Carta pastoral do arcebispo de Madrid, dom Carlos Osoro Sierra: “A vida humana surge de pai e mãe”
Madrid,
12 de Novembro de 2015
(ZENIT.org)
"A verdade sobre o homem começa na família" é o título da nova
carta semanal do arcebispo de Madri, dom Carlos Osoro Sierra. Publicamos
a seguir o texto na íntegra.
Neste mês de novembro, quando recordamos tantas pessoas que tiveram
protagonismo especial em nossa vida, e depois de vivermos o Sínodo da
Família, é imperativo, no mais profundo do meu coração, falar da
família, da família em que eu, pessoalmente, experimentei e aprendi o
melhor da minha vida. Não posso esquecer a família, que é a estrutura
fundamental de todas as culturas e em todos os tempos. Na história da
minha vida, foi crucial contemplar a Família de Nazaré, em que Deus
mesmo viveu e através da qual se fez presente neste mundo, revelando-nos
o rosto humano que, se quisermos viver e construir a cultura do
encontro, todos temos de ter. Dou graças a Deus por ter-se aproximado da
nossa vida dessa maneira. Deus se fez homem: “O Verbo se fez homem e
habitou entre nós” (Jo 1, 14). Em Jesus Cristo vemos o homem: como ele
pode ser e como Deus quer que ele seja. É na família que começa a se
desenvolver a verdade sobre o homem. E quando a instituição familiar é
pressionada de diversas formas para se acomodar a conveniências e não à
verdade, isto não pode ser chamado de progresso da humanidade, mas de
mentira instaurada na civilização. A história não é simplesmente um
progresso necessário rumo ao melhor, e sim um acontecimento de liberdade
ou um combate entre liberdades que se opõem; como dizia Santo
Agostinho, um conflito entre dois amores: o amor de Deus até o desprezo
de si mesmo e o amor de si mesmo até o desprezo de Deus.
Matrimónio e família estão unidos à dignidade pessoal do homem. Eles
não se derivam do instinto e da paixão, nem exclusivamente do
sentimento; derivam, antes de tudo, de uma decisão livre da vontade, de
um amor pessoal que torna os esposos uma só carne, um só coração e uma
só alma. O matrimónio é orientado ao futuro, é o único lugar idóneo para
a geração e para a educação dos filhos; por isso, em sua essência, ele é
orientado à fecundidade, a criarmos a cultura da vida como
colaboradores do amor criador de Deus. A regra estabelecida para os
processos da vida deve ser respeitada. Não se pode qualificar uma
sociedade de progressista se ela não respeita esses processos; do
contrário, faremos uma sociedade de olhos fechados para o futuro. Não
respeitar os processos da vida em sua essência é levar à cultura da
morte, com processos parecidos e até mais dissimulados, como temos
vivido em tempos recentes na Europa.
A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de
pessoas: do homem e da mulher, esposos e pais, e dos filhos. Remontar ao
princípio, ao gesto criador de Deus, é uma necessidade para a família
se ela quer se conhecer e realizar segundo a verdade interior do seu ser
e da sua ação histórica. Quero fazer três afirmações ao contemplar esse
gesto criador de Deus:
1. Creio na família: Sim, creio nesta comunidade de pessoas. A vida
humana surge de pai e mãe. Negar um deles é negar a vida. Todo homem
nasce de pai e mãe e cada um deles é indivisível do único ser que somos.
Não se pode surgir fisicamente sem pai e mãe. São princípios físicos de
existência, princípios pessoais de constituição e princípios simbólicos
e psicológicos de identificação do ser humano como ser com sentido no
mundo. Duas palavras sagradas para o ser humano, pai e mãe, com um
conteúdo especial. Negar ou diluir pai e mãe é um ataque à própria
essência da vida.
2. Espero na família: Sim, na família que recebeu a missão de
custodiar, revelar e comunicar o amor. Como nos disse São João Paulo II,
“o homem não pode viver sem amor. Permanece para si mesmo como um ser
incompreensível; sua vida é privada de sentido se não lhe é revelado o
amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e não o
torna próprio, se não participa dele vivamente” (RH 10). O papa
Francisco nos insistiu que este amor tem a sua realização mais profunda
no amor do homem e da mulher no matrimónio, e, de forma mais ampla,
entre os membros da mesma família. O compromisso fundamental da família é
o serviço à vida, com o qual ela promove, instaura e serve à cultura da
vida. O matrimónio formado pelo homem e pela mulher, início singular da
família, é a essência da cultura da vida e, portanto, do futuro da
humanidade.
3. Amor à família: Como não amar a família se nela e dela recebemos o
melhor que temos, que é a vida mesma? “Deus, com a criação do homem e
da mulher à sua imagem e semelhança, coroa e leva à perfeição a obra de
suas mãos; Ele os chama a uma especial participação no seu amor e, ao
mesmo tempo, no seu poder de Criador e Pai, mediante a sua cooperação
livre e responsável na transmissão do dom da vida” (FC 28). Enfrentar o
caminho da vocação matrimonial e familiar significa aprender o amor
conjugal dia a dia, ano após ano, o amor em alma e corpo, o amor que é
“paciente e bondoso, que não busca seu interesse (...), não tem medo do
mal”. O amor “encontra sua alegria na verdade”, o amor “tudo suporta” (I
Cor 13). Não deixemos que nos roubem e arrebatem a riqueza da família.
Não incluamos em nosso projeto de vida um conteúdo deformado,
empobrecido. “O amor se alegra com a verdade”. Busquemos a verdade do matrimónio e da família onde ela se encontra; cada um de nós é
verificação dessa verdade. Estejamos dispostos a buscar a verdade da
família no amor misericordioso, que, com tanta força, nos foi revelado
por Jesus Cristo; esta deve ser a nossa paixão. E não caiamos na
corrente das opiniões em que se desvia do amor de Cristo, que é
misericordioso e sempre instaura caminhos para defender a verdade do
homem, cuja revelação também se dá na família. Isto é converter o amor
em amor verdadeiro.
Na Família de Nazaré encontramos os argumentos necessários para dizer
que a família é uma realidade sagrada. E que pai e mãe são as palavras
mais belas porque falam da verdade do homem e da mulher que geram vida e
prolongam o amor de Deus. Nós, surgidos à vida necessariamente por meio
de pai e mãe, não somos um acréscimo externo ao amor mútuo dos nossos
pais: nós brotamos do próprio coração da sua doação recíproca, sendo seu
fruto e seu cumprimento. Creiam na família. Como lhes disse em outras
ocasiões, a família é a “escola de belas artes” mais importante na vida
do ser humano; aquela em que a beleza mais intensa se revela ao homem.
Com grande afeto e a minha bênção,
+ Carlos, arcebispo de Madrid
(12 de Novembro de 2015) © Innovative Media Inc.
in
Sem comentários:
Enviar um comentário