A presença dos cardeais brasileiros no Pontifício Colégio Pio Brasileiro em Roma
Roma,
A Igreja Católica vive um momento simbólico. A renúncia do
Papa e a realização do Conclave, diante de desafios surpreendentes,
sinalizam que não estamos em ritmo comum, ordinário. Penso que só
daremos conta de interpretar satisfatoriamente este momento histórico
com o passar dos anos, assim como acontece com os acontecimentos
importantes da história.
Morar em Roma, mais especificamente no Pontifício Colégio Pio
Brasileiro, constitui uma graça especial. Além de ser ambiente para
padres estudantes de pós-graduação em várias dimensões das ciências
humanas e religiosas, por aqui passam muitos bispos e lideranças da
Igreja. Nesses dias de preparação ao Conclave três dos cardeais
eleitores do Brasil estão hospedados connosco. É interessante conviver
com eles, observá-los, escutá-los. Tomamos refeições juntos e rezamos
juntos. Numa noite dessas, eles se reuniram connosco, não para violarem o
estado de silêncio a que estão submetidos, mas para dialogarmos de
maneira fraterna. Naturalmente não expuseram conteúdos dos debates das
Congregações gerais. Apresentaram-nos a repercussão dos acontecimentos
eclesiais no Brasil e suas experiências no serviço prestado à Igreja.
Pudemos também apresentar nossos questionamentos em busca de
esclarecimentos. Assim, estamos tendo a oportunidade de sentir mais de
perto a atmosfera dos preparativos para a escolha do novo Papa.
Sinalização sintomática é a presença de expressivo número de
profissionais da imprensa mundial cadastrada para cobrir esses eventos.
Há alguns dias falava-se em mais de cinco mil. Certamente esse número
vem crescendo. O mundo inteiro está voltado para o Vaticano. Suspeito
que nunca uma porta foi fechada diante de tantas câmaras como o foi no
crepúsculo do dia 28 de Fevereiro, em Castel Gandolfo. Não menor será o
número de câmaras apontadas para a chaminé instalada nos telhados da
Capela Sistina, na expectativa de capturar os primeiros sinais da fumaça
branca que comunicará ao mundo a eleição do novo Papa. Dali essas
câmaras terão seus focos dirigidos para a Loggia di San Pietro, o balcão da Basílica de São Pedro, no qual surgirá a figura do Pontífice eleito, ao anúncio do “Habemus papam”.
Pois bem, essa expressiva presença da mídia sinaliza que a Igreja não
está convalescendo, muito menos morta, como profetas do mau agouro
insistem em anunciar. A Igreja está viva! Portadora da mensagem
evangélica, ela tem uma palavra importante para dirigir ao mundo. E este
diálogo, assumido pelo Concílio Vaticano II, é imprescindível e
inadiável. Este é o “diálogo da salvação”, como acentuava o papa Paulo
VI, em favor do ser humano, travado com as várias denominações cristãs,
com as diversas religiões e com os não-crentes; com o mundo das
ciências, das filosofias e das variadas culturas; com a sociedade, a
política e a economia. Todos esperam, ansiosos, não só a palavra de vida
e de esperança, mas a capacidade acolhedora do saber escutar e de ser
acolhido pela Mãe Igreja, que é, “como que sacramento universal de
salvação” (LG 1).
Aqui na Europa atravessamos longo e rigoroso inverno. Eis que agora
se despontam os primeiros sinais da primavera. Na aurora, os pássaros
cantam alegremente saudando o tempo novo que se irrompe. As plantas
começam a revestir-se com sua roupagem de festa e alegria, cobrindo, com
folhas e flores, o despojamento da nudez invernal... Gradativamente, as
temperaturas vão aumentando, tornando os dias menos frios e mais
calorosos. Acolhemos estes sinais de esperança da mãe natureza para
anunciar ao mundo que esta é nossa esperança para os tempos novos da
Igreja. É a vida nova da Páscoa que já se desponta no horizonte próximo
para delinear, no rosto do ser humano, o fascínio e a alegria de quem
acolheu a salvação daquele que é o Encarnado-crucificado-ressuscitado,
na acção do Espírito Santo que sopra onde quer.
*Padre Geraldo Maia, sacerdote da Arquidiocese de Uberaba,é doutorando em teologia.
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