Segunda pregação de advento do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap
Há poucos dias comemoramos o quinquagésimo
aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II e entramos no ano
jubilar da misericórdia, pelo qual, Santo Padre, somos-lhe muito gratos.
Devemos dizer que não é nem um pouco arbitrária a ligação existente
entre o tema da misericórdia e o concílio vaticano II. No discurso de
abertura, no dia 11 de outubro de 1962, São João XXIII indicou na
misericórdia a novidade e o estilo do concílio:
“Sempre, escrevia, a Igreja se opôs aos erros; muitas vezes, também,
condenou-os com a máxima severidade. Agora, porém, a Esposa de Cristo
prefere usar o remédio da misericórdia, mais do que o da severidade”[1]
Em certo sentido, à distância de meio século, o ano da misericórdia
celebra a fidelidade da Igreja àquela sua promessa. Às vezes, surge a
pergunta de se insistir muito na misericórdia não é correr o risco de se
esquecer o outro atributo de Deus que é a justiça. Mas, a justiça de
Deus, não só não contradiz a sua misericórdia, mas consiste justamente
nessa! Deus se faz justiça, fazendo misericórdia. Deus é amor; por isso
faz justiça a si mesmo – ou seja, se demonstra verdadeiramente por
aquilo que é – quando faz misericórdia. Bem antes de Lutero Santo
Agostinho tinha escrito: ‘A justiça de Deus’ é aquela, pela qual, por
sua graça, Deus nos torna justos, exatamente como ‘a salvação do Senhor’
(salus Domini) (Sl 3, 9) é aquela, pela qual, Deus nos salva[2]”.
Isso não esgota todos os sentidos da expressão “justiça de Deus”, mas
é certamente o significado principal dela. Um dia existirá, também, uma
justiça de Deus retributiva, que dará a cada um de acordo com os
próprios méritos (cf Rom 2, 5-10); mas, não é dessa que o Apóstolo fala
quando diz: “Agora se manifestou a justiça de Deus” (Rom 3, 21). Aquela é
um evento futuro, esta um evento presente. Em outro lugar o próprio
apóstolo explica assim: “Quando se manifestou a bondade de Deus e o seu
amor pelos homens, ele nos salvou, não em virtude de obras de justiça
realizadas, mas pela sua misericórdia” (Tt 3, 4-5).
1. “Sejam santos porque eu, vosso Deus, sou santo”
O tema desta meditação é o capítulo V da Lumen gentium, intitulado “A
vocação universal à santidade na Igreja”. Nas histórias do Concílio
este capítulo só é lembrado por uma questão, digamos, de redação. Os
vários Padres conciliares, membros de ordens religiosas, pediram com
insistência que fosse dedicado um tratado a parte sobre a presença dos
religiosos na Igreja, como tinha sido feito para os leigos. Foi assim
que aquilo que tinha sido lembrado até então como um capítulo unicamente
relacionado à santidade de todos os membros da Igreja, foi dividido em
dois capítulos, dos quais o segundo (VI da LG), dedicado especificamente
aos religiosos[3].
O chamado à santidade foi formulado desde o início com estas palavras:
“Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela
sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do
Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação»” (1 Tess.
4,3; cfr. Ef. 1,4)[4].
Este chamado à santidade é o ponto mais necessário e urgente do
concílio. Sem isso, todos os outros requisitos são impossíveis ou
inúteis. De fato, normalmente, isso é deixado de lado porque só Deus e a
consciência que a exigem e pedem, e não as pressões ou interesses de
grupos humanos particulares da Igreja. Às vezes, parece que em certos
ambientes e em certas famílias religiosas, depois do concílio, focaram
mais no compromisso de “fazer os santos” do que no de “fazer-se santos”,
ou seja, mais esforço para levar aos altares os próprios fundadores ou
correligionários do que em imitar os exemplos e as virtudes.
A primeira coisa que deve ser feita, quando se fala de santidade, é
libertar esta palavra da submissão e do medo que dá, por causa de certas
deturpações que fizeram dela. A santidade pode acarretar fenómenos e
provas extraordinárias, mas não se identifica com essas coisas. Se todos
são chamados à santidade, é porque, devidamente compreendida, ela está
ao alcance de todos, faz parte da normalidade da vida cristã. Os santos
são como as flores: não existem só aqueles que são colocados no altar.
Quantos deles desabrocham e morrem escondidos, depois de terem lançado
silenciosamente seu perfume no ambiente! Quantas dessas flores
escondidas floresceram e florescem continuamente na Igreja.
A motivação de fundo da santidade é clara desde o início e é que Deus
é santo: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" (Lv
19, 2). A santidade é a síntese, na Bíblia, de todos os atributos de
Deus. Isaías chama Deus de "o Santo de Israel", aquele que Israel
conheceu como o Santo. “Santo, santo, santo”, Qadosh, qadosh, qadosh, é o
grito que acompanha a manifestação de Deus no momento do seu chamado
(Is 6, 3). Maria reflete fielmente essa ideia de Deus dos profetas e dos
Salmos, quando exclama no Magnificat: "Santo é o seu nome".
Quanto ao conteúdo da ideia de santidade, o termo bíblico qadosh
sugere a ideia de separação, de diversidade. Deus é santo porque é o
totalmente outro com relação a tudo o que o homem pode pensar, dizer ou
fazer. É absoluto, no sentido etimológico de ab-solutus, solto
de tudo e à parte. É o transcendente, no sentido de que está por acima
de todas as nossas categorias. Tudo isso no sentido moral, antes mesmo
que metafísico; diz respeito ao atuar de Deus e não só ao seu ser. Na
Escritura define-se como “santos” principalmente os juízos de Deus, as
suas obras e os seus caminhos[5].
Contudo, santo não é um conceito principalmente negativo, que indica
separação, ausência de mal e de mistura em Deus; é um conceito sumamente
positivo. Indica uma “pura plenitude”. Em nós, a “plenitude” nunca se
mistura totalmente com a “pureza”. Sempre conquistamos a nossa pureza,
purificando-nos e tirando o mal das nossas ações (Is 1, 16). Em Deus
não; pureza e plenitude coexistem e constituem juntas a suma
simplicidade de Deus. A Bíblia expressa perfeitamente esta ideia de
santidade quando fala que a Deus "nada pode ser acrescentado e nada
tirado" (Sir 42, 21). Em quanto suma pureza, nada lhe deve ser tirado; em quanto suma plenitude, nada lhe pode ser acrescentado.
Quando se procura entender como o homem entra na esfera da santidade
de Deus e o que significa ser santo, logo prevalece, no Antigo
Testamento, a ideia ritualística. Os trâmites da santidade de Deus são
objetos, lugares, ritos, prescrições. Seções inteiras do Êxodo e do
Levítico se intitulam “códigos de santidade” ou “lei de santidade”. A
santidade está contida em um código de leis. É tal esta santidade que é
profanada se alguém se aproxima do altar com uma deformidade física ou
depois de ter tocado num animal imundo: "santificai-vos e sede santos
..., não se contaminem com qualquer um destes animais" (Lv 11, 44; 21,
23).
É possível ler diferentes vozes nos profetas e nos salmos. À
pergunta; “Quem subirá o monte do Senhor, quem entrará em sua santa
habitação?”, ou: “Quem dentre nós pode habitar com um fogo abrasador?",
responde-se com indicações requintadamente morais: "Quem tem mãos puras e
inocente coração”, e “quem caminha na justiça e fala com lealdade” (cf.
Sl 24, 3; Is 33, 14 s.). São vozes sublimes que, porém, permanecem
isoladas. Ainda no tempo de Jesus, nos fariseus e em Qumram prevalece a
ideia de que a santidade e a justiça consistem na pureza ritual e na
observância de certos preceitos, especialmente o do Sábado, embora se,
na teoria, ninguém esquece que o primeiro e maior mandamento é o do amor
a Deus e ao próximo.
2. A novidade de Cristo
Passando agora para o Novo Testamento, vemos que a definição de
"nação santa" estende-se bem cedo aos cristãos. Para Paulo, os batizados
são "santos por vocação”, ou “chamados a ser santos”[6].
Ele designa habitualmente os batizados com o termo “os santos”. Os
fieis são “escolhidos para ser santos e imaculados diante dele no amor"
(Ef 1, 4). Mas sob a aparente identidade de terminologia vemos mudanças
profundas. Santidade não é mais um fato ritual ou legal, mas moral, até
mesmo ontológico. Não reside nas mãos, mas no coração; não se decide
fora, mas dentro do homem e resume-se na caridade. "Não é o que entra
pela boca que contamina o homem; o que sai da boca, isso contamina o
homem "(Mt 15, 11).
Os mediadores da santidade de Deus não são mais lugares (o templo de
Jerusalém ou o monte Carizim), ritos, objetos e leis, mas é uma pessoa,
Jesus Cristo. Ser santo não consiste tanto em um estar separado disto ou daquilo, mas em um estar unido a
Jesus Cristo. Em Jesus Cristo está a própria santidade de Deus que nos
alcança pessoalmente, não em uma luz distante dele. "Tu és o Santo de
Deus!": duas vezes ressoa esta exclamação dirigida a Jesus nos
Evangelhos (Jo 6, 69; Lc 4, 34). O livro do Apocalipse chama Cristo
simplesmente "O Santo” (Ap 3,7) e a liturgia ecoa exclamando no Glória
"Tu solus Sanctus", Só Tu és o Santo.
Há duas maneiras de entrar em contato com a santidade de Cristo e esta é comunicada a nós: por apropriação e por imitação.
Dessas, a mais importante é a primeira que se realiza na fé e por meio
dos sacramentos. A santidade é, antes de mais nada, graça e é obra de
toda a Trindade. Porque, de acordo com o Apóstolo, nós pertencemos a
Cristo mais do que a nós mesmos (cf. 1 Cor 6, 19-20), segue-se que,
inversamente, a santidade de Cristo nos pertence mais do que a nossa
própria santidade. "O que é de Cristo - escreve o teólogo bizantino
Nicolau Cabasilas - é mais nosso do que aquilo que é nosso”[7].
Essa é a ideia genial, ou ato corajoso, que temos que realizar na vida
espiritual. A sua descoberta não se faz, geralmente, no começo, mas no
final do próprio itinerário espiritual; não no noviciado, mas mais
tarde, quando já se experimentou todas as outras estradas e vemos que
não levam muito longe.
Paulo nos ensina como fazer este “ato corajoso”, quando declara
solenemente não querer ser encontrado com a sua própria justiça, ou
santidade, resultante do cumprimento da lei, mas apenas com aquela que
deriva da fé em Cristo (cf. Fl 3, 5-10). Cristo, diz, se tornou para nós
"justiça, santificação e redenção" (1 Cor 1,30). "Para nós": portanto,
podemos exigir a sua santidade como nossa em todos os efeitos. Um ato
corajoso é também o que faz São Bernardo, quando grita: “eu, quando me
falta, o aproprio (literalmente, o usurpo) do lado de Cristo”[8].
“Usurpar” a santidade de Cristo, “arrebatar o reino dos céus”! Isso é
ato corajoso que deve ser repetido muitas vezes na vida, especialmente,
no momento da comunhão eucarística.
Dizer que nós participamos da santidade de Cristo, é como dizer que
participamos do Espírito Santo que vem dele. Ser ou viver “em Cristo
Jesus” equivale, para São Paulo, ser ou viver “no Espírito Santo”. "A
partir disso - por sua vez, escreve São João – se reconhece que nós
permanecemos nele e ele em nós: ele nos fez o dom do seu Espírito” (1 Jo
4, 13). Cristo permanece em nós e nós permanecemos em Cristo, graças ao
Espírito Santo.
É o Espírito Santo, portanto, que nos santifica. Não o Espírito Santo
no geral, mas o Espírito Santo que foi em Jesus de Nazaré, que
santificou a sua humanidade, que se recolheu nele como em um vaso de
alabastro e que, da sua cruz e em Pentecostes, ele derramou sobre a
Igreja. Por isso, a santidade que está em nós não é uma segunda e
diferente santidade, mas é a mesma santidade de Cristo. Nós somos
verdadeiramente “santificados em Cristo Jesus” (l Cor 1,2). Como no
batismo, o corpo do homem está imerso e lavado na água, assim a sua alma
é, por assim dizer, batizada na santidade de Cristo: “Fostes lavados,
fostes santificados, fostes justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e
no Espírito do nosso Deus”, diz o Apóstolo referindo-se ao batismo (1
Cor 6,11).
Ao lado deste meio fundamental da fé e dos sacramentos, deve estar
também a imitação, as obras, o esforço pessoal. Não como meio
independente e diferente, mas como o único meio adequado de manifestar a
fé, traduzindo-a em ato. A oposição fé – obras é um falso problema que
se manteve por causa da controvérsia histórica. As boas obras, sem a fé,
não são obras “boas” e a fé sem as obras boas não é verdadeira fé.
Basta que por “obras boas” não se entendam principalmente (como
infelizmente era no tempo de Lutero) indulgências, peregrinações e
práticas piedosas, mas a observância dos mandamentos, especialmente o do
amor fraterno. Jesus disse que no juízo final alguns serão excluídos do
Reino por não terem vestido o nu e alimentado o faminto. Não há
salvação, portanto, pelas obras boas, mas não há salvação sem as obras boas. Podemos resumir assim a doutrina do concílio de Trento.
Acontece igual à vida física. A criança não pode fazer absolutamente
nada para ser concebida no seio da mãe; precisa do amor dos pais (pelos
menos foi assim até hoje!). Uma vez que nasceu, deve fazer trabalhar os
seus pulmões para respirar, sugar o leite; em suma, deve trabalhar,
senão a vida que recebeu morre. A frase de São Tiago: “A fé, sem as
obras é morta” (Tg 3, 26) deve ser entendida neste sentido, isto é, no
presente: a fé sem as obras morre.
No Novo Testamento, dois verbos são usados para referir-se à
santidade, um no indicativo e um no imperativo: “Sois Santos”, “Sede
santos”. Os cristãos são santificados e santificantes[9].
Quando Paulo escreve: “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação”,
é claro que se refere justamente a esta santidade que é fruto de
compromisso pessoal. Acrescenta, de fato, como para explicar em que
consiste a santificação da qual está falando: “Que vos abstenhais da
imodéstia, que cada um saiba manter o próprio corpo com santidade e
respeito” (cf. 1 Ts 4: 3-9).
O nosso texto da Lumen Gentium enfatiza claramente estes
dois aspectos, um objetivo e outro subjetivo, da santidade, baseados
respectivamente na fé e nas obras. Diz:
"Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados em Jesus
Cristo, não segundo as suas obras, mas segundo o desenho e a graça Dele,
no batismo da fé foram feitos realmente filhos de Deus e
coparticipantes da natureza divina, e, por isso, realmente santos. Esses
devem, portanto, com a ajuda de Deus, manter e aperfeiçoar, vivendo-a, a
santidade que receberam”[10].
Porque, de acordo com Lutero, a Idade Média tinha se desviado sempre
mais para acentuar o lado de Cristo como modelo, e ele acentuou o outro,
afirmando que ele é dom e que este dom corresponde à fé aceitar”[11].
Hoje estamos todos de acordo que não se deve contrapor as duas coisas,
mas mantê-las unidas. Cristo é, antes de mais nada, dom a ser recebido
por meio da fé, mas é também modelo a ser imitado na vida. Ele próprio
fala isso no Evangelho: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu
vos fiz (Jo 13, 15); "Aprendei de mim que sou manso e humilde de
coração" (Mt 11, 29).
3. Santos ou fracassados
Este é o ideal novo de santidade do Novo Testamento. Um ponto
permanece inalterado, e é possível aprofundá-lo na passagem do Antigo ao
Novo Testamento e é a motivação de fundo do chamado à santidade, o
“porquê” é necessário ser santos: porque Deus é santo. “À imagem do
santo que vos chamou, sede também vós santos". Os discípulos de Cristo
devem amar os inimigos, “para ser filhos do Pai celeste que faz chover
sobre justos e sobre injustos" (Mt 5, 45). A santidade não é, portanto,
uma imposição, um fardo que nos é colocado sobre os ombros, mas um
privilégio, um dom, uma honra suprema. Uma obrigação, sim, mas que
deriva da nossa dignidade de filhos de Deus. Aplica-se à ela, no sentido
pleno, o ditado francês "noblesse oblige".
A santidade é exigida pelo próprio ser da criatura humana; não diz
respeito aos acidentes, mas à sua própria essência. Ele deve ser santo
para realizar a sua identidade profunda que é de ser “a imagem e
semelhança de Deus”. Para a Escritura, o homem não é principalmente,
como para a filosofia grega, o que é determinado a ser pelo seu
nascimento (physis), ou seja, um “animal racional”, mas o que é chamado a
se tornar, com o exercício da sua liberdade, na obediência a Deus. Não é
tanto natureza, mas vocação.
Se, portanto, somos "chamados a ser santos", se somos "santos por
vocação”, então fica claro que seremos pessoas verdadeiras, realizadas,
na medida em que formos pessoas santas. Caso contrário, seremos pessoas
fracassadas. O contrário de santo não é pecador, mas fracassado! Pode-se
fracassar na vida de muitas formas, mas são fracassos relativos que não
comprometem o essencial; aqui se fracassa radicalmente naquilo que se
é, não só naquilo que se faz. Tinha razão Madre Teresa quando perguntada
à queima roupa por uma jornalista o que ela sentia quando era aclamada
santa por todo o mundo, respondeu: “A santidade não é um luxo, é uma
necessidade”.
O filósofo Pascal formulou o princípio das três ordens ou níveis de
grandeza: a ordem dos corpos ou da matéria, a ordem da inteligência e a
ordem da santidade. Uma distância quase infinita separa a ordem da
inteligência da dos corpos, mas uma distância “infinitamente mais
infinita” separa a ordem da santidade da ordem da inteligência. Os genes
não precisam das grandezas materiais; não podem tirar ou acrescentar
nada a eles. Da mesma forma, os santos não precisam das grandezas
intelectuais; a sua grandeza é de outra ordem. “Eles são vistos por Deus
e pelos anjos, não pelos corpos e pelas mentes curiosas; basta-lhes
Deus”.
Este princípio permite avaliar da forma certa as coisas e as pessoas
que nos rodeiam. A maioria das pessoas permanecem paradas no primeiro
nível e nem sequer suspeitam da existência de um plano superior. São
aqueles que passam a vida preocupados só em acumular riquezas, cultivar a
beleza física, ou aumentar o próprio poder. Outros acreditam que o
valor supremo e o vértice da grandeza seja o da inteligência. Procuram
se tornar célebres no campo das letras, da arte, do pensamento. Só
poucos sabem que existe um terceiro nível de grandeza, a santidade.
Esta grandeza é superior porque eterna, porque é tal aos olhos de
Deus que é a verdadeira medida da grandeza e também porque realiza o que
há de mais nobre no ser humano, ou seja, a sua liberdade. Não depende
de nós nascermos fortes ou fracos, bonitos ou menos bonitos, ricos ou
pobres, inteligentes ou pouco inteligentes; depende de nós, sim, sermos
honestos ou desonestos, bons ou maus, santos ou pecadores. Tinha razão o
musico Gounod, ele próprio um gênio, quando dizia que “um gota de
santidade vale mais do que oceano de gênio[12]”.
A boa notícia, sobre a santidade, é que não se é obrigado a escolher
um destes três tipos de grandeza. Pode-se ser santos em cada um deles.
Houve, e há santos entre os ricos e entre os pobres, entre os fortes e
entre os fracos, entre os gênios e as pessoas sem cultura. Ninguém está
excluído desta magnitude do terceiro nível.
4. Voltar ao caminho da santidade
O nosso tender à santidade é semelhante ao caminho do povo eleito no
deserto. Esse também é um caminho feito de contínuas paradas e partidas.
De tanto em tanto o povo parava e acampava; ou porque estava cansado,
ou porque tinha encontrado água e comida, ou simplesmente porque cansa
caminhar sempre. Mas eis que chega de improviso a ordem do Senhor a
Moisés de levantar as tendas e recomeçar a caminhada: “Levante, saia
daqui, tu e o teu povo, rumo à terra que prometi” (Ex 15, 22; 17, 1).
Na vida da Igreja, essas chamadas para voltar à caminhar são ouvidas,
especialmente, no início dos tempos fortes do ano litúrgico ou por
ocasiões particulares como é o jubileu da misericórdia divina aberto
recentemente pelo Papa. Para cada um de nós, tomados individualmente, o
tempo de levantar as tendas e recomeçarmos a caminhada rumo a santidade é
quando nos damos conta, no íntimo, da misteriosa chamada que vem da
graça. No começo, há como que um momento de parada. A pessoa para no
turbilhão de suas ocupações, toma, como se costuma dizer, as distâncias
de tudo para olhar a sua vida quase que de fora ou do alto, sub specie aeternitatis. Surgem, então, as grandes perguntas: “Quem sou? O que quero? O que estou fazendo da minha vida?”
Embora fosse um monge, São Bernardo teve uma vida muito movimentada:
concílios que presidiu, bispos e abades que reconciliou, cruzadas que
pregou. De vez em quando, diz o seu biógrafo, ele parava e, quase
entrando em diálogo consigo mesmo, se perguntava: “Bernardo, a que
viestes?” (Bernarde, ad quid venisti?)[13].
Por que deixastes o mundo e entrastes no mosteiro? Nós podemos
imitá-lo; pronunciar o nosso nome (também isso serve) e perguntar-nos:
Por que és cristão? Por que és sacerdote ou religioso? Estás realizando
aquilo pelo qual estás no mundo?
No Novo Testamento se descreve um tipo de conversão que poderíamos
definir como a conversão-despertar, ou a conversão da mediocridade. No
Apocalipse se leem sete cartas escritas aos anjos (segundo alguns
exegetas aos bispos) de várias outras Igrejas da Ásia Menor. Na carta ao
anjo de Éfeso, ele começa reconhecendo o que o destinatário fez de bom:
“Conheço as tuas obras, o teu cansaço e a tua constância... És
constante e tens sofrido muito pelo meu nome, sem cansar-te”. Depois
passa a listar o que, pelo contrário, não lhe agrada: “Abandonastes o
teu primeiro amor!”. E eis que, neste ponto, ressoa, como uma trombeta
entre adormecidos, o grito do Ressuscitado: Metanòeson, ou seja, converte-te! Levanta-te! Sacode-te! (Ap 2, 1 ss.).
Essa é a primeira das sete cartas. Muito mais severa é a última
dessas, aquela dirigida ao anjo da Igreja de Laodiceia: “Conheço as tuas
obras: tu não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!”.
Converte-te e volte a ser zeloso e fervoroso: Zeleue oun kai metanòeson! (Ap
3,15 ss). Também esta, como todas as outras, termina com aquele
misterioso aviso: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às
igrejas" (Ap 3, 22).
Santo Agostinho nos dá uma dica: começar a despertar em nós o desejo
de santidade: “Toda a vida do bom cristão – escreve – consiste em um
santo desejo [ou seja, em um desejo de santidade]: Tota vita christiani boni, sanctum desiderium est”[14]. Jesus
disse: “Bem aventurados aqueles que tem fome e sede de justiça, porque
serão saciados” (Mt 5, 6). A justiça bíblica, se sabe, é a santidade.
Nos deixamos, por isso, com uma pergunta para meditar: “Eu tenho fome e
sede de santidade, ou estou me contentando com a mediocridade?”
[Tradução Thácio Siqueira, ZENIT]
[1] Concilio Vaticano II. Documenti, Edizioni Dehoniane, Bologna 1967, p.47.
[2] S. Agostino, Lo Spirito e la lettera, 32,56 (PL 44, 237).
[3] Cf. Storia del concilio Vaticano II, organizado por G. Alberigo, vol. IV, Bologna 1999, pp. 68 ss.
[4] Lumen gentium, 39.
[5] Cf. Dt 32,4; Dn 3, 27; Ap 16, 7.
[6] Cf. Rom 1, 7 e 1 Cor 1, 2.
[7] N. Cabasilas, Vita in Cristo IV, 6 (PG 150, 613).
[8] S. Bernardo, Omelie sul Cantico, 61, 4-5 (PL 183, 1072).
[9] Cf. 1 Cor 1, 2; 1 Pt 1,2; 2, 15.
[10] Lumen gentium, 40
[11] Cf. Søeren Kierkegaard, Diario X 1,A 154 (ed. Organizada por C. Fabro, Brescia 1962, vol. I, p. 821).
[12] B. Pascal, Pensieri 593.
[13] Guglielmo di St. Thierry, Vita prima, I, 4 (PL 185, 238).
[14] S. Agostinho, In Epist. Joh. 4, 6 (PL 35, 2008).
in
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