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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um amor mais forte que a sida; matrimónios e baptismos contra o barro: vivências de um missionário

Gabriele Foti, sacerdote italiano no Quénia 

Às vezes o megafone é um bom aliado do missionário em África...
Mas as viagens duras a sítios remotos não costumam faltar

Actualizado 25 de Setembro de 2014

Gabriele Foti/SanCarlo.org
Gabriele Foti é um sacerdote missionário em Nairobi, Quénia, que conta as suas experiências na página da internet da Fraternidade São Carlos, fundada como sociedade missionária em Itália em 1985. Conta a história de um amor mais forte que a SIDA, experiências africanas de baptismos e matrimónios, de barro e estrelas (e uma ovelha grelhada). Este é o seu testemunho.

M. é uma mulher do Meeting Point, o grupo que acolhe enfermos de SIDA em Kahawa Sukary. Baptizei-a há dois anos. Vende verdura na esquina da rua.
Ela mesma me contou, no ano passado, o seu encontro com T., que agora é seu marido. Um dia ele foi fazer a compra no seu posto. Voltou no dia seguinte. E no seguinte, e no seguinte.

Num determinado momento ele disse-lhe que queria conhecê-la mais profundamente. A primeira coisa que ela lhe disse claramente foi: «Sou católica, estou baptizada; assim, se a tua intenção é estar comigo, tens que ir fazer o curso na igreja, tens que te baptizar e depois nos casamos pela igreja. Eu, agora, não vou conviver contigo».

Pelo que ele se inscreveu no curso. Quando comecei o ciclo de encontros, eu não sabia que ele era o prometido de M.

Participou nos encontros com fidelidade durante dois anos, começou a ir à missa e agora é membro activo da sua pequena comunidade cristã. E por fim, na Páscoa deste ano, T. recebeu o baptismo. E logo iniciaram a preparação ao matrimónio.

Há pouco que casaram-se. Dom Alfonso ofereceu-lhes as alianças, eu o bolo nupcial (de quatro pisos, muito merecido).

Os amigos do Meeting Point prepararam uma festa estupenda e cozinharam para todos.

A quem perguntava ao marido se estava consciente de que tinha contraído a SIDA, ele respondia: «Se ela pode viver assim, também eu posso fazê-lo».

A cerimónia foi simples e emotiva, como também as danças que vieram de seguida e que duraram muito tempo, celebrando um acto de fé que, também aqui no Quénia, é excepcional.

O que custa um baptismo
De um matrimónio a um baptismo. Uma querida amiga minha, estudante de Nairobi, teve uma menina preciosa. Pediu-me que fosse à sua casa, na sua aldeia, para baptizar a sua filha, porque era impossível que os seus pais, já anciãos, fossem a Nairobi.

Assim reuni alguns estudantes do Clu (Comunhão e Libertação universitários, ndr) e alguns colegas da jovem e preparámo-nos para partir.

Uma bonita estrada asfaltada levou-nos até Gilgil, a umas duas horas e meia da nossa casa. Mas a partir daqui começaram os problemas… Tivemos que percorrer uma hora de estrada sem asfaltar para chegar à igreja.

Se chove, é impossível sequer pensar em passar. Se não chove, com um pouco de habilidade na condução e a ajuda do anjo da guarda, é possível chegar.

Sem dúvida, nem todos os rapazes tinham lugar no meu carro, que pode levar "só" a doze pessoas, pelo que alugámos para os outros dez estudantes um minibus, incrivelmente lento… Durante a viagem a polícia parou-o várias vezes.

A isto há que acrescentar o facto de que o condutor se equivocou na rota. Em resume, entre buracos, desvios e postos de controlo chegámos à igreja com uma hora e meia de atraso. Sentia-me culpado pela jovem, os familiares e todos os habitantes que participavam na celebração. Sem dúvida, quando chegámos a igreja ainda estava fechada. A rapariga acabara de chegar, sozinha, e estava esperando os seus familiares e amigos.

Ao fim de um pedaço chegou o sacristão, logo alguma pessoa mais. Entretanto nós ensaiávamos as canções, as leituras, as partes da celebração do baptismo. Uma hora e meia depois da nossa chegada, quer dizer, três horas depois do horário fixado para a cerimónia, começou a missa. Bonita e com muita participação.

Depois, todos para casa dos pais. Outra meia hora de estrada para chegar a uma zona perdida do Quénia, onde a família possui uma quinta. Festejámos todos juntos. Depois da festa, o segundo minibus voltou a Nairobi.

Frio em África e ovelha grelhada
Eu fiquei com alguns jovens. Passámos a tarde cantando e jogando. Chegou a noite e com ela uma chuva torrencial. Por não haver corrente eléctrica, reunimo-nos num quarto da quinta, com uma vela, um recuperador (a dois mil metros, na estação das chuvas, faz realmente frio) e começámos a cantar de novo.

O pai da jovem, num determinado momento, chamou-me para que saísse. Tinha deixado de chover. Um mar de estrelas estendia-se sobre nós, tão claras que é difícil vê-las assim noutros lugares. Debaixo dos nossos pés, um lago de barro chegava-nos aos tornozelos. Levou-me ao estábulo e disse-me que, em agradecimento, me oferecia uma ovelha. Ao fim de um pedaço tinha-a colocado, mais ou menos inteira, em cima do fogo…

Quatro horas mais tarde, tudo estava pronto. Ceámos e depois todos a dormir, em camas improvisadas. A mim deram-me uma cama numa parte do estábulo, com enormes correntes de ar entre as paredes e o tecto. Era como dormir a céu descoberto!

Na manhã seguinte fomos todos ao rio buscar água com baldes (não há água corrente na casa), para lavar-nos e para cozinhar.

Por último, de novo a celebração da missa na igreja local (vem o sacerdote uma vez por mês, ou duas, pelo que me pediram que celebrasse de novo). Pensando que teríamos de começar com o atraso habitual, preparei-me com calma e cheguei com meia hora de atraso em relação à hora estabelecida. Mas desta vez tinham dito às pessoas que a missa começava duas horas antes, pelo que encontrei a igreja abarrotada de crianças e anciãos. De facto, muitas pessoas abandonam a cidade ao chegar a uma certa idade e voltam ao seu lugar de origem. E as famílias da cidade confiam-lhes os seus pequenos.

Depois de uma preciosa missa que durou algumas horas, linguisticamente enriquecida pelo meu kiswahili (âncora de abordagem) e o seu idioma kikuyu, saudámos todos e deixámos este lugar verdadeiramente formoso e estimulante para quem vem da cidade ou, como eu, da Europa.

(Tradução de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares)


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