O rabino Skorka e o muçulmano Abboud acompanharão o compatriota Francisco à Terra Santa
Buenos Aires, 12 de Maio de 2014 (Zenit.org) Alvear Metalli
O rabino Abraham Skorka, reitor do seminário rabínico
latino-americano, e o muçulmano Omar Abboud, ex-secretário geral do
Centro Islâmico da República Argentina, acompanharão o papa à Terra
Santa, numa viagem longamente desejada.
Ambos argentinos, ambos amigos de velha data do também argentino
Bergoglio, ambos protagonistas de um espaço de diálogo inter-religioso
que hoje é modelo para toda a Igreja. “É uma parte da nossa identidade
nacional, um fruto cultivado pela vontade de diversos dirigentes e
líderes religiosos”, nota Abboud, que reconhece “o impulso central
promovido pelo então cardeal Bergoglio para criar uma cultura do
encontro”. É uma referência ao Instituto de Diálogo, do qual ele faz
parte. “Somos uma das poucas cidades do mundo onde a convivência
religiosa se desenvolveu desta maneira que podemos ver hoje”. Por sua
vez, Skorka recorda que, na primeira visita a Roma, pouco depois da
eleição e quando já começava a se perfilar a ideia desta viagem, o novo
papa fez referência ao que tinha sido feito em Buenos Aires: “A nossa
amizade (…) é a prova de que o diálogo entre religiões e seres humanos é
possível”. Da iniciativa de Bergoglio, confirma Skorka, nasceu a
história de atenção e de respeito que uniu os líderes islâmicos e judeus
e que agora leva a Israel dois representantes de ambas as realidades.
“Fizemos muitas coisas juntos”, diz Skorka. “O papa é um amigo sincero
do povo judeu”.
“Acompanhar Sua Santidade à Terra Santa é uma honra altíssima e
inesperada para mim”, afirma Omar Abboud, que admira o trabalho feito
nas favelas de Buenos Aires pelos sacerdotes de Bergoglio. “Emoção” e
“responsabilidade” são as palavras que Skorka usou em uma entrevista à
Terras de América ao comentar a decisão do papa de incluí-lo na
comitiva: emoção pela honra, responsabilidade pela oportunidade de
“ajudar o papa a transmitir mensagens e sinais relevantes para a paz”.
Skorka acaba de escrever para o diário argentino “La Nación” um elogio
dos dois papas recém-canonizados. “Sendo núncio em Istambul, o futuro
João XXIII empregou denodados esforços para salvar judeus. O futuro João
Paulo II manteve um compromisso significativo para com os perseguidos
judeus. Foram seres que iluminaram o caminho de muitos outros. Entre
eles, o do actual papa Francisco”.
Tanto o rabino quanto o imã argentinos são conscientes de que o
momento é delicado e a situação não é a mesma de quando se anunciou a
viagem à Terra Santa.
Nos últimos meses houve uma aproximação entre Abu Mazen e o Hamás,
que será formalizada justamente nos dias da chegada do papa a Israel,
além do endurecimento da posição de Israel e da sua decisão de suspender
as conversações de paz com os palestinianos. Um clima que carregará de
conotações políticas cada um dos gestos e palavras que forem
pronunciadas. “O desafio é maior ainda”, comenta Skorka. “A atitude do
papa será conciliadora, prudente, orientada a suscitar sentimentos de
confraternidade, indo além de toda contingência”. Está em jogo um longo
percurso, observa ele. “O que a história pede é superação”. Ele confia
“no afecto que o papa sabe transmitir, na sua capacidade de desarmar os
ódios, de ir ao essencial”.
Junto com isso, entre o anúncio da viagem papal e a sua realização já
próxima, o mundo ouviu as palavras inéditas do presidente da Autoridade
Palestina, que definiu o genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra
Mundial como “o crime mais atroz” da era moderna. É a condenação mais
forte do holocausto já feita por um presidente palestino, ainda mais
impactante porque outros líderes palestinianos foram criticados, no
passado, por manifestarem dúvidas quanto à extensão do massacre de
judeus. O valor das palavras pronunciadas não escapa a Skorka: “São as
expressões sensatas e valentes que mudam o curso da História”.
(12 de Maio de 2014) © Innovative Media Inc.
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