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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Refugiados e Terrorismo

1. Acolhimento e rejeição
Nas últimas semanas temos sido bombardeados com notícias e imagens aparentemente contraditórias. Por um lado filas imensas de pessoas, adultos e crianças, homens e mulheres, a caminhar em direção à Europa, muitas vezes parados diante de muros, de betão e arame farpado ou de forças de segurança com armas apontadas. Por outro lado cenas de terrorismo em lugares de lazer e cidades até agora pacíficas. Perante estas cenas as redes sociais tomam posições contraditórias. Uns criticam a Europa por fechar as portas a quem foge à fome e à guerra, outros afirmam que é preciso ter cuidado, pois no seu meio há muitos terroristas muçulmanos infiltrados, cuja intenção é islamizar a Europa, acabar com os seus valores humanos e cristãos da liberdade, igualdade, fraternidade.

Os bispos portugueses, reunidos em Fátima na semana passada afirmavam no comunicado final: Perante o drama dos refugiados que fogem à guerra, à perseguição e à fome no Médio Oriente e no Norte de África, os Bispos de Portugal continuam em sintonia com os reiterados apelos do Papa Francisco e reafirmam o dever do acolhimento em nome das raízes humanas e cristãs da Europa. Neste contexto saúdam as instituições portuguesas que estão desde já preparadas para esta missão e congratulam-se pelas iniciativas da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR-‑Famílias), na qual se encontram muitas instituições da Igreja. Manifestam, contudo, a sua preocupação pelo atraso na recolocação dos 160 mil refugiados e recomendam às autoridades europeias e nacionais a maior celeridade na concretização deste processo. Formulam também o desejo de que possam ser acolhidos dignamente antes do frio de inverno, acabando com a cena desumana destes novos pobres diante de muros de betão e de arame farpado.

Que pensar de tudo isto e como proceder? Embora tenhamos de ser prudentes, no entanto, como pessoas e muito mais como cristãos nunca devemos pagar o mal com o mal. Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti. Ou, formulado pela positiva, faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti. A lei mosaica prescrevia aos israelitas chegados à terra da promessa para não oprimir os estrangeiros que moravam no seu meio, recordando-se de que também eles foram escravos na terra do Egito. E Jesus diz-nos para amar os nossos inimigos, perdoar, usar de misericórdia como o bom samaritano.

Facilmente generalisamos, por exemplo, afirmando que todos os refugiados são muçulmanos e estes fundamentalistas e terroristas. Dói-me e parte-se-me o coração ao ler estas afirmações nas redes sociais e, por vezes, vindas de pessoas com responsabilidades sociais, politicas e até eclesiais. Esta gente deveria fazer a experiência de caminhar com estes refugiados, sentir os seus sofrimentos e talvez mudassem de opinião e de atitude.

2. Como reagir perante o terrorismo?
Perante os atentados contra cidadãos que lutam pela vida com meios democráticos e pacíficos todos sentimos uma profunda dor e apelamos aos que assim procedem para acabar com estes atos de terror. Como cristãos rezamos por eles e pelas suas vítimas e imploramos de Deus a conversão ao amor e a consolação para quem sofre. Mas também pedimos aos governos e instituições internacionais para intervir, sentando à mesa do diálogo os representantes das fações em litígio e buscando soluções pacíficas, compromissos possíveis, no respeito pelas diferenças culturais e religiosas.

As organizações da sociedade civil podem conseguir melhores resultados que os governos, pois estes estão muito identificados com os seus interesses económicos e políticos. Cito apenas o exemplo do Quarteto para o Diálogo Nacional na Tunísia, a quem foi atribuído o prémio Nobel da paz deste ano de 2015. Estas instituições conseguiram transformar a primavera árabe na Tunísia numa oportunidade para uma democracia pluralista e desenvolver um processo politico alternativo no momento em que o pais estava à beira de uma guerra civil.

Tudo isto parece uma ingenuidade. Mas acredito que água mole em pedra dura tanto dá até que fura, como diz o nosso ditado. A evolução da humanidade é lenta, mas o recurso à guerra, à violência, é um retrocesso. Os fins não justificam os meios. A educação na família, na escola, nas comunidades religiosas deve ajudar a construir a paz. Bem-aventurados os que sofrem por causa da paz, proclamou Jesus. 

Homens, se homens, gritou o Papa Paulo VI na ONU e em Fátima. Também nós temos de continuar a gritar, para acordarmos os violentos, os indecisos e os indiferentes. Mas ao mesmo tempo gritar pela justiça, pela solidariedade, pela compaixão, pela misericórdia, de modo que todos sintam e vejam o outro como um amigo, um irmão, que caminha connosco nas alegrias e tristezas, nos sucessos e fracassos, na penúria e na abundância.

A oração da Igreja neste final de ano litúrgico e no princípio do próximo, no Advento, alerta-nos para caducidade das coisas materiais e da história do mundo, mas também para o Senhor que vem salvar-nos. Neste processo, sabendo que não temos aqui morada permanente, estejamos vigilantes e ajudemo-nos fraternalmente na peregrinação da vida.

† António Vitalino, bispo de Beja


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