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terça-feira, 10 de novembro de 2015

A informação em tempos de Vatileaks

Entrevista com o professor de ética da informação, Giovanni Tridente, da Universidade da Santa Cruz. Analisa a forma como estão publicando as informações da Santa Sé

Roma, 10 de Novembro de 2015 (ZENIT.org) Antonio Gaspari

Roubar documentos confidenciais. Gravar de forma fraudulenta comentários e reações do Pontífice. Roubar e publicar sem autorização comunicações e documentos secretos. Não é só uma violação da privacidade, mas trata-se de um delito, como destacou neste domingo o próprio Francisco durante o ângelus.
Um crime que viola todas as regras do profissionalismo jornalístico, tanto em métodos desonestos nos quais as informações são entendidas, como na intenção malévola da publicação. E, no entanto, são verdadeiramente poucos os jornalistas que teriam rejeitados utilizar o material informativo que algumas pessoas dentro do Vaticano roubaram e passaram para fora.

Mas, realmente o jornalismo deve ser desenvolvido hoje com os mesmos critérios que a hienas usam, sem escrúpulos, violando as regras profissionais, mesmo provocando escândalos e notícias ruins?

Como estão se comportando os jornalistas com relação aos livros recentemente publicados, escritos graças a informações reservadas roubadas pelos “corvos” dentro dos muros vaticanos? ZENIT perguntou para o professor Giovanni Tridente, professor de ética da informação na Faculdade de comunicação Institucional da Universidade Pontifícia da Santa Cruz em Roma.

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ZENIT: Professor Tridente, como você julga a forma com a qual os jornalistas estão enfrentando o chamado caso Vatileaks?
--Prof. Trident: Infelizmente, é necessário reconhecer, para nosso pesar, que, no contexto cultural atual, o objetivo final do jornalismo e da tarefa informativa no geral, se apagou um pouco; muitas vezes falta a consciência de que o nosso trabalho é destinado a pessoas que esperam de nós um serviço, e esperam algo positivo.

Informar é, de certa forma, formar, dar às pessoas os “conteúdos” – certamente novos – que aumentem a sua bagagem de conhecimentos com relação a determinadas questões que lhes digam respeito ou, pelo menos, lhes interessem. E é precisamente deste "público" tão maltratado que temos que preocupar-nos...

Por exemplo, em tudo o que está acontecendo nos dias de hoje, a minha preocupação e o meu pensamento vai para as almas dos fieis, dispersos por tantos lugares, que desconhecem os mecanismos da Cúria Romana, do chamado “Vaticano”, e podem ser levados ao desânimo e à desilusão. Certamente, as coisas – também as que fazem mal – é preciso conta-las, mas com profissionalismo, com o objetivo de garantir que o meu público “saiam” das história que contamos com um quadro claro e não confuso.

Na minha opinião, só olhar os aspectos sensacionalistas ou escandalosos, esquecendo-se do grande bem que a Igreja faz no mundo e a tantas pessoas, além de ser o fácil, representa um serviço de desinformação.

ZENIT: Qual seria uma das melhores formas de abordar estas questões?
--Prof. Tridente: Contar coisas complicadas pode ter uma dupla perspectiva: fazê-lo superficialmente, olhando para o que podemos ver a olho nu, ou fazê-lo com profundidade.

Os acontecimentos destes dias, vistos em profundidade, nos dizem, pelo menos, três coisas. A primeira é que a Igreja tem a valentia de corrigir os erros e o faz abertamente, sem hesitação e de forma irreversível: o vimos com a pedofilia, o estamos vendo com o dinheiro. Acrescentaria que esta valentia falta para muitas outras instituições civis; o bom é que podem pegar o exemplo.

A outra coisa é como a Igreja usa o dinheiro. Esse tema é muito comum porque, no fundo, também as pessoas distantes da fé, têm grandes expectativas sobre a Igreja, e não podemos decepcionar essas expectativas. Afinal, o Evangelho é vivido na realidade da vida quotidiana e não apenas em palavras.

Terceira coisa: ser transparente não é suficiente, devemos viver a transparência, e isso ainda mais no uso do dinheiro. Isso não é impossível, apesar das misérias humanas que existem e sempre existirão... De fato, gostaria de entender e verificar quantos serviços jornalísticos focaram nestes dias nas inumeráveis pessoas virtuosas, sacerdotes heróicos, religiosos que deixam tudo por amor ao próximo, simples empregados da Cúria que evangelizam ao mundo com a sua vida... eu também olharia para eles!

ZENIT: Por que existem jornalistas propensos a publicar material confidencial e reservado?
--Prof. Tridente: Quando se perdeu o objetivo final do jornalismo - servir ao leitor e sua pessoa – também levantaram-se outros “ídolos” profissionais: às vezes trata-se de uma simples questão de interesses económicos – um verdadeiro paradoxo nestes casos - , outras vezes é pura vaidade e vanglória... e já não se serve aos demais, mas só a si mesmo. Porém, não devemos perder a esperança: com um pouco de paciência e vontade de querer aprofundar, cada um de nós é capaz de entender onde se esconde a armadilha, e voltar a sonhar e viver um mundo mais correto, e certamente, mais justo.

ZENIT: Qual deve ser a atitude de um cristão diante de acontecimentos como este?
 --Prof. Tridente: Existe um cristão envolvido diretamente – penso, por exemplo, nos comunicadores institucionais – e um cristão "espectador".

Os primeiros precisam entender que os jornalistas tem fome e sede de notícias, ou conteúdos informativos, e se deixamos vazio o espaço que podemos ocupar – por exemplo, de forma proativa, com inteligência profissional – outro pensará como enchê-lo, também falando em “nosso nome” e até mesmo com conteúdos pouco saudáveis.

Ao cristão “espectador” quero dar-lhes um consolo: Cristo já venceu o mundo, portanto, podemos sentir-nos seguros. No entanto, não podemos dar a outros a nossa capacidade de pensar, refletir, amadurecer e também crer.  Assim, nestes casos, é necessário, armar-se de santa paciência, valorizar a confiabilidade das circunstâncias, ir em direção a luz no fim do túnel, em vez de olhar para baixo ou mesmo para trás. Também é verdade, como disse o Papa Francisco, nosso caminho de santidade não deve ter medo do conflito, mas alimentar o desejo de superá-lo com constância e muita paciência, porque depois, é a mesma cara da valentia: a valentia de querer ser santos, ainda nos limites das nossas misérias.

(10 de Novembro de 2015) © Innovative Media Inc.
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