Páginas

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A mulher, Fátima e os portugueses

1. A mulher e Maria
Nestes dias Fátima atraiu ao seu santuário milhares de pessoas de todo o mundo. Embora nem todas movidas pelas mesmas intenções, no entanto a grande maioria por causa da sua devoção a Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus, que em 1917, na Cova da Iria, apareceu a três crianças, Lúcia, Francisco e Jacinta, confiando-lhes uma mensagem referente a todo mundo, então em plena grande guerra, a primeira das duas apelidadas de grandes, cujo cenário foi o centro da Europa, mas que, pela primeira vez, envolveram todo o mundo, enfrentando-se em dois blocos opostos. Mas estas crianças pouco sabiam da geografia e da história do mundo.

É fascinante ler as diversas memórias da irmã Lúcia sobre os acontecimentos, escritas a pedido de várias autoridades eclesiásticas, responsáveis pela investigação e considerar muitos dos factos importantes acontecidos posteriormente e relacionados com estas aparições. Deslumbra-nos também a atracção de Fátima sobre tantos milhares de pessoas, muitas fazendo longos percursos a pé e cumprindo promessas de muitos modos, alguns pouco habituais.

Maria, a mãe de Jesus, mulher crente e obediente às inspirações de Deus, tornou-se também a mãe e modelo dos verdadeiros discípulos de Jesus, desde que Ele a confiou como mãe ao discípulo amado, João, que, como ela, se manteve de pé junto à cruz, sem medo e sem vergonha daquele que foi condenado à morte de cruz, como um escravo malfeitor. A partir daí Maria ganhou estatuto de Mãe e protectora de todos os que acreditam em Jesus. Nunca na história mulher alguma teve tanta importância, apesar de ainda hoje a mulher não ter estatuto de igualdade em todas as sociedades.

Apesar da importância de Maria na história da Igreja, muitos acusam a Igreja católica de não conceder à mulher igualdade de direitos na sua estrutura. Embora compreendendo as razões alegadas, penso que ainda não se reflectiu profundamente sobre o que faz a igualdade e a diversidade dos seres humanos e por isso temos dificuldade em entender muitos fenómenos, sendo um deles o do papel e da dignidade da mulher na história do mundo. Quando nestes dias ouvimos o que aconteceu na Nigéria com o rapto de mais de duas centenas de meninas, porque grupos radicais islamitas defendem que a mulher não deve frequentar a escola, também na Europa circulam ainda ideias semelhantes entre algumas etnias minoritárias. No respeito pelas convicções dos outros, parece-me que ainda precisamos de um grande diálogo intercultural e interreligioso, de modo a reconhecermos à mulher a sua dignidade de pessoa na sua diversidade específica. De qualquer modo, os cristãos nutrem uma devoção filial a Maria, que muito nos tem ajudado a ver nela o modelo e a mãe da sua fé. Assim compreendo a atracção dos santuários marianos sobre tantos milhões de peregrinos através da história.

2. Fátima na alma dos portugueses
Ao longo da minha vida também constatei o papel de Nossa Senhora de Fátima na identidade dos portugueses, embora se trate de um fenómeno com menos de cem anos, mas que se liga a uma longa história de devoção a Maria na Igreja e no povo português. Como já referi algumas vezes, noutros contextos, entre os emigrantes, longe do seu país, Fátima desempenha um papel forte na identidade e na alma dos portugueses, sendo factor de unidade e de estabilidade em países estranhos. Quando alguém mais racionalizante queria rebaixar ou retirar Fátima da mente e da devoção dos portugueses, muitas vezes ficava só ou apenas com alguns amigos. Por esta altura do mês de maio os emigrantes realizam procissões e peregrinações a santuários, mas levando a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Muitos bispos portugueses são solicitados para presidir, mas também sacerdotes ou bispos dos países onde vivem. São momentos de muita emoção e de devoção a Nossa Senhora, de envolvimento das famílias e de aprofundamento da unidade nacional.

Também aqui em Portugal acontece algo semelhante. No Alentejo as procissões com a imagem de Nossa Senhora de Fátima atraem muitas pessoas, também os homens. Até mesmo a oração do rosário (o terço) na igreja muitas vezes é mais concorrida que a celebração da missa. Recordo-me de uma terra, onde decorria uma missão popular, que os momentos comunitários da missão tiveram de ser marcados para a hora do rosário, e não da missa, para que as pessoas afluíssem em maior número.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima através de procissões e da oração do rosário está na alma do povo português. Assim aprendamos de Maria a estar atentos e solícitos pelo bem de todos, a ser exemplos de luta contra o pecado, sobretudo o egoísmo opressor do próximo e de oração pela paz no mundo, sempre ameaçada em tantas partes, algumas bem conhecidas nossas, até mesmo terra de muitas pessoas que vivem no nosso país, como a Ucrânia, a Síria e os países da Ásia Menor, entre eles a terra de Jesus e de Maria, agora dividida entre israelitas e palestinianos. Por isso revestiu-se de grande significado a presidência da peregrinação de Fátima, nos dias 12 e 13 de Maio, pelo patriarca latino de Jerusalém, D. Fouad Twal, um católico palestiniano. Rezemos com ele pela paz na terra de Maria e de Jesus e pelo reconhecimento da dignidade da mulher no mundo.

† António Vitalino, Bispo de Beja

Nota semanal em áudio:



Sem comentários:

Enviar um comentário