O presidente nacional da Cruz Vermelha italiana fala das condições de milhares de refugiados e da dificuldade de garantir a eles a assistência médica
Roma, 08 de Maio de 2014 (Zenit.org) Naman Tarcha
"Eu fiz três visitas a Damasco desde o início do conflito:
em cada uma das vezes, eu voltei com uma experiência diferente e posso
contá-la através dos sons. Na primeira vez, era o barulho dos
helicópteros, dos mísseis disparados sobre a minha cabeça e de tiros que
me acordavam durante a noite. A segunda visita foi um constante
acompanhamento de barulhos de artilharia, um conflito em pleno
desenvolvimento, uma guerra. Na terceira vez, o silêncio...".
É assim que Francesco Rocca, presidente nacional da Cruz Vermelha
italiana (CRI) desde 2013, recorda as suas viagens ao país do Oriente
Médio imerso em um conflito sangrento. Rocca dirigiu o Departamento de
Políticas Sociais de Roma e, desde 2008, é comissário extraordinário da
CRI. Durante o seu mandato, enfrentou graves emergências humanitárias na
Itália e no exterior, que levaram voluntários e trabalhadores da Cruz
Vermelha italiana a se comprometer em primeira linha.
ZENIT entrevistou-o.
ZENIT: Qual é o compromisso da Cruz Vermelha na Síria?
Rocca: O papel da Cruz Vermelha italiana é dar apoio directo à Meia
Lua síria. É uma pequena realidade nacional, mas com voluntários sírios
dedicados e motivados, que se viu envolvida numa situação muito maior e
que está trabalhando com compromisso, paixão e qualidade excepcional.
Lamentavelmente, ela também pagou um alto preço de sangue. A Meia Lua
está realizando um trabalho enorme, dando assistência a mais de 600 mil
famílias e distribuindo ajudas e víveres que chegam da ONU. O apoio da
Cruz Vermelha italiana também é financeiro; a última doação foi de 200
mil euros. E é uma pequena contribuição em comparação com os milhares de
euros que seriam necessários para ajudar essas populações e salvar o
país.
ZENIT: A Síria é uma emergência humanitária esquecida. Complexidade, desinformação ou indiferença?
Rocca: Nós captamos, através dos comités, mais de meio milhão de
euros, o que não é muitíssimo... Obviamente, a ausência de uma
informação adequada torna mais difícil fazer uma campanha pela Síria.
Por um lado, os conflitos não são percebidos na sua plena gravidade pelo
público e pelas pessoas comuns; parece que há um pensamento que vira o
rosto, como se, no fundo, fosse culpa deles. E eu me pergunto: "Mas qual
é a culpa das crianças, das pessoas, dos civis não envolvidos directamente no conflito e que, em todo caso, estão pagando por esta
guerra tão violenta?". Por outro lado, o conflito assumiu uma dimensão
atroz nos últimos meses e nós vimos, mais de uma vez, graves violações
dos direitos humanos.
ZENIT: As notícias sobre a Síria quase desapareceram dos meios de comunicação. Qual é a situação humanitária?
Rocca: A situação humanitária é um desastre. Dentro do país há seis
milhões e meio de pessoas que tiveram que deixar as suas casas; pessoas
que, por causa do conflito, tiveram que abandonar casa, terras, escolas,
toda a sua história, que tiveram que abandonar a própria vida, mesmo
mudando para poucos quilómetros de distância, mas abandonando tudo.
Basta pensar que não há sequer um edifício em construção, mesmo
incompleto, que tenha sido ocupado para dar hospitalidade aos
desabrigados. Hoje, muitos vivem com parentes e amigos e ninguém vê esta
situação, mas eles vivem em condições péssimas, sem luz eléctrica e sem
água potável. Na zona rural de Damasco, hoje, centenas de milhares de
refugiados vivem em condições desumanas, no limite da sobrevivência.
ZENIT: Quais são as necessidades mais básicas dos civis?
Rocca: As necessidades são muitas. O acesso aos serviços de saúde e à
compra de remédios, por exemplo, são possíveis só numa mínima parte.
Foram destruídas estruturas de altíssima especialização e de excelência
no âmbito da saúde. E essas estruturas não servem só para os feridos da
guerra, mas para todos os que têm doenças, que nós temos que atender
todos os dias. Nós doamos um pequeno ambulatório na zona rural de
Damasco, mas ele não tem remédios, funciona só para genéricos como dor
de cabeça ou de estômago, mas não passamos disso. Outro problema é a
mobilidade: você tem que chegar de longe, de fora de Damasco, encarando
perigos e controles de segurança. Para fazer poucos quilómetros, você
pode demorar três horas e isso se transforma numa viagem da esperança.
ZENIT: É um conflito aberto e sem regras. Como está o panorama das violações de direitos?
Rocca: Tem havido uma verdadeira barbárie. Falta de respeito pelo
trabalhador humanitário, hospitais e lugares de atendimento atacados,
violando-se as regras elementares do direito internacional. São lugares
protegidos, considerados elementos de sacralidade, não só lugares de
culto religioso, mas lugares de culto da civilização humana, que nenhum
combatente deveria violar jamais. É ensurdecedor o silêncio dos meios de
comunicação. Quando eu vejo a imagem de hospitais inteiros destruídos,
isso fere a dignidade do ser humano, sem importar quem ele é, de onde
ele vem. Há execuções bárbaras, combates em áreas urbanas. 34
trabalhadores da Meia Lua síria foram assassinados no início do
conflito. Todos eram jovens de menos de trinta anos. E muitos deles eram
estudantes que dedicaram parte do seu tempo a ajudar o seu povo em
dificuldades.
ZENIT: A oposição síria acusa o governo sírio de bombardear
civis, enquanto o governo acusa os combatentes de usar os civis como
escudos humanos. É o círculo da morte?
Rocca: É um tema muito delicado. A Cruz Vermelha se pergunta sobre
isso já faz algum tempo. De fato, a natureza dos conflitos mudou e os
civis estão sendo cada vez mais atingidos. Não são conflitos entre
países, com sanções regulatórias claras: o que está acontecendo é que há
pessoas usando os jardins das casas como base para morteiros, para
atingir o exército. Por outro lado, é óbvio que a resposta corre o risco
de envolver civis indefesos que não têm força militar para reagir: é
uma dinâmica perversa, que não se consegue parar. Na falta de regras
internacionais, são sempre os mais fracos que pagam.
ZENIT: Por que, depois de três anos, a comunidade internacional ainda não conseguiu acabar com este conflito?
Rocca: Em toda crise internacional, pode ser pelo petróleo ou por
qualquer outra coisa, ou, como neste caso, por motivos de geopolítica, o
risco é o de atingir da pior maneira a população pobre. Numa situação
tão delicada, em vez de excitar as almas como foi feito no início,
provavelmente a via do diálogo que foi tentada em Genebra veio tarde
demais. Mas o diálogo e a reconciliação tinham que ser procurados antes,
sem gritar sabe-se lá que primaveras, já que primavera não teve
nenhuma. Isso, provavelmente, levou todos a um caminho equivocado.
ZENIT: Algum sinal positivo?
Rocca: Na minha última visita à Síria, eu vi que em várias áreas de
Damasco, que eram locais de confronto, houve uma tentativa de
reconciliação que, de momento, está se sustentando. Eu acho que uma
parte do povo sírio está entendendo que os problemas não se resolvem com
conflitos. Esta foi uma das coisas que eu achei mais importantes. Eu vi
pela primeira vez o sorriso dos nossos trabalhadores sírios me falando
da beleza dessa experiência, de poder finalmente trabalhar e ajudar as
pessoas sem o perigo de não voltar mais para casa. Com certeza, o que
está acontecendo, e do que não se fala, são esses sinais que deveriam
alentar uma comunidade inteira a se reunir em torno de um país que ela
ama, porque a tradição social e cultural da Síria tem que ser protegida
para o mundo inteiro.
(08 de Maio de 2014) © Innovative Media Inc.
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