Entrevista com Nayla Tabbara: não basta condenar as atrocidades do Estado Islâmico; a correta interpretação do Alcorão é crucial
Roma, 10 de Outubro de 2014 (Zenit.org)
A estudiosa muçulmana Nayla Tabbara é especialista em
Ciências da Religião pela Escola Prática de Altos Estudos de Paris,
professora de Estudos Islâmicos na Universidade Saint-Joseph, de
Beirute, e directora do Departamento de Estudos Interculturais da
Fundação Adyan, do Líbano.
Em entrevista ao jornal francês La Croix, feita por Anne-Bénédicte
Hoffner, publicada em 6 de Outubro e retomada pelo diário vaticano
L'Osservatore Romano de hoje, ela destaca que não basta a simples
condenação das atrocidades do Estado Islâmico no Oriente Médio: é
necessária, por parte dos muçulmanos, a reinterpretação dos textos
corânicos em conformidade com os valores humanos e fundamentais.
Pergunta: Alguns muçulmanos afirmam que o Estado Islâmico não faz
parte do islão e, portanto, não se sentem envolvidos neste assunto. O que
você pensa?
Nayla Tabbara: É verdade que o jihadismo cria uma verdadeira ruptura
com a cultura e com a tradição muçulmana; essas pessoas não sabem nada
do imenso trabalho feito pelos nossos estudiosos durante séculos. Mas só
afirmar que isso “não é em meu nome”, como virou lema de alguns jovens
britânicos, e dizer que as milícias do Estado Islâmico não estão agindo
em nome da grande maioria dos muçulmanos, não é suficiente. Neste
momento caótico e de tanto horror, é hora de reinterpretar os textos
corânicos ou da tradição do Profeta, para não serem entendidos de
maneira ambígua. É hora de promover um consenso sobre uma interpretação
que esteja de acordo com os valores humanos fundamentais.
Pergunta: A carta aberta de cento e vinte eruditos muçulmanos de todo
o mundo, que rejeitam as teses do Estado Islâmico, não é um primeiro
passo neste sentido?
Nayla Tabbara: Esta carta mostra os evidentes desvios a respeito da
tradição muçulmana. A nossa temática não tem que nos levar muito para
fora, para o ocidente, visando nos absolver, mas sim para o interno,
para os jovens muçulmanos de todo o mundo, para os nossos filhos, a fim
de esclarecer as nossas posições. As autoridades religiosas muçulmanas
no mundo inteiro têm que entrar em acordo para condenar o Estado
Islâmico e produzir interpretações claras sobre a jihad, sobre o
califado. Porque não basta falar; também é preciso se distinguir com
actos de solidariedade. É impensável que o dinheiro dos países do Golfo
não seja usado para ajudar todos aqueles refugiados.
Pergunta: Qual poderia ser a base desse trabalho?
Nayla Tabbara: Na Fundação Adyan, criada com o padre Fadi Daou e com
outros libaneses cristãos e muçulmanos, nós realizamos um trabalho
teológico sobre o lugar do outro no islão e no cristianismo. Em meu caso,
eu retomei o estudo dos versos do Alcorão sobre os “povos do livro",
colocando-os na ordem cronológica da sua revelação. Três fases se
distinguem. Depois da do meio, caracterizada por tensões e lutas, quando
o profeta Maomé viveu em Medina, eu individuei uma frase no contexto
seguinte ao retorno do profeta a Meca. Ela não é suficientemente
valorizada e se distingue por um chamamento a aceitar a diversidade como
uma riqueza querida por Deus, um chamado ao reconhecimento mútuo e à
reconciliação. O convite final do Alcorão é fazermos o bem juntos.
Pergunta: Qual é o eco deste trabalho?
Nayla Tabbara: A Fundação está muito empenhada na educação. Nós
estamos trabalhando com o Ministério de Educação do Líbano em uma
revisão dos programas de educação da escola, que vai da educação cívica
(ensinada em todos os níveis) até a filosofia e a civilização (nos dois
últimos anos do ensino médio). Assim, nós formamos jovens e educadores
para uma cidadania intercultural.
(10 de Outubro de 2014) © Innovative Media Inc.
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