sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Ocaso Natural da Vida versus a Eutanásia

Já muito se falou sobre o assunto em epígrafe. Acredito que a sociedade se sente envolvida neste debate sobre a vida porque é disso que se trata. Ainda assim, atrevo-me a abordá-lo novamente, numa perspetiva muito sentida de quem já passou por vários momentos, em que a vida dos nossos entes queridos dependia da nossa influência e capacidade de decisão, em momentos de grande sofrimento em que parecia que tudo aquilo em que acreditamos, está quase posto em causa, perante um grande e quase infindável sofrimento. Queremos certamente o melhor para o nosso ente querido, que pode ou não ter vontade de partir rumo à vida eterna. Algumas pessoas agarram-se à vida, com uma força enorme, querendo tudo ultrapassar e vencer. Outras nem por isso. Sabem que o momento final se aproxima e querem partir em paz, quando chegar o seu momento rodeadas pelo amor da família, que se tona imprescindível nestes momentos mais dolorosos, e igualmente com todo o apoio dos cuidados assistenciais que ajudam a que estes momentos sejam menos dolorosos.

Este debate tão importante traz a lume, a grande falta de respostas para estas situações, refiro-me em particular, aos cuidados paliativos. Mas não só. Há na realidade muito a fazer neste campo, face ao envelhecimento da população. Refiro-me aos idosos que se encontram sós, às vezes nas cidades, as quais não se encontram preparadas tantas vezes para pessoas com dificuldade de locomoção, cadeiras de rodas, idosos que vivem em prédios antigos, sem elevador, ou seja, sem possibilidade de saírem de casa. Tenho observado que, quando os idosos frequentam atividades físicas, culturais, realizam trabalhos manuais, mantendo as suas capacidades cognitivas, são muito mais felizes e têm menos problemas de saúde. Uma forma de ajudar a minimizar a solidão, são as relações intergeracionais. Há algum tempo, soube de uma universidade que organizava visitas a pessoas dependentes com as quais organizavam alguma atividade cultural. Sobretudo, importa ajudar a ultrapassar a combater a enorme solidão em que se encontram. Claro que as autarquias e as juntas de freguesia pela sua proximidade têm um importante papel a desempenhar, bem como as instituições de solidariedade social. As escolas também têm um papel de extrema importância. Recordo que uma pessoa amiga que se encontra num lar, referia a enorme alegria quando as crianças de uma escola vinham passar uns momentos com os residentes na aula de educação física, ajudando-os a concretizar as atividades, chamando-os por avós, e trazendo pequenas lembranças normalmente desenhos feitos por elas relativos às épocas festivas. Os passeios, mesmo que pequenos, para um lanche, para ver as iluminações de Natal, para ver o mar numa praia, retirando-os do seu ambiente diário, constituem uma alegria enorme.

Recordo também a este propósito que há uns anos atrás levei uma idosa com cerca de 90 anos à praia. Referia que tinha saudades do mar. O passeio foi à Praia das Maçãs. Foi uma alegria enorme. Quis saber qual a razão por que tinha esse nome. Referi que o riacho que vinha desaguar no mar antigamente passava pelos campos cobertos de maçãs caídas no chão e que as trazia para o mar. Sentada numa cadeira à beira-mar, emprestada pelo banheiro, debaixo do chapéu de sol, observava tudo em redor mostrando uma alegria contagiante. Uma criança trouxe-lhe um balde de água com um pequeno caranguejo. Que felicidade! A certa altura, decidimos que o melhor, seria levá-la até à beira-mar, já que o mar se encontrava muito calmo nesse dia, no sentido de molhar os pés. Quanta alegria, que risada enorme! Ainda hoje se recorda desse dia. Mas o passeio não acabou aqui. Depois da praia, levámo-la a almoçar em Sintra, num restaurante que frequentava anteriormente na companhia do marido. Na realidade, recordei que “há mais alegria em dar do que em receber”. Não sei quem estava mais feliz.

Imbuídos deste espírito de cidadania, de entreajuda, de disponibilidade para criar novos projetos que vão de encontro às reais necessidades sentidas para quem precisa de companhia, de afeto, de apoio médico, de assistência especializada de saúde, de assistência social, de habitação, de justiça, procuraremos, assim, contribuir para que a vida se prolongue até ao momento em que surja o Ocaso Natural em vez de se aprovarem leis como a da Eutanásia.

Termino este artigo recordando algumas frases que o Papa Francisco referiu sobre este tema, dando ênfase à falta de compaixão, pretendendo resolver os problemas eliminando a vida humana. Pelo contrário deve-se cuidar da pessoa, sobretudo quando sofre, é frágil, indefesa. Cada ancião, embora enfermo ou no fim dos seus dias, leva em si o rosto de Cristo. O grau de progresso de uma civilização mede-se justamente pela capacidade de proteger a vida, sobretudo nas fases mais frágeis. Amar a vida é sempre ocupar-se do outro, desejar o seu bem, guardar e respeitar a sua dignidade transcendente.

Maria Helena Paes



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