Palavra e Pão – 2º domingo da Quaresma
Apesar da escassez de sacerdotes, não é difícil encontrar uma missa de domingo, relativamente perto, mesmo aqui no Alentejo. E, no entanto, muitos que se dizem católicos dispensam-se dela. Contrastando com essa atitude, muitos cristãos nossos contemporâneos, em outras paragens deste mesmo planeta, caminham horas e horas a pé e arriscam a própria vida para a poderem celebrar. Uns e outros se dizem cristãos, mas que diferença! Nós não podemos viver sem celebrar o domingo, assim respondeu aos juízes um grupo de cristãos surpreendidos a celebrar clandestinamente a Eucaristia numa casa particular, no século III.
Apesar da escassez de sacerdotes, não é difícil encontrar uma missa de domingo, relativamente perto, mesmo aqui no Alentejo. E, no entanto, muitos que se dizem católicos dispensam-se dela. Contrastando com essa atitude, muitos cristãos nossos contemporâneos, em outras paragens deste mesmo planeta, caminham horas e horas a pé e arriscam a própria vida para a poderem celebrar. Uns e outros se dizem cristãos, mas que diferença! Nós não podemos viver sem celebrar o domingo, assim respondeu aos juízes um grupo de cristãos surpreendidos a celebrar clandestinamente a Eucaristia numa casa particular, no século III.
Na celebração da Eucaristia é-nos dado um olhar novo, iluminado pela fé em Cristo Ressuscitado e pela esperança da Vida divina que Ele nos prometeu. Ao contrário dos pagãos que andam sem Deus, pensando que tudo acaba na morte, e que, por isso, procuram saciar a concupiscência dos olhos e da carne nas coisas do mundo, nós sabemos que a nossa pátria está nos céus, de onde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo que transformará o nosso corpo miserável para o tornar semelhante ao Seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo, (Fl. 3,20-21) como escutaremos na 2ª leitura do próximo domingo. Por isso, não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis. (…) Sabemos com efeito que, se a nossa morada terrestre, esta tenda, for desfeita, teremos no céu uma casa edificada por Deus, morada eterna que não é feita por mão de homem (2Cor. 4,18-5,1). Esta é a esperança que perspetiva a nossa caminhada neste mundo: seremos transformados! De corpo miserável a corpo glorioso, de homem velho e terreno a homem novo e celeste, eis a metamorfose espiritual que o Senhor quer realizar em nós, com a nossa colaboração. Essa transformação será plena quando Ele vier no fim dos tempos; mas, renascido pelo Batismo, o corpo de cada cristão, revestido da luz de Cristo, torna-se, desde já, lugar da manifestação da glória de Deus.
É difícil vivermos esta realidade no meio do mundo que a estranha e hostiliza, e caminharmos na fé apoiados tão só na palavra que nos despertou e pôs a caminho. Como Abraão, também nós precisamos de olhar para o céu e de nos apoiar na aliança que o Senhor nos oferece para que tenhamos a garantia de que a esperança não engana (Rm5,5). Caminhamos à luz da fé e não da visão (2Cor.5,6), mas a Transfiguração do Senhor mostra-nos que também a visão, como antecipação sacramental da glória que nos foi prometida, é indispensável para nos orientar e sustentar na vida presente.
A Sagrada Liturgia, e de modo eminente a celebração da Eucaristia, é o lugar e o momento dessa visão transfiguradora. Nela se cumpre para nós e nos é oferecido aquilo que a Transfiguração do Senhor simboliza: ali, de facto, Jesus toma-nos consigo e introduz-nos na Sua intimidade, faz-nos ouvir as palavras de Moisés e dos Profetas que anunciam o novo Êxodo aberto para a humanidade inteira na Sua Morte e Ressurreição; ali somos introduzidos na nuvem luminosa da glória divina para saborearmos o deslumbramento da sua beleza, bondade e verdade. Na ação litúrgica os nossos sentidos espiritualizados podem captar e perceber, de alguma maneira, a realidade divina para a qual fomos criados e que está crescendo em nós.
Ninguém poderá avançar como cristão e enfrentar as muitas dificuldades e situações dolorosas de cruz e de morte se não levar na alma essa visão da glória que nos espera, oferecida e renovada pela celebração da Eucaristia em cada domingo e em cada dia. Mas como poderá desejá-la ou até suspeitar da sua existência quem está embrutecido pela torrente de imagens deslumbrantes e avassaladoras das vaidades mundanas que recebe diariamente? O olhar turvo de quem desconhece a graça e a vida divina esvazia de significado a natureza inteira reduzindo-a a mero objeto da sua cobiça para a sujeitar à servidão da corrupção (Rom. 8,21) e despe da sua identidade e da sua dignidade o corpo humano para o ver apenas como objeto que se deseja possuir ou manipular.
No monte da Transfiguração, como que despertando, Pedro, Tiago e João viram a glória de Jesus, Novo Adão, viram o Seu Corpo revestido de luz resplandecente, promessa do que seremos nós, glorificados com Ele. Vislumbraram precisamente o contrário do que viram Adão e Eva no paraíso terrestre quando, depois do pecado, se deram conta de que estavam nus e sentiram vergonha. Para nos dar um olhar novo, purificado, e para nos revestir da Sua glória, Cristo, novo Adão, morreu cravado numa cruz, despojado das suas vestes e da sua dignidade. Ali o Seu corpo, carregando com os pecados do mundo, não tinha beleza nem glória mas era o mesmo que Pedro, Tiago e João tinham visto resplandecente no Tabor e que, alguns dias depois, contemplariam ressuscitado, cingido de poder e nimbado da glória divina.
Queres receber esse olhar novo, purificado e transfigurador de toda a realidade? Centra-te no essencial e corta com o que é prejudicial ou inútil para a tua vida espiritual. Pede ao Senhor que te dê um coração puro. Aprende a jejuar com os olhos vendo menos televisão e não andando à deriva na Internet. Durante esta Quaresma alimenta-te mais da palavra de Deus, aprende a contemplar a imagem de Cristo Crucificado, faz oração todos os dias e, sobretudo, não troques por nada a Eucaristia dominical.
+ J. Marcos
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