sexta-feira, 25 de maio de 2018

Todos Nós Somos Pescadores de Algo

Pescadores de ideias, de sonhos, de objetivos, de um rumo para o nosso futuro, enfim de toda uma panóplia de projetos que podem ou não concretizar-se. Mas o caminho constrói-se caminhando nesta longa ou menos longa estrada da vida, com os seus altos e baixos, sempre com uma nuvem à nossa frente que não nos deixa ver o nosso futuro conforme gostaríamos ao tomar uma decisão, logo, torna-se necessário ultrapassar um monte, sabendo que possivelmente existirá outro ainda maior. Com algum grau de frequência somos obrigados a mudar de direção quer porque nos apercebemos da sua inviabilidade, quer porque nos modificámos e os fins a que nos propomos já não se enquadram no momento presente, pelas diferentes alterações que nos surgem no dia-a-dia.

O título deste artigo vem a propósito de alguém que comentou comigo que se sentia como um pescador à espera que algo mordesse no anzol. Achei que seria um título muito adequado para desenvolver um artigo. O fim-de-semana passado tive oportunidade de o passar em casa de familiares jovens com filhos, a convite seu. Meu Deus, é um não parar de tarefas para executar. Nunca está nada terminado! Ainda assim admirei muito a organização da jovem anfitriã que acompanhei de perto. Fomos ao supermercado. Tinha tomado nota do que fazia falta no sentido de não dispersar e rentabilizar o pouco tempo existente. Fiquei mesmo muito admirada. Em pouco tempo tínhamos o carrinho de compras repleto com o que se tinha proposto comprar que ia apagando do telemóvel. Depois acompanhei-a ao talho. Já tinha decidido em que consistiriam os jantares da semana e a sua ementa. Foi fácil com a ajuda do telemóvel solicitar o que queria para cada dia. Ainda a acompanhei à frutaria que frequenta habitualmente. Escolheu rapidamente os legumes e a fruta. Confidenciava-me que no domingo, após o almoço, seria para descansar e acompanhar as crianças na organização do regresso às aulas após as férias da Páscoa. Procurei acompanhá-la e ajudá-la o mais possível já que o tempo não permitia que fizéssemos o programado almoço num restaurante na praia. Meu Deus, as crianças não paravam. Joguei às cartas, inventei histórias, sempre com muita alegria. Queriam sempre mais! E lá estava a mãe para colocar um pouco de ordem. Na realidade senti-me como se fosse uma criança. Também me chamou a atenção pelo barulho que fazíamos e as risadas que dávamos. Torna-se necessário dizer que no domingo também não parou. Questionei-lhe o porquê: “Então tinhas combinado que o domingo à tarde era para descansar?” Respondeu-me que havia sempre coisas a surgir para fazer! O marido procurava dar algum apoio nas tarefas domésticas, com as crianças, mas também tinha o desporto e a sua bicicleta avariada. Ainda se viria a cortar ao repará-la e novamente contou com o apoio da mulher para o ajudar a fazer o curativo. Pensei no que este casal tinha sofrido recentemente com a morte, em curto espaço de tempo, dos pais dele e do pai dela, todos com cancro. Mas a vida continua. Com tudo isto ainda conseguiu organizar sacos de roupa que já não serviam aos filhos para oferecer a quem mais precisa. Também fomos falando dos problemas de afirmação que as crianças atravessam presentemente. Creio que tudo isto ilustra a santidade de que o Papa Francisco fala, sobre os casais jovens com filhos que lutam diariamente para levar a vida em frente. Na missa dominical rezei por este casal que unido procura enfrentar todas as adversidades com que se vão confrontando nesta passagem terrena. S. Josemaria escreveu: “Às vezes fala-se do amor como se fosse um impulso para a satisfação própria ou um simples impulso para completarmos em moldes egoístas a nossa personalidade. E não é assim: Um amor verdadeiro é sair de si próprio, entregar-se. O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria em forma de cruz. Enquanto estivermos na terra e não tivermos chegado à plenitude da vida futura, não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da cruz. Uma dor que se saboreia, que é amável, que é a fonte de íntima alegria, mas que é a dor real porque supõe vencer o egoísmo e tomar o amor como a regra de todas e de cada uma das nossas ações”. Na realidade, foi um fim-de-semana muito enriquecedor, alegre e solidário em que todos deram a sua colaboração.

Estes dias de paz e de tranquilidade fizeram-me recordar as palavras de Jesus: “Felizes os mansos porque possuirão a terra”. Se vivermos tensos, arrogantes diante dos outros acabaremos cansados e exaustos. Mas quando olhamos os seus limites e defeitos com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores, podemos dar-lhes a mão e evitaremos gastar energias em lamentações inúteis. Para Santa Teresa de Lisieux, “a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não nos escandalizarmos com as suas fraquezas…” Dar e perdoar é tentar reproduzir na nossa vida um pequeno reflexo da perfeição de Deus que dá e perdoa abundantemente… É necessário pensar que todos nós somos uma multidão de perdoados. Todos nós fomos olhados com compaixão divina. Se andamos à procura de santidade que agrada a Deus no capítulo 25 do Evangelho de S. Mateus, está escrita uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados: “Tive fome e deste-Me de comer, tive sede e deste-Me de beber, era peregrino e recolheste-Me, estava nu e deste-Me que vestir, adoeci e visitaste-Me, estava na prisão e foste ter Comigo” (in Gaudete et Exsultate, Papa Francisco).

Termino o artigo como o iniciei: Todos nós somos de algum modo pescadores de alguma coisa. Importa que sejamos também semeadores de paz, de alegria, de harmonia, tendo sempre presente a necessidade de perdoar e de desculpar os outros. Cada um tem uma visão específica e diferente sobre o mesmo assunto. Santa Maria, Rainha da Paz, rogai por todos nós, para que possamos concretizar este objetivo e assim podermos contribuir para o bem-estar, em prol de uma humanidade pacífica e solidária, constituindo assim a nossa grande “pesca”. “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”.

Maria Helena Paes



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