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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A fonte dos nossos relacionamentos


Palavra e Pão 80                                          XXX Domingo do Tempo Comum

1 – Dois homens subiram ao Templo para orar. Assim começa a parábola que o Senhor nos conta no Evangelho do próximo domingo a nós, que, nesse momento, também estaremos na igreja para fazermos, precisamente, a nossa oração.

O que é, para nós, a oração? É uma perda de tempo, uma obrigação, uma necessidade? Será uma busca de vida interior, um mergulho nas profundezas da alma, um exercício espiritual para tentarmos equilibrar a vida materialista que este mundo de hoje nos força a viver? Para nós é claro, ou deve ser, que fazer oração é, antes de mais, dar espaço a Deus em nossas vidas, é irmos á presença do Senhor para O louvarmos e agradecermos os seus dons, para O escutarmos e Lhe respondermos, para nos expormos á luz da Sua santidade, a qual, denunciando os nossos pecados nos humilha, mas também, simultaneamente, nos exalta, porque nos chama a ser santos como Ele é santo.

Para respondermos a esta pergunta acerca da oração, temos de nos defrontar primeiro com outras que lhe estão ligadas: quem é Deus para mim? Como é que eu me vejo a mim mesmo? Como é que eu imagino o Deus a quem rezo? Como me relaciono com Ele? Vejo n’Ele um espelho, ou uma luz? É um Deus ideal, feito à minha imagem, criado por mim, ou é o Deus meu Criador, Criador e Senhor de tudo o que existe, Aquele de Quem eu, Sua imagem e semelhança, recebo a Vida, Aquele que sempre me surpreende?

Muitas das pessoas que hoje O desprezam como inutilidade infantil, no fundo sempre O imaginaram como criação e fruto das ignorâncias e incapacidades do homem atormentado pelos seus pecados e insuficiências, como o ideal supremo das qualidades humanas, como Aquele que sabe tudo e tudo pode, como Aquele que é o que cada um de nós gostaria de ser e não consegue: bondade e beleza infinitas, verdade e unidade que tudo abrangem. Desprezam-n’O, tão só, porque O reduziram a um ídolo que lhes foi útil na sua menoridade, mas que agora, na idade adulta, já não lhes diz nada.

2 - Bondade e beleza, verdade e unidade… mas Deus não é tudo isso? Estas palavras com as quais nos referimos a Deus, queridos irmãos, são analogias, apontam para o mistério de Deus mas são incapazes de O definir porque Ele é Transcendente. A Deus ninguém O viu nem pode ver neste mundo. Mas para que não ficássemos prisioneiros das nossas imaginações e fantasias, Deus enviou ao mundo o Seu Filho para nos mostrar concretamente na Sua vida, o que Deus é, e para nos dar o Seu Espírito que nos ajuda a reconhecer e a acolher o amor misericordioso que o Pai nos tem.

Continuando o Evangelho da missa do próximo domingo, Jesus identifica esses dois homens que entram no Templo para orar: um é fariseu e o outro, publicano. Ser fariseu era, no conceito do povo, ser alguém perfeito no cumprimento da lei, era ser justo e santo. Pelo contrário, os publicanos eram pecadores públicos, eram o extrato mais baixo, o pior que se poderia encontrar, naquele tempo, no povo de Israel. Jesus compara as orações dos dois, e o resultado já o sabeis: surpreendentemente, o publicano volta justificado para sua casa, e o fariseu, não. Porquê?

Porque a oração do fariseu era mentirosa? Não. Ele não mentiu a Deus. Tudo aquilo que mencionou na sua oração, ele o realizou. Mas fê-lo para se exaltar a si mesmo, para dar glória a si mesmo e, por isso, comparou-se com os outros homens, julgando-se melhor do que eles e condenando-os. A oração do publicano, pecador humilhado e iluminado pela santidade de Deus, atravessa as nuvens e não descansa enquanto não chega ao seu destino, no dizer do livro de Ben-Sirá, na leitura escutada no início da liturgia da palavra deste domingo (Eclo 35,21). A raiz dos nossos relacionamentos é a oração, é a nossa relação com o Senhor.

3 – Quantas vezes, queridos irmãos, a nossa oração de católicos praticantes reproduz a oração do fariseu! Quantas vezes nos consideramos melhores que os que nos ofenderam e os julgamos e condenamos injusta e apressadamente! Quantas vezes escondemos a floresta dos nossos pecados atrás de um pequenino arbusto de alguma boa obra que tenhamos realizado e nos apresentamos assim na oração, pretendendo, no fundo, enganar o Senhor, como se a porta que nos dá acesso ao mistério de Deus fosse o cumprimento da lei e não a humildade e a verdade. Deus é humilde, e a humildade, ou seja, a verdade e a bondade são a fonte de todos os nossos relacionamentos de cristãos para com Deus, para com os outros, e para com a natureza!

Finalmente, ouçamos na segunda leitura o testemunho de um ex-fariseu, Paulo de Tarso que, noutro texto, considera como lixo a sua anterior justiça, perante a maravilha que é, para ele, o conhecimento de Jesus Cristo: O Senhor esteve a meu lado e deu-me força… O Senhor me livrará de todo o mal e me dará a salvação no seu reino celeste (2 Tm 4, 16-18). O Senhor, não eu, que por mim próprio sou o maior pecador do mundo, salvo pelo Senhor Jesus Cristo. Glória a Ele, não a mim, pelos séculos dos séculos. Amen.

+ J. Marcos



quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Preces a Pedir o Dom da Chuva



A persistência de um ano anormalmente seco está a originar graves prejuízos para a agricultura e produção energética, o que se reflectirá negativamente na vida de todos nós.

A tradição bíblica diz-nos que a chuva é dom do Senhor.

Exorto, por isso, os fiéis em geral, a que peçam a Deus o dom da chuva, em atitude de fé, penitência e solidariedade fraterna. Proponho a oração composta por São Paulo VI, em 4 de julho de 1976, quando o continente europeu suportou um período de seca prolongada.

Também os párocos e reitores de igrejas deverão promover preces com o mesmo fim, da maneira que entenderem pas­toralmente mais adequada às comunidades que lhes estão confiadas.
       
        Beja, 8 de outubro de 2019

+ José João dos Santos Marcos, bispo de Beja


ORAÇÃO PARA PEDIR A CHUVA

Deus, nosso Pai, Senhor do Céu e da terra
Tu és para nós existência, energia e vida

Criaste o homem à Tua imagem
a fim de que com o seu trabalho ele faça frutificar
­as riquezas da terra
colaborando assim na Tua criação.

Temos consciência da nossa miséria e fraqueza:
nada podemos fazer sem Ti.
Tu, Pai bondoso, que sobre todos fazes brilhar o sol
e fazes cair a chuva,
tem compaixão de todos os que sofrem duramente
pela seca que nos ameaça nestes dias.

Escuta com bondade as orações que Te são dirigidas
com confiança pela Tua Igreja,
como satisfizeste súplicas do profeta Elias
que intercedia em favor do Teu povo.

Faz cair do céu sobre a terra árida
a chuva desejada
a fim de que renasçam os frutos
e sejam salvos homens e animais.
Que A chuva seja para nós o sinal
da Tua graça e da Tua bênção:
assim, reconfortados pela Tua misericórdia,
dar-te-emos graças por todos os dons da terra e do céu,
com os quais o Teu Espírito satisfaz a nossa sede.
Por Jesus Cristo, Teu Filho,
que nos revelou o Teu amor,
fonte de água viva, que brota para a vida eterna.
Amen.

São Paulo VI

(Angelus de 04/07/l976, in: L´Osservatore Romano, 11/07/1976)




sábado, 21 de setembro de 2019

Beja: D. João Marcos quer «religiosidade cristã» na diocese e «formação sólida» para agentes pastorais e clero

Nos 250 anos da restauração da diocese, programa pastoral incide na prática cristã da liturgia
Apresentação Plano Pastoral da Diocese de Beja; Agência Ecclesia/HM
Beja, 21 set 2019 (Ecclesia) – D. João Marcos quer que os diocesanos de Beja possam caminhar de uma “religiosidade natural” para uma prática cristã, com a exigência de uma formação sólida extensível ao clero diocesano “bem-intencionado, mas mal preparado”.
“Este é um ano de festa para toda a diocese, os 250 anos de restauração e queremos que a eucaristia seja o momento em que a Igreja aparece como Igreja celebrante”, explicou hoje o bispo de Beja à Agência ECCLESIA, durante a apresentação do programa para o ano pastoral 2019/2020, com o lema ‘Somos Igreja Celebrante’.
O responsável deu conta da ligação entre os objetivos do ano passado, onde procuraram em “reuniões arciprestais aprofundar a iniciação cristã”, apostando agora na eucaristia.
D. João Marcos lamenta que, “apesar de toda a boa vontade”, “alguns padres diocesanos não tenham sido formados solidamente sobre a eucaristia, sobre o celebrar”.
“Temos de trabalhar. É necessário que a eucaristia seja celebrada como ela é e não como pensamos que deve ser”, afirma.
Outra prioridade apresentada no programa pastoral incide no catecumenado, naquilo que o responsável entende como o “mergulhar progressivo na Igreja e na realidade”.
“O catecumenado não é uma preparação para o batismo, mas é o batismo. Não há outra porta para a vida cristã. Podemos faze-lo melhor ou pior, mas isto é claro”, indica.
A falta de preparação leva “muitos padres a batizar adultos como se fossem crianças”, realidade que é necessário mudar junto de diáconos e sacerdotes.
“Uma pessoa que não é bem preparada, que não é mergulhada existencialmente em Cristo, é batizada mas sem condições para crescer, desenvolver e dar frutos”, ressalva.
O bispo diocesano quer ainda ajudar as pessoas a fazer o caminho entre a “religiosidade natural” para uma prática cristã, “própria dos cristãos, que têm uma maneira de celebrar diferente”.
“O que tem acontecido nesta, e noutras dioceses, é que tudo o que é festas populares tem sido delegado pelos pastores como religiosidade natural. Vamos procurar implementar um religiosidade cristã”, sublinhou.
D. João Marcos fala de um programa “exigente” mas, acredita, poderá ser benéfico para a diocese de Beja.
“Tenho consciência da exigência, também pela minha prática pastoral enquanto pároco. Dei bastante importância à iniciação cristã, e isso, a meu ver, preparou-me para este trabalho na diocese de Beja”, resume.
A apresentação do programa pastoral foi feita aos responsáveis dos serviços diocesanos e a tantos leigos que neste dia se reuniram no centro pastoral do seminário.
“Um rosto da diocese está aqui: no seu melhor está aqui, mas estes estão em função dos que aqui não estão e também são diocese”, adverte o bispo de Beja.
O padre Manuel Pato, pároco de Odemira, dá conta da importância das pequenas comunidades “onde se partilha a vida e a fé”.
“Temos uma diocese vasta territorialmente e pouco relacional. O clero chegar a todo o lado é difícil. É nas reuniões informais que homens e mulheres partilham a experiência de fé e de vida”, enaltece o sacerdote.
Da sua experiência sacerdotal e de coordenação e animação pastoral, o padre Manuel Pato dá conta da necessidade de uma “reevangelização séria” e de um sentido de “intimidade com Jesus”.
“Reza-se pouco e só há vida cristã com intimidade com Jesus”, sublinha.
O jovem acólico e membro do movimento Convívios Fraternos, João Lima afirma a importância de participar nas “inúmeras atividades que felizmente são propostas”.
“Gostamos de intervir nos dias diocesanos, participar no Fátima Jovem, nas inúmeras atividades que felizmente são propostas, para nos podermos formar e passar a fé aos outros para fazer a diferença”, explica o jovem de 17 anos, acólito na cidade e participante assíduo em campos de férias.
João Lima dá conta que em ambiente escolar inscreveu-se em Educação Moral e Religiosa Católica até ao 9º ano mas, posteriormente deixou de ter essa oferta educativa.
“É normal haver piadas sobre a religião. O que tentamos fazer é, aos poucos, viver Jesus Cristo de uma forma que nos perguntem por isso. Não andar sempre a falar mas sermos questionados pela nossa escolha e vida”, explica.
HM/LS


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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Beja: «Somos Igreja Celebrante» é o lema que mobiliza diocese nos 250 anos da sua restauração

D. João Marcos deseja vivência cristã «centrada no Mistério Pascal», com «purificação das festas religiosas»

Beja, 19 set 2019 (Ecclesia) – A Diocese de Beja vai assinalar no ano pastoral 2019/2020 o 250.º aniversário da sua restauração, com o lema ‘Somos Igreja Celebrante’, num programa que vai ser apresentado este sábado.

“É preciso ajudar as pessoas a passarem de uma vivência meramente religiosa para uma vivência centrada no Mistério Pascal do Senhor e na Liturgia da Igreja”, escreve D. João Marcos, no programa pastoral enviado hoje à Agência ECCLESIA.

No documento, o bispo de Beja afirma que a “recuperação do Domingo como dia do Senhor” e a “purificação das festas religiosas”, a “implementação progressiva” da Liturgia das Horas, e a “cuidada celebração” da Eucaristia e dos outros Sacramentos vão ajudar a comunidade cristã “a viver consciente da sua identidade e da sua missão no meio do mundo”.

No novo programa pastoral, D. João Marcos explica que quer ajudar os cristãos “a viver intensamente o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, ponto de chegada da Iniciação Cristã”.

A Diocese de Beja vai reunir os “cristãos católicos das diversas paróquias, serviços e movimentos” num encontro de início do ano 2019/2020, este sábado, a partir das 09h15, no centro pastoral do seminário.

Do programa destaca-se a apresentação do programa pastoral, às 11h15, workshops sobre “oração e vida cristã”, “250 anos da restauração da Diocese” e “Iniciação Cristã: um projeto de evangelização, a partir das 14h15; a Eucaristia começa com uma procissão do seminário para a catedral, às 16h00.

D. João Marcos informa que há nove objetivos gerais para o próximo ano pastoral, como promover a dimensão orante da vida cristã, “individualmente e nas famílias”, preparar e celebrar os Sacramentos, “sobretudo a Eucaristia, como assembleias celebrantes”, “implementar o Catecumenado Batismal” em todo o território.

Segundo o bispo diocesano “há muitos cristãos” que “rezam pouco ou nada”, porque “nunca foram iniciados na oração cristã”, por isso, as catequeses para adultos vão ser sobre a temática da Oração.

Dos objetivos destaca-se também que quer “renovar” a pastoral juvenil e universitária, tendo no horizonte a próxima edição internacional da Jornada Mundial da Juventude, que se vai realizar em Lisboa, em 2022.

Na nota de imprensa, a Diocese de Beja destaca que este sábado os jovens vão ter um “espaço especial e próprio”, com atividades específicas, com “especial atenção” ao tema, “os jovens e a sociedade, e os efeitos do testemunho crente na transformação da sociedade envolvente e do mundo”.

CB/OC


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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Praticar a hospitalidade


Palavra e Pão 77                                                                                             XVI Domingo do Tempo Comum

1 - Entre, quem é?
Lembro-me de que assim dizia a minha mãe, a quem batia à nossa porta. De facto, para nós cristãos, acolher quem se aproxima é quase o mesmo que receber Cristo, é quase a mesma coisa que receber Deus. Esta mesma atitude podemos vê-la, na primeira leitura da missa do próximo domingo, em Abraão, sentado diante da sua tenda, à sombra do carvalho de Mambré. Ele vê aqueles três homens desconhecidos, caminhando no meio do calor do dia, e pede-lhes que parem um pouco e que descansem, pois não é por acaso que estão passando hoje diante dele. Abraão viu três, mas apenas falou com um, e os padres da Igreja veem, neste pormenor da narrativa, a revelação do mistério de Deus, Uno e Trino que vem anunciar a Abraão o nascimento de seu filho Isaac.

Um filho, nesta altura em que nem ele nem Sara sua mulher estão em idade de procriar? Abraão, diz S. Paulo na carta aos Romanos, esperando contra toda a esperança, acreditou e tornou-se pai de muitos povos (…). E foi sem vacilar na fé que considerou o seu corpo já morto- ele tinha perto de cem anos- e o seio de Sara também já amortecido. Perante a promessa de Deus fortaleceu-se na fé, dando glória a Deus, e, de facto, Sara concebeu e deu à luz Isaac, o filho da promessa ( Cf. Rm 4, 18-20 ).

Quantas vezes se continua a repetir, na história da humanidade, este mesmo gesto de hospitalidade em pessoas até ali fechadas em si mesmas e estéreis que se abrem á fé e se tornam extraordinariamente fecundas por terem acolhido Deus em suas vidas! Pelo contrário, vemos também que o fechamento de tantos países aos refugiados e o atual inverno demográfico da nossa sociedade portuguesa são consequência da ausência de Deus e deste viver egoísta, sem abertura à vida, praticado por tanta gente que deixou de confiar em Deus para confiar apenas nas suas contas e programas.

2 – Na leitura do Evangelho vemos a hospitalidade de Marta que recebe em sua casa o Senhor Jesus. Atarefada com muito trabalho e vendo a sua irmã Maria sentada aos pés de Cristo, escutando-O atentamente, Marta pede ao Senhor que mande Maria levantar-se para a vir ajudar. Esta lógica de Marta foi contrariada e reorientada pela resposta que Jesus lhe deu: andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não  lhe será tirada (Lc 10, 41-42).

Como é normal, caros irmãos e irmãs, são várias as interpretações desta palavra do Senhor. Penso que, para nós hoje, será bastante compreender que a hospitalidade física de Marta é boa, mas deve levar-nos à hospitalidade espiritual de Maria que escuta o Senhor e guarda a sua palavra. A hospitalidade de Marta dá muito trabalho, a de Maria enche de paz. A de Marta, que recebeu Jesus em sua casa, é necessária, mas incompleta, porque, tomada pelo muito serviço, fica impedida de acolher o Senhor, escutando e guardando em seu coração a sua Palavra. Na hospitalidade de Marta a presença do Senhor é passageira, mas na de Maria, o Senhor permanece. Na hospitalidade de Marta tudo gira em torno dela, mas na de Maria é o Senhor que está e permanece no centro. Por isso, porque nos descentra de nós mesmos e nos ajuda a viver do Pai e para o Pai, Cristo é, para nós, a melhor parte. Porque Ele nos leva ao centro da nossa existência, à única coisa necessária que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, é bom que Ele sempre permaneça em nós, é bom que não nos seja tirado ( Lc 10,42)!

3 – No meio de vós, Cristo, esperança da glória! E nós O anunciamos, advertindo todos os homens e instruindo-os com toda a sabedoria, a fim de os apresentarmos todos perfeitos em Cristo ( Cl 1,27-28 ). No meio de vós, Cristo. Entronizado no meio de vós, em vossos corações, não em outro lugar qualquer, afirma S. Paulo na segunda leitura, da Carta aos Colossenses. O centro da nossa vida é Cristo crucificado, morto e ressuscitado por nós, em nosso favor, no seu Mistério Pascal. Acolher Jesus leva-nos a viver crucificados com Ele, com Ele mortos e ressuscitados, e com Ele já glorificados.

A vida cristã, caros irmãos e irmãs, leva-nos à união com o Senhor Jesus, centro da nossa existência, leva-nos a viver d’Ele e para Ele, tal como S. Paulo se expressa, falando da sua própria experiência: agora alegro-me com os sofrimentos que suporto por vós, e completo na minha carne, o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu Corpo que é a Igreja.

Temos um longo caminho a percorrer. Mas, imitando Abraão, Maria e Paulo, pratiquemos desde já uma verdadeira hospitalidade para com o Senhor escutando como dirigida a nós a sua palavra proclamada nas celebrações e guardando-a no nosso coração. E recebamo-l’O conscientemente quando comungamos o seu Corpo na Santa Eucaristia.


+ J. Marcos, bispo de Beja



Homilia



na celebração dos 249 anos da restauração da diocese
Sé de Beja
-10 de julho de 2019-

1 -  Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis,
e dai graças ao Seu Nome Santo!
A sua ira dura apenas um momento,
e a sua benevolência a Vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas,
mas ao amanhecer volta a alegria!

Sr. Vigário Geral, Excelentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cónegos, Reverendos Padres e Diáconos, Religiosos e Religiosas, Seminaristas, todos vós, fiéis leigos desta diocese de Beja, aqui presentes.

Cantemos ao Senhor e demos-Lhe graças! Para isso nos reunimos frequentemente, para isso estamos hoje aqui, marcando, deste modo, o início das comemorações deste ano de festa em toda a diocese. Cantemos ao Senhor pela sua grande misericórdia para connosco, manifestada nestes 250 anos ao longo dos quais tantas vezes as lágrimas nos visitaram, mas em que também as consolações e as alegrias do Senhor chegaram até nós.

Ouvimos há momentos, na belíssima leitura do profeta Isaías, o Senhor  manifestando o seu amor de Esposo a Jerusalém, sua Esposa da juventude, que por causa dos seus comportamentos pecaminosos tinha sido levada para o cativeiro de Babilónia. Cheio de amor,  o Senhor voltou a chamá-la e a edificá-la como sua Esposa querida. São três os momentos desta história: o tempo do primeiro amor, o tempo do cativeiro, e, por fim, o tempo do reencontro e do amor fiel.

 Não vedes, caros irmãos e irmãs, na história do povo de Israel, o desenho da história da nossa diocese? Nascida no longínquo século V, conhecemos os nomes de alguns dos seus bispos que participaram em concílios e assinaram as suas atas. De Apríngio de Beja, homem notável, elogiado por Santo Isidoro de Sevilha pela sua erudição e sabedoria, chegou-nos o seu famoso comentário ao livro do Apocalipse. Foram esses os tempos do primeiro amor.

Com a conquista muçulmana, no século VIII, pouco a pouco, a diocese pacense, tão ilustre na Lusitânia romana e nos tempos visigóticos, deixou de aparecer. No ano de 851, foi martirizado em Córdoba, pelos muçulmanos, o seu filho Sisenando, diácono e estudante de teologia. No século X, a recém-criada diocese de Badajoz considerou-se herdeira da diocese de Beja e assumiu para os seus bispos o título «pacense», até então atributo dos bispos de Beja. Com a reconquista, a cidade de Évora ganhou proeminência em relação a Beja e praticamente todo o Alentejo ficou integrado na sua enormíssima diocese. No século XVI, o Cardeal D. Henrique tentou em vão restaurar esta diocese, mas tal apenas foi possível em 1770,  no reinado de D. José.

A alegria própria deste regresso do cativeiro tornou-se visível no primeiro bispo da diocese restaurada, D. Frei Manuel do Cenáculo. Mas ainda seria necessário atravessar praticamente todo o difícil século XIX para que os bispos de Beja pudessem, de facto, trabalhá-la pastoralmente.

Celebrar os 250 anos da restauração desta diocese não é possível sem referirmos os Senhores D. António Xavier de Sousa Monteiro e D. Sebastião Leite de Vasconcelos, e obviamente, o grande bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias, e os seus sucessores (D. Manuel dos Santos Rocha, D. Manuel Falcão e D. António Vitalino) e tantos padres, religiosos, religiosas e leigos que deram a sua vida pelo Evangelho no Baixo Alentejo! . Quantas vicissitudes sofridas, quantos projetos e trabalhos empreendidos, quantas perseguições e difamações suportadas, quantos combates travados dentro e fora da diocese, a todos os níveis, para lhe criar condições de sobrevivência, para nela fazer crescer e frutificar a vida cristã!

Como se ajustam à realidade histórica desta Diocese estas palavras da 1ª leitura, proclamadas há momentos: Como à mulher abandonada e de alma aflita, o Senhor volta a chamar-te. Num acesso de ira, escondi de ti a minha face, mas na minha misericórdia eterna, tive compaixão de ti, diz o Senhor, teu Redentor. (…) Ainda que sejam abaladas as montanhas e vacilem as colinas, a minha misericórdia não te abandonará, a minha aliança de paz não vacilará, diz o Senhor, compadecido de ti.

2 – Ao iniciarmos hoje a celebração dos 250 anos da restauração da nossa diocese, talvez não seja descabido perguntarmo-nos: o que é uma diocese?

Podemos ler, no cânone 369 do Código de Direito Canónico:

Uma diocese é a porção do povo de Deus que é confiada ao bispo para ser apascentada com a cooperação do presbitério, de tal modo que, aderindo ao seu pastor e por este congregada no Espírito Santo, mediante o Evangelho e a Eucaristia, constitua a Igreja particular, onde verdadeiramente se encontra e atua a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica (can. 369).

Estas palavras, apresentam a diocese, antes de mais, como uma porção do povo de Deus confiada a um pastor, o bispo diocesano, que a apascenta com a cooperação do presbitério. Esta porção do povo santo de Deus constitui-se como Igreja particular onde se encontra e atua verdadeiramente a Igreja de Cristo.

Como facilmente podemos ver, a diocese é uma realidade que supõe o bom relacionamento entre o bispo e os fiéis que ele apascenta, e também entre os presbíteros e o bispo de quem são extensão, e, ainda, entre os presbíteros e os fiéis que eles pastoreiam, unidos ao bispo. Estes bons relacionamentos que têm a sua origem no Espírito Santo que nos congrega e é oferecido pela pregação do Evangelho e pela celebração da Eucaristia, são manifestação da comunhão fraterna dos filhos adotivos de Deus Pai. Assim, a tarefa primordial do bispo da Diocese tem de ser, necessariamente, o cultivar desta comunhão de todos, no Senhor, de modo a podermos anunciar as maravilhas que ele realizou em nosso favor, e de que somos testemunhas. Esta comunhão é fruto da vida cristã, fruto daquela fé que nos justifica, daquela esperança sobrenatural que não engana, e do amor que Deus derramou em nossos corações, pelo Espírito Santo (Cf. Rm 5, 1-4). É uma realidade sobrenatural, teologal, não atingível pelas forças humanas, mas indispensável à vida do homem sobre a terra, e que, por isso mesmo, devemos pedir e suplicar insistentemente ao Espírito Santo. Mais do que fruto do nosso trabalho, é obra do Espírito Santo em nós, para o mundo. E, no entanto, o Espírito não tem braços nem pernas, além dos nossos, para realizar as suas obras.

3 - O Evangelho que escutámos, a parábola do Semeador, mostra-nos Jesus Cristo, Ele mesmo Palavra eterna do Pai, que por amor de nós homens, e para nossa salvação desceu dos Céus e se fez homem para semear a Palavra do Reino dos Céus nos mais diversos terrenos do mundo, que somos nós.

Aquela terra boa que o Senhor compara a um coração nobre e generoso onde é possível recolhermos cem por um, é vista na Igreja Católica como sendo imagem do Coração Imaculado da Virgem Santa Maria que escutou a Palavra do Anjo Gabriel e deu ao mundo Cristo Jesus, nosso Senhor.

 Que terreno és tu, querido irmão, querida irmã? Não sejamos o caminho calcado pelos homens e incapaz de acolher a semente do Evangelho, embora nesta diocese não faltem, infelizmente, muitos exemplos desse terreno. Penso efetivamente, caros fiéis aqui reunidos, que a maior parte de nós nos encontramos representados no segundo e no terceiro terrenos desta parábola.

Os do segundo terreno são os superficiais, são aqueles que escutam com alegria, mas em quem a palavra não pode aprofundar, porque há rochas escondidas que a impedem. Essas rochas, só o Senhor pode quebrá-las. E os do terceiro terreno, como o próprio Senhor explicou no Evangelho, são terra boa onde crescem, juntamente com a palavra escutada, silvas e cardos que a abafam e impedem de dar o fruto esperado. Como ensina o Evangelho, todos serão ensinados por Deus, mas uma vida cristã de prática habitual pode ir mondando essas ervas daninhas que impedem a boa semente de frutificar.

4 – Se, por sermos cristãos, podemos e devemos ver-nos representados nos terrenos sobre os quais a semente é lançada e vai crescendo, nós os pastores e todos vós que tendes a missão de anunciar o Evangelho, escutemos também aquilo que Jesus diz acerca do Semeador. Diz que ele saiu a semear a sua semente. Sublinho, caros irmãos, o sair para semear, e também que semeia a sua semente com muita generosidade, também em terras humanamente pouco ou nada preparadas para produzirem bom fruto.

Como afirma sabiamente o Padre António Vieira, um é o que tem o nome de lavrador e outro o que lavra; um é o que tem o nome de semeador e outro o que semeia. O que lavra não fica em casa, sai. E semeia, não a semente dos outros, mas a sua própria semente, os frutos que a Palavra de Deus produziu na sua vida. Ele é testemunha de que aquela semente que lança à terra, a palavra que proclama, é a Verdade. Diz e faz aquilo que anuncia!

Ao longo destes duzentos e cinquenta anos, a Palavra de Deus foi anunciada com amor nestes concelhos do distrito de Beja e do distrito de Setúbal que formam a nossa diocese, nem sempre com o sucesso que humanamente seria de esperar, mas sempre como fonte e alimento da fé em que todos nós fomos batizados e vivemos. Tomemos, irmãos, como programa pastoral permanente para a nossa diocese de Beja este evangelho do Semeador que semeia a boa semente da Palavra de Deus, e ponhamo-lo em prática. Segundo a promessa do Senhor que escutámos na profecia de Isaías: Ainda que sejam abaladas as montanhas e vacilem as colinas, a minha misericórdia não te abandonará, a minha aliança de paz não vacilará, diz o Senhor, confiemos que, pela intercessão da Virgem Santa Maria e de S. José nosso padroeiro, e também pela de S. Sisenando, padroeiro da cidade de Beja, não faltarão, no futuro desta diocese, os frutos de uma seara abundante.

+ J. Marcos, bispo de Beja




Há vida, há festa!

Carta aos Diocesanos de Beja
por ocasião das celebrações dos 250 anos da
restauração da Diocese


Amados irmãos e irmãs:

Louvai o Senhor porque é bom cantar, é agradável e justo celebrar o seu louvor (Sl 147A, 1).

Festejar os 250 anos da diocese
1. Venho convocar-vos para a celebração dos 250 anos da restauração da nossa diocese de Beja. São antiquíssimas as suas raízes e há testemunhos de que, mesmo no tempo de domínio muçulmano, a fé cristã, embora muito condicionada, permaneceu nestas paragens. A restauração da diocese de Beja em finais do século XVIII, pouco antes da Revolução Francesa e num momento de difícil relacionamento entre o poder civil e a Igreja, separando-a da arquidiocese de Évora, não foi um processo fácil. Eram os tempos da perseguição dos jesuítas e da supressão da Companhia de Jesus (1773). Em D. Frei Manuel do Cenáculo, homem culto, teve a renovada diocese o seu primeiro bispo, cheio de zelo pelo bem das suas ovelhas. O século XIX, que viu o triunfo dos liberais e a extinção das Ordens Religiosas, foi um tempo em que esta diocese, tantas vezes mal pastoreada, esteve a ponto de ser suprimida de novo. Graças a Deus e à ação decidida de muitos homens, entre os quais avulta o Cónego Boavida, tal não aconteceu. Com o Sr. D. José do Patrocínio Dias, e com os bispos que lhe sucederam (D. Manuel dos Santos Rocha, D. Manuel Franco Falcão e D. António Vitalino Dantas, atualmente bispo emérito), a diocese de Beja foi consolidada. Chegamos assim aos 250 anos da sua restauração. É a vida de um quarto de milénio que, com muita alegria, vos convido a festejar.

Podemos dizer, com toda a verdade, que esta igreja diocesana foi moldada pela pregação e pela ação, pelo suor e pelas lágrimas, não só dos seus bispos mas também dos padres, dos religiosos e religiosas e leigos que, em cada tempo, os acompanharam. Somos herdeiros, queridos irmãos e irmãs, de uma história difícil, por vezes dramática. Convido-vos assim a glorificar a bondade e a misericórdia de Jesus Cristo Nosso Senhor, continuamente manifestadas e oferecidas aos fiéis nas comunidades celebrantes desta diocese. Foi nessa perspetiva que preparámos as celebrações do próximo ano de 2019-2020. Louvemos a fidelidade do Senhor para com esta Igreja diocesana e peçamos-Lhe também perdão pelos nossos pecados e pelos pecados daqueles que nos precederam.

Conhecer a sua história
2. Festejar a existência da nossa diocese é celebrar a sua vida como Igreja de Cristo. De facto, é só a Ele, Ressuscitado e fonte de Vida, que sempre celebramos. Convido-vos a conhecê-l’O melhor nas suas obras de amor para connosco, a mastigar a sua mensagem e a esperar o cumprimento das suas promessas, e a amá-l’O com aquele amor primeiro que todos devemos dar só a Deus. Conhecer o Senhor Jesus pelos testemunhos que d’Ele nos chegaram dos primeiros cristãos e que foram reunidos nos quatro Evangelhos e nos outros escritos do Novo Testamento leva-nos a compreender que Moisés e os Profetas e toda a Escritura, é d’Ele que falam. E esse conhecimento que d’Ele nos dão as Escrituras é precioso para nós, porque nos ajuda a ler e a compreender a linguagem das suas obras, transformando assim as histórias das nossas vidas em história de salvação.

Para que a história da nossa diocese seja assim interpretada, vivida e celebrada, precisamos de a conhecer. A propósito, quero anunciar-vos, caros irmãos e filhos, que em breve tereis nas mãos um resumo da História da nossa diocese feito pelo Padre Luís Miguel Taborda Fernandes e pelo Cónego António Mendes Aparício, aos quais agradeço o esforço feito para tornar possível este desejo meu e de muitos de vós. Será, para muitos, uma surpresa grande conhecer algo acerca de Apríngio de Beja, bispo notável do tempo dos visigodos, cuja ciência e erudição foram elogiadas pelo seu contemporâneo Santo Isidoro de Sevilha, de D. Frei Manuel do Cenáculo e de D. António Xavier de Sousa Monteiro, para não falarmos dos grandes bispos do século XX, mais conhecidos de todos. Quantas vicissitudes, projetos e trabalhos empreendidos, quantas perseguições e difamações suportadas, quantos combates travados dentro e fora da diocese, a todos os níveis, para lhe criar condições de sobrevivência e para nela fazer crescer a vida cristã!
Sim, nós reconhecemos que a existência da diocese de Beja, das nossas comunidades paroquiais e de cada um de nós, é querida pelo Senhor, que muito nos ama. Por isso, basta-nos o facto de estarmos vivos para nos levar a festejar, agradecidos, esta data.

Celebrar a Eucaristia
3. Festejar a Cristo Nosso Salvador é, antes de mais, celebrarmos, na Eucaristia, a sua passagem da morte para a Vida, é cantarmos a sua vitória sobre a nossa morte. Celebrando a Eucaristia, memorial da Páscoa, recebemos o seu Espírito Santo «que dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus» (Rm 8, 16s), e que vem unir-se ao nosso espírito para nos ensinar a orar. A Eucaristia foi prefigurada naquela festa celebrada no deserto pelo povo de Israel, saído do Egito (cf. Ex 5, 1-3). É a celebração própria daqueles que já saíram do Egito e vão caminhando para a Terra Prometida. Sempre que celebra a Eucaristia, a Igreja proclama e celebra a sua identidade e a sua missão. Recordar o seu passado é necessário para viver bem o presente, orientado para o seu futuro. Iluminado por Cristo, o povo cristão toma consciência das suas origens, da sua situação presente e do futuro que lhe está prometido, quando diz: «Anunciamos Senhor a vossa Morte, proclamamos a vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus»!

De facto, as origens da nossa vida cristã estão no Batismo pelo qual morremos e fomos sepultados com Cristo e com Ele ressuscitámos para vivermos, segundo o Espírito, a vida nova dos filhos de Deus. E no deserto da vida presente onde as serpentes do mal continuam a morder-nos, somos alimentados pela Palavra e fortalecidos e curados pelos Sacramentos, sobretudo pelo Santíssimo Sacramento da Eucaristia celebrado ao Domingo, onde o próprio Senhor Jesus nos alimenta com a sua Palavra e com o seu Corpo e Sangue. E esta celebração abre-nos à esperança, alicerçada nas promessas de Cristo e expressa nas palavras: vinde, Senhor Jesus!

Caros irmãos e irmãs: neste ano vamos fazer memória do passado desta diocese, assim como foi vivido, com os seus momentos de glória e também com as suas debilidades e fracassos. Anunciaremos a Morte do Senhor, como o lugar onde nasce a vida da Igreja e como o momento no qual Cristo Senhor, Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, penetrou nos Céus, na presença do Eterno Pai, com o seu Sangue derramado por todos nós, alcançando-nos o perdão dos pecados e uma Redenção eterna.

Será um ano também para proclamarmos a sua Ressurreição pela qual a sua vitória sobre a nossa morte nos permitirá amar os nossos inimigos e perdoar-lhes, não sete vezes, mas setenta vezes sete, ou seja, sempre. Isso, de facto, podemos fazê-lo, porque, libertos do medo de morrer, podemos dar por eles a nossa vida.
Será também, sem sombra de dúvida, um tempo novo, projetado para a esperança da vinda de Cristo Senhor. Esta diocese de Beja é hoje um grande terreno que precisa de ser lavrado e semeado para produzir uma seara nova. Estas festas dos 250 anos da restauração da diocese deverão marcar o início desse tempo novo.

Com o coração em festa
4. As festas pedem festeiros a condizer. Uma festa grande como esta, que esperamos seja toda repassada pelo dinamismo da Páscoa de Jesus, tem poder para nos purificar e preparar para participarmos na festa eterna do Reino dos Céus. «Justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor» (Rm 5, 1). Ter o coração em festa é tê-lo limpo do pecado e alegre por conhecer e pôr em prática a Lei de Jesus Cristo. É tê-lo deslumbrado pelo amor de Deus para connosco e disponível para O amar acima de tudo. Sem esse deslumbramento que é a fé, que festa poderá alguém fazer? E a fé abre o nosso coração à esperança, pois o Senhor prometeu-nos o Céu, a vida eterna. A porta que nos introduzirá na realização das promessas de Cristo é a nossa morte, a nossa passagem deste mundo para o Pai. Assim, caras irmãs e estimados irmãos, estas festas, para nos darem aquilo que esperamos delas, devemos encará-las como um intenso convite que o Senhor Jesus nos faz à conversão, à fidelidade, e ao amor a Ele e aos irmãos, ou seja, a vivermos uma vida teologal que tem nele a sua origem, o seu acontecer e o seu objetivo. As festas que nós cristãos realizamos na terra são sempre como que uma antecipação da chegada ao Céu e uma preparação para ela. O perdão dos pecados recebemo-lo no Sacramento da Penitência, que nos dá o Espírito Santo e nos prepara para a Sagrada Comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor na festa da Eucaristia.
Participar da Eucaristia Dominical, escutar aí a Palavra do Senhor que nos converte e sentarmo-nos à sua mesa, é vivermos a nossa vida como uma festa continuada, como preparação para a festa do Céu. Somos cristãos, somos filhos adotivos de Deus. Vamos, neste ano, praticar mais a oração individual e familiar para que, recebendo o Espírito Santo, aprendamos a viver na docilidade às suas inspirações. As catequeses para adultos, inspiradas no Catecismo da Igreja Católica, serão, para muitos, uma boa introdução à oração.

Programa das celebrações
5. Como é previsível, as celebrações programadas por nós para este ano têm uma acentuação marcadamente litúrgica. São as celebrações eucarísticas realizadas nas diversas comunidades, com especial destaque para as que realizaremos na Sé de Beja, presididas pelo bispo diocesano. Realizar-se-á também na Pousada de S. Francisco em Beja, nos meses de março e de abril, uma Exposição sobre a História da Diocese. Todos os arciprestados estão convidados a visitá-la, pelo menos no dia da sua peregrinação à Sé. Nos meses de maio e de junho será a peregrinação de uma imagem de Nª Sª de Fátima e de um ícone de São José, padroeiro da nossa diocese, pelos arciprestados. Haverá diversos concertos e também algumas conferências. Apresentamo-vos, de seguida, o programa, tal como foi preparado por uma equipa.

2019/10/07

16h00
Reunião do Presbitério Diocesano para apresentação das Comemorações (Casa dos Irmãozinhos de S. Francisco de Assis)

18h00
Celebração da Eucaristia

20h00
Jantar no Seminário

01/12/2019

Abertura Solene do Ano Jubilar. Eucaristia na Sé, com o presbitério

15/02/2020

Concerto: Missa a três vozes de D. António Xavier de Sousa Monteiro (séc. XIX), pelo Coro do Carmo

01/03/2020

16h00
Abertura da Exposição na Pousada de S. Francisco

06-07/03/2020

II Simpósio Diocesano promovido pelo SDEC: A audácia de evangelizar

08/03/2020

Peregrinação do Arciprestado de Moura à Sé; visita à exposição

14/03/2020

21h00
Conferência na Pousada de S. Francisco: Presença do Cristianismo ao tempo do domínio islâmico, na diocese de Beja – Eng. Cláudio Torres

15/03/2020

Peregrinação do Arciprestado de Beja à Sé; visita à exposição

21/03/2020

Peregrinação do Arciprestado de Almodôvar à Sé; visita à exposição

28/03/2020

21h00
Conferência na Pousada de S. Francisco: Os bispos de Beja no séc. XIX – Dr. Paulo Alves

04/04/2020

Dia Diocesano da Juventude; Peregrinação dos Jovens à Sé e visita à exposição

08/04/2020

Missa Crismal. Visita do clero à exposição

18/04/2020

Peregrinação do Arciprestado de Santiago do Cacém à Sé; visita à exposição

21h00
Conferência na Pousada de S. Francisco: Como olhar hoje e que lição tirar dos fatores e circunstâncias culturais, sociais, políticas e religiosas explicativas da descristianização do Alentejo no passado? – D. Francisco Senra Coelho, Arcebispo de Évora

19/04/2020

Peregrinação do Arciprestado de Cuba à Sé; visita à exposição

26/04/2020

Peregrinação do Arciprestado de Odemira à Sé; visita à exposição

01/05/2020

Solenidade de S. José, Operário, padroeiro da diocese de Beja

01-10/05/2020

Arciprestado de Beja recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

09/05/2020

Encerramento da Exposição. Concerto com Rão Kyao e Coro do Carmo

10-20/05/2020

Arciprestado de Cuba recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

20-31/05/2020

Arciprestado de Moura recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

01-10/06/2020

Arciprestado de Almodôvar recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

10-20/06/2020

Arciprestado de Odemira recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

19/06/2020

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, titular da Catedral

20-30/06/2020

Arciprestado de Santiago do Cacém recebe Nª Sª de Fátima e ícone de S. José

09-11/07/2020

Tríduo preparatório

12/07/2020

17h30
Comemoração festiva dos 250 anos da restauração da diocese

24/10/2020

Solenidade de S. Sisenando, padroeiro da cidade de Beja

22/11/2020

Solenidade de Cristo-Rei. Encerramento do Ano Jubilar

Como uma árvore…

É desejável e normal que este programa, centrado naturalmente em Beja, seja completado por atividades a realizar por toda a diocese.

Queridos irmãos, convido-vos a realizar estas festas dos 250 anos da restauração da diocese de Beja, para usar uma comparação, como uma árvore, com folhas e flores, das quais se esperam frutos abundantes, mas sem esquecer as suas raízes e o seu tronco. As raízes, que a prendem ao chão e a alimentam, são a fé que não se vê mas que dá vigor e solidez à árvore toda. O tronco, com os seus ramos, que a ergue para o Céu, é a imagem da Liturgia e da Festa que torna a Igreja visível no meio do mundo. Por eles, pelo tronco e pelos ramos, passa a seiva que alimentará as folhas, as flores e os frutos. Não nos contentemos com as palavras e os discursos, que também são necessários para nos unir, mas cultivemos sobretudo a nossa fé cristã, sem a qual a árvore não pode crescer nem frutificar.

Louvai o Senhor porque é bom cantar, é agradável e justo celebrar o seu louvor (Sl 147A, 1). Cheios da alegria que nos vem do amor do Senhor, celebremos, irmãos, os 250 anos da nossa diocese restaurada.

O Senhor vos abençoe a todos generosamente.

Beja, 10 de julho de 2019
+ J. Marcos, bispo de Beja