Ontem, uma amiga minha dizia-me que tinha feito o propósito de não ver os defeitos da sua filha mais velha, adolescente, que estava numa fase completamente parva. Acrescentava que tinha de fazer um esforço para não se irritar e que procurava só ver as suas qualidades.
Achei que aquilo me queria dizer alguma coisa. Em certo sentido, era inspirador. Inspirador para a Rita, mãe de pirralhos, e para a Rita, pessoa que, muitas vezes, precisaria de ter essa atitude positiva e construtiva de ver o bem, o bom.
Quantas as vezes as inquietações dos outros são também as nossas?
A minha amiga é muito boa. Uma excelente mãe. E digo isto, não só porque goste muito dela, mas sim porque vejo nela o esforço de superação, o esforço por se superar a si própria. Seria muito fácil dizer que a filha é isto e aquilo, e enunciar as más companhias, os efeitos da era digital e prender-se a tudo o que queria mudar na sua filha. A minha amiga decidiu ir pelo caminho mais difícil que é o da superação própria, que é o de se melhorar a si própria. Percebeu que se ela melhorar, poderá ajudar melhor a sua filha.
Nesse mesmo dia (que grande dia!), uma outra amiga minha dizia que o amor de sangue é o mais forte porque tem essa componente biológica, genética, que nos une, que nos liga indelevelmente. Este amor precisa de ser cuidado, alimentado, mas, ao mesmo tempo, alimenta-se a ele próprio porque é substanciado. E por isso é que é fácil pensarmos em ajudar/educar os nossos filhos, fazer tudo por eles.
Continuando, a minha amiga dizia que a relação entre marido e mulher não tem esta componente biológica. É fruto de uma escolha racional e ponderada de um outro ser que queremos que seja nosso para sempre, a quem queremos pertencer para sempre.
Isto parecerá tudo muito banal, mas esta abordagem fez-me perceber melhor porque é que o casamento é uma aventura tão radical e tão, tremendamente, apaixonante.
No casamento, escolhemos uma pessoa com quem queremos construir felicidade e amor. Mas este amor não tendo a sustentação biológica, tem o fator de ser uma escolha pessoal e tem a exigência de ter de ser alimentado continuamente, mesmo que nalgum momento tenhamos de voltar a relembrar as razões da nossa escolha. Não é tão fácil assim pensar em ajudar/ educar o cônjuge, mas talvez tenhamos de fazer mais esse esforço. O esforço de não desistir do marido/da mulher, tal como não desistimos dos filhos, apesar de parecer que nunca vão escutar aquilo que já repetimos milhares de vezes.
E, se calhar, também nalgum momento, vamos ter de fazer o esforço que aquela minha outra amiga está a fazer para ver só as qualidades da filha.
Curioso como as palavras dos outros nos dizem tanto e nos merecem imenso respeito. Como lia há pouco tempo, o que importa não é que sejamos bonzinhos, que nunca tenhamos feito o pior. O que importa é que nós queremos ser melhores, queremos o bem, sabemos onde é que ele mora e tudo faremos para tentar lá chegar a cada momento. Aceitando as ajudas que vão surgindo no nosso caminho.
Sugestão de leitura: http://observador.pt/opiniao/os-novos-cataros/
Rita Gonçalves
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