tem em si uma quantidade de dinamite suficiente
para fazer explodir em mil pedaços a civilização inteira, para colocar
de cabeça para baixo o mundo e levar a paz a um planeta devastado pela
guerra. Mas a tratam, porém, como se fosse simplesmente uma obra
literária, nada além disto”.
O que vocês têm, então, em mãos? Uma obra-prima literária? Uma
seleção de antigas e belas histórias? Neste caso, seria necessário
dizer aos muitos cristãos que se deixam aprisionar e torturar pela
Bíblia: “Vocês são realmente tolos e pouco sábios: é somente uma obra
literária!”. Não, com a Palavra de Deus a luz veio ao mundo e nunca mais
se apagou. Na minha Exortação Apostólica Evangelii gaudium escrevi:
“Nós não procuramos Deus tateando no escuro, nem precisamos esperar que
Ele nos dirija a palavra, porque realmente «Deus falou, já não é o
grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo». Acolhamos o tesouro
sublime da Palavra revelada!” (n.175)
Vocês têm entre as mãos, portanto, algo de divino: um livro como
fogo, um livro no qual Deus fala. Por isto, recordem-se: a Bíblia não é
feita para ser colocada em uma prateleira, mas é feita para ser levada
na mão, para ser lida frequentemente, a cada dia, quer sozinho como
acompanhados. De resto, acompanhados vocês praticam esporte, vão ao
shopping; por que então não ler juntos, em dois, em três ou em quatro a
Bíblia? Quem sabe ao ar livre, mergulhados na natureza, no bosque, na
beira do mar, de noite à luz de velas...vocês fariam uma experiência
forte e envolvente. Ou quem sabe vocês têm medo de parecerem ridículos
diante dos outros?
Leiam com atenção. Não permaneçam na superfície, como se faz com
histórias em quadrinho! A Palavra de Deus não pode ser lida com um
passar de olhos! Antes, perguntem-se: “O que diz este texto ao meu
coração? Por meio desta palavra, Deus está me falando? Talvez esteja
suscitando anseios, a minha sede profunda? O que devo fazer?”. Somente
assim a Palavra de Deus poderá mostrar toda a sua força; somente assim a
nossa vida poderá transformar-se, tornando-se plena e bela.
Quero confidenciar a vocês como leio a minha velha Bíblia.
Frequentemente a pego, a leio um pouco, depois a deixo de lado e me
deixo olhar pelo Senhor. Não sou eu que olho para Ele, mas Ele que olha
para mim: Deus está realmente alí, presente. Assim me deixo observar por
Ele e escuto – e não é um certo sentimentalismo – percebo no mais
profundo de meu ser aquilo que o Senhor me diz.
Às vezes não fala: e então não ouço nada, somente vazio, vazio,
vazio.... Mas, paciente, permaneço lá e o espero assim, lendo e rezando.
Rezo sentado, porque me faz mal ficar de joelhos. Às vezes, rezando,
até mesmo adormeço, mas não tem problema: sou como um filho próximo ao
seu pai, e isto é aquilo que conta.
Vocês querem me fazer feliz? Leiam a Bíblia”.
(04 de Dezembro de 2015) © Innovative Media Inc.
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