segunda-feira, 5 de março de 2018

Páscoa


Não gosto da Páscoa em março. O inverno não partiu definitivamente e a primavera ainda não se abriu em todo o seu renovo. Porque a Páscoa, tal como a primavera, é renovação. Lembro-me muitas vezes, e com saudades, da Páscoa da minha infância. Era uma azáfama na limpeza das casas. Mães e filhas, de vassoura nas mãos, feitas de palha, daquelas redondas com que se pintam as bruxas, desempoeiravam todos os cantos, para que não houvesse ponta de pó, quando entrasse o folareiro.  Era assim que se chamava à Visita Pascal. E no dia da Páscoa, depois do silêncio da Semana Santa, logo de manhã cedo, tocavam os sinos com todo o entusiasmo que lhes dava o Ismael sacristão e, por cima das ruas astradas, saía a procissão de Jesus ressuscitado. E, logo a seguir, começavam a sair as cruzes, ao som de grandes badaladas dos sinos. Cada cruz era devidamente acompanhada por homens de opa vermelha. Um deles levava uma saquinha em veludo onde  cada  família depositava um envelope com o folar do Senhor Abade. Daí se chamar popularmente folareiro à Visita Pascal. Mas antes da saquinha para guardar os envelopes, era uma cesta para receber ovos, porque era esse o folar do Senhor Abade. E enquanto os foguetes iam indicando onde se encontravam as cruzes, a rapaziada gritava à frente das cruzes: Senhor abade aos ovos! Senhor abade aos ovos!

Compreende-se a tradição dos ovos. Na primeira metade do século findo, as povoações eram ainda aldeias rurais, em que a maioria das casas não dispunha de dinheiro líquido, mas tinha produtos da terra e com eles pagava.

Sempre me ficou essa imagem da cesta com os ovos e do grito da rapaziada.

Hoje acho um simbolismo fantástico associar os ovos à Ressurreição de Jesus. O ovo é um espaço fechado escuro, sem qualquer abertura, aparentemente uma coisa sem vida, frágil, que rebola. E é dessa coisa que sairá uma vida pujante, que se move, capaz de sobreviver sozinha.

Segundo os evangelistas, Jesus, depois de morto, foi encerrado num sepulcro cavado na rocha, com uma grande pedra a tapar a entrada. E desse espaço fechado, escuro, ausente de vida, Jesus saiu resplandecente, triunfando sobre a morte. É certo que isto é uma questão de fé, ultrapassando, por isso, por ser do domínio da fé, a racionalidade humana.

Tudo passa e tudo se transforma. O domingo de Páscoa cheio de movimento, de cor, animado com os foguetes e as correrias para apanhar as canas, mais o toque dos sinos, mais a espera da visita anunciada com o toque de grandes campainhadas desapareceu. 

A última Páscoa que passei na minha aldeia foi desoladora. Depois de alguns anos sem lá ir, sentia uma grande emoção em voltar a vivê-la, não como no tempo dos ovos, mas com alguma vivência de fé e convívio. Sem entrar em pormenores, a imagem que retive foi a de crianças que atiravam água benta umas às outras, perante o olhar indiferente dos adultos que as acompanhavam. No entanto, não quis deixar de receber a Visita Pascal. Como ninguém me tinha entrado em casa, convidei um grupo que ia recolher para me comunicar dentro de minha casa, a mensagem: Cristo ressuscitou! Aleluia! Aleluia! Senti-me compensada, mas ainda não voltei.

Tive o privilégio, há uns anos, de viver a Semana Santa na Grécia. Na Quinta-feira, em Delfos, fui à missa na igreja ortodoxa. Tal como na minha aldeia, há muitos anos, a rapaziada ficou fora, no adro, à espera que a cerimónia acabasse. Não brincavam, não faziam barulho. Era uma forma de participarem. Dentro, igreja cheia, com os homens no lado esquerdo e as mulheres no lado direito. No regresso a Atenas, em sexta-feira santa, o guia explicou-nos que nesse dia nenhum restaurante serviria carne e à noite dificilmente encontraríamos algum aberto, porque toda a gente iria participar na procissão. O sábado era a véspera da partida e houve então um jantar de festa com música ao vivo. À meia-noite, interrompeu-se a festa, e os artistas cantaram uma canção que deduzi ser a celebração da Páscoa, porque repetiam, Cristos, Cristos, que, como se sabe, é uma palavra grega que significa Salvador.

No dia seguinte, novamente o guia nos explicou que, em domingo de Páscoa, todos, crentes e não crentes cumprimentam-se, dizendo: Cristo ressuscitou, ao que o outro responde: na verdade assim aconteceu.

É esta a Páscoa que eu agora relembro.



Cecília Rezende



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