Vaticano: “Não é de admirar: o papa era amigo de muitas pessoas”.
Vicariato: “Cada escrito foi levado em conta no processo de canonização”
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A redacção da BBC resolveu “perturbar” João Paulo II onze anos depois
da sua morte e quase dois desde a sua canonização. A rede britânica fez
barulho em torno da correspondência trocada entre o papa e a
filósofa norte-americana de origem polaca Anna-Teresa Tymieniecka.
Wojtyla sempre manteve correspondência com velhos e novos amigos,
incluindo mulheres. Uma delas foi a psiquiatra Wanda Poltawska, de
Cracóvia, a quem o Santo Padre estava ligado por uma amizade tão
profunda que ambos se chamavam de irmão e irmã, como ela revelou no
livro “Diário de uma amizade”, publicado após a morte de São João Paulo
II.
O jornalista Edward Stourton, da BBC, examinou a correspondência
entre o papa e Anna-Teresa Tymieniecka na Biblioteca Nacional da Polónia
– que adquiriu o material por uma grande soma de dinheiro. A emissora
britânica pretende produzir um documentário chamado “As cartas secretas
do papa João Paulo II” (como se elas fossem mesmo secretas).
O material examinado demonstra uma amizade que durou cerca de 30 anos
e uma proximidade especial entre o papa e a filósofa, que foi definida
pelo próprio papa como “um dom de Deus”.
As primeiras cartas datam de 1973, quando Wojtyla já era arcebispo de
Cracóvia. São mais “formais”. Ao longo dos anos (a última é de 2005,
poucos meses antes da morte do papa), tornaram-se mais confidenciais.
“Minha querida Teresa, você fala de estar separados, mas eu não sei como
encontrar resposta para estas palavras”, lê-se, por exemplo, em uma das
cartas.
Em outra, de 1978, ano de sua eleição ao trono de Pedro, ele escreve:
“Estou escrevendo após o evento, para que a correspondência entre nós
possa continuar. Prometo que me lembrarei de tudo nesta nova etapa da
minha jornada”. Antes, em uma carta de 1976, Wojtyla tinha escrito: “Já
no ano passado eu estava procurando uma resposta para essas palavras ‘eu
te pertenço’, e, finalmente, antes de deixar a Polónia, encontrei a
maneira: um escapulário”, como sinal da “dimensão em que te aceito e te
sinto em todos os lugares e em todo tipo de situação, quando estás perto
e quando estás longe”.
São frases que, se mal interpretadas, podem dar lugar a malícia e
ambiguidade. A própria BBC teve de estabelecer em seu site que “não há
nenhum sinal de que o papa tenha quebrado o seu voto de castidade” e que
a amizade consistia mais num “vínculo platónico”. Stourton fez sua
interpretação: “Eu diria que eles eram mais do que amigos, mas menos do
que amantes”, sugerindo que a mulher abrigava “sentimentos intensos”
pelo seu correspondente, enquanto o papa teria tentado dar uma direcção
de amizade à sua relação.
Nada disso era novidade para o Vaticano, como contou à agência ANSA o
relator da causa de beatificação de São João Paulo II, o padre Daniel
Ols. O Vicariato de Roma declarou a ZENIT: “Tudo o que é exigido pelo
direito canónico foi cuidadosamente seguido. Neste caso, no início do
processo de beatificação e canonização de São João Paulo II, todas as
pessoas em posse de escritos atribuídos ao Servo de Deus foram
convidadas, por meio de um edito e de várias publicações, a transmitir
tais escritos ao tribunal competente caso ainda não constassem na
postulação, e todos os escritos entregues foram examinados durante o
processo”.
O cardeal Stanislaw Dziwisz, que durante 40 anos esteve ao lado de
Karol Wojtyla como colaborador fiel e, depois, foi seu secretário
particular durante todo o longo pontificado de João Paulo II, declarou
em uma carta divulgada ontem: “Qualquer um que tenha vivido ao lado de
João Paulo II sabe muito bem que não espaço algum para qualquer
interpretação maliciosa. Ele era livre e transparente e não tinha nenhum
complexo, pois era um homem puríssimo, capaz de respeitar cada pessoa e
cada situação da vida. Esta é a única chave de leitura com a qual
interpretar toda a sua vida exemplar e santa”.
Greg Burke, vice-director da Sala de Imprensa do Vaticano, declarou
aos jornalistas que “não é de admirar que o papa João Paulo II tenha
mantido estreitas amizades com várias pessoas, tanto homens quanto
mulheres. Ninguém pode se dizer chocado com esta notícia”.
Karol Wojtyla conheceu Tymieniecka quase por acaso, em 1973, quando
ela procurou o então cardeal de Cracóvia por conta de um livro de
filosofia que ele tinha escrito. Foi assim que começou uma intensa
correspondência. Tymieniecka, que tinha se casado em solo
norte-americano depois de sofrer a ocupação nazista, decidiu viajar dos
Estados Unidos à Polónia para discutir a revisão de um dos textos
escritos por Wojtyla. Ao longo dos anos, houve vários outros encontros:
às vezes particulares, às vezes na presença do cardeal Dziwisz. Diversas
fotografias retratam os dois esquiando nas montanhas durante uma das
tão amadas viagens do Santo Padre, ou em Roma e nos corredores do
Vaticano, conversando tranquilamente. Sem nada para esconder.
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