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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quem e Como educar

1. Urgência da educação
De muitos modos e amiúde se aborda o tema da educação, mas nem todos pensam o mesmo, embora usando palavras iguais ou semelhantes. Desde o iluminismo, sobretudo a partir de Rousseau que se propagou a ideia de que a natureza é boa e a educação corrompe a bondade natural do ser humano. Esta ideia continua subjacente na ideologia do género, quando afirma que a diferença sexual é uma questão da cultura e o ser humano deve ter a liberdade de escolher a sua identidade específica.

Estas ideologias têm contribuído para o desnorte de muita gente, que vive sem saber para onde caminha, experimentando no seu íntimo uma grande solidão, embora rodeado de muitas pessoas, por vezes atropelando-as. Toda esta situação convence-me cada vez mais da necessidade e urgência da educação no sentido da transmissão de princípios e valores estruturantes da personalidade. Mas a transmissão natural e personalizante desses ideais de vida acontece a partir da geração por amor e do interesse afetivo dos progenitores pela criatura gerada. A frieza, a indiferença e o individualismo das relações familiares não favorece o desenvolvimento da personalidade, para a sensação de bem estar das pessoas e a sua integração harmónica na sociedade.

O Sínodo dos Bispos a decorrer em Roma sobre a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo está a abordar este tema com muita atualidade. D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e um dos participantes portugueses no Sínodo, afirmou que não podemos olhar para os indivíduos isolados, mas para as agregações familiares, quer estejam ou não de acordo com a moral católica. A pastoral da Igreja falha redondamente quando não considera as pessoas praticantes na sua relação fundamental constituída pela família. Foram os nexos familiares que ajudaram a ultrapassar os anos de crise social e económica. Por isso a família é a escola e instituição social mais barata e eficiente. Quando a família falha, degenera em agressividade e violência, as sociedades enfrentam também uma grave crise.

A paixão pela educação tem de contar com a família. As escolas, os sistemas educativos, o Estado precisam de conectar com a família, procurar a sua colaboração e apoiar a sua instituição, para poder cumprir a sua missão. Devem estar ao serviço da família e não vice-versa. Também aqui se aplica o princípio da subsidariedade, fundamental na doutrina social da Igreja e que, em muitos casos, é posto de parte, como se observa quando se defende a escola estatal como a única pública, sem atender à orientação familiar.

Neste mês comemoramos o cinquentenário da declaração do Concílio Vaticano II sobre a educação cristã, cujos princípios é bom recordar e implementar para bem da família e da sociedade. Sem uma visão correta da pessoa humana, uma sã antropologia, é impossível educar. Sem educação o diálogo e a convivência pacífica tornam-se impossíveis. Quem não estiver de acordo, comente e faça-me chegar os seus comentários.

2. A família na missão da Igreja
No Alentejo muitos membros da família não tem contato regular com as comunidades cristãs. Nas nossas assembleias dominicais predominam as crianças e as mulheres, sobretudo idosas. Faltam muitos membros da família nesse encontro dominical. Por isso temos de encontrar tempo e meios para nos encontrarmos com esses membros, importantes no agregado familiar e na educação dos mais novos. Aqui se aplica a expressão do Papa Francisco de que temos de ser uma Igreja em saída, uma Igreja que vai ao encontro das pessoas, dos idosos, dos doentes, dos pais sem tempo e sem ritmo dominical. Como? Precisamos de ser criativos.

Ainda esta semana, participando num evento social, tomei um pouco mais de tempo para falar com alguns participantes, sobretudo homens, que normalmente não se encontram com padres e muito menos com bispos. Pois ouvi testemunhos de vida que me comoveram e que normalmente não se escutam nem vêem nas nossas assembleias dominicais. Afinal há muitas atitudes de fé naqueles com quem normalmente não nos encontramos. Como fomentar estes encontros e ajudar as pessoas e as famílias no seu desenvolvimento e apoiá-las nas suas potencialidades educativas e sociais?

Temos muitas oportunidades desperdiçadas. Queremos sempre falar e fazer discursos moralistas sem escutar as pessoas, com os seus problemas profundos e sabedoria natural. Reuniões de pais, preparação de batismos, preparação de casamentos, de primeiras comunhões, de crismas, de ajuda social, etc. Mais que ensinar, precisamos de escutar, perguntar, ouvir as suas respostas e ajudá-los a escutar a Palavra de Deus mais que a nossa. Um gesto, um testemunho vale mais que mil palavras, diz-se. 

Também na família e na escola precisamos de escutar os mais novos e ajudar-nos mutuamente a encontrar as respostas. Esta é a pedagogia de Jesus, como ouvimos no evangelho do jovem que foi perguntar-lhe o que é preciso para alcançar a vida eterna (Mc 10, 17 ss). Acompanhar, escutar, perguntar, ouvir e descobrir os caminhos da vida, na entreajuda fraterna, familiar e eclesial são sabedoria e património fundamental para aprofundarmos as nossas raízes e relações e ajudarmos quem está em crise pessoal ou comunitária.

† António Vitalino, bispo de Beja


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