quarta-feira, 12 de julho de 2017

Os frutos do cinismo

— Retirei-me para a Sicília, onde possuo algumas terras; cultivo e vendo o meu trigo. (...) Conservo ainda, graças aos deuses, o vigor do espírito e boa memória. Mas à velhice acompanha sempre longo cortejo de dores e doenças: padeço cruelmente da gota. E aqui onde me vês, ia agora mesmo buscar nos campos Fleugreus algum lenitivo aos meus males. Este solo ardente, de onde, à noite, se desprendem chamas, exala acres vapores sulfurosos, os quais, dizem, calmam as dores e restituem a flexibilidade às juntas dos membros.

Este é um trecho da longa conversação mantida entre Pôncio Pilatos, velho e retirado da vida pública, e Élius Lâmia, um italiano exilado no Oriente Médio na época em que Pilatos foi o procurador naquelas bandas. O diálogo faz parte do conto “O Procurador da Judeia”, de Anatole France. Admitido como um homem “bem acima dos indivíduos fabricados em série, tal uma montanha acima do vale”, Anatole foi manifestamente agnóstico, anticatólico e anticlerical. Tido como um novo Voltaire e herdeiro de Renan, ele ganhou o Nobel de Literatura de 1921.

Sua escolha foi polémica. Era inequívoco que se tratava de um grande escritor, mas Nobel preconizara em seu testamento que o prémio deveria ser atribuído “ao autor da mais notável obra literária de inspiração idealista”. Já em 1904 o nome de Anatole France fora avaliado e um dos membros do Comité o recusara porque havia “em seus escárnios, no gelo de seus sarcasmos, algo de estéril, de desesperador até, e não se chega a encontrar o que quer que seja de positivo na concepção que ele tem de nossa vida de homem, existência que se lhe afigura antes uma lamentável bufonaria”. Não era o tipo de agraciado com o qual Nobel sonhara, o que nos informa o quanto os princípios podem ser, lenta e seguramente, subvertidos.

Como subvertida tem sido nossa matriz cristã, solapada pelo utilitarismo que marca nossa época, que nos píncaros da espiritualidade se deixa seduzir por religiões estranhas e mesmo antípodas da pregação cristã. Também no terreno das ciências sociais assistimos a persistência de “novidades” como o comunismo, que toca o coração de um ou outro jovem com sua falsa candura. Jovem que a partir de então passa a se sentir um justiceiro e a considerar que todos os não devotos da cartilha igualitária não passam de cegos egoístas.

Comunista em idade avançada, Anatole France deixou algumas pistas de que se debatia em dúvidas e que sua demanda intelectual era mais conservadora que suas ironias e escolhas visíveis. Dirá que o mundo é infinitamente grande e o homem infinitamente pequeno, que nossos ideais são sombras luminosas e entretanto é em persegui-los que encontramos a nossa única verdadeira felicidade. Também dirá que a mediocridade humana é grande e “que os prazeres do espírito ultrapassam em muito os da carne, e que a serena tranquilidade da alma é o porto para onde o sábio dirige sua barca a fim de escapar às tempestades da vida dos sentidos”.

Voltemos ao procurador da Judéia. Depois de relembrarem passagens históricas com absoluta fidelidade, Lâmia fala de uma judia que “numa espelunca, à luz frouxa de pequena lâmpada fumosa, sobre um reles tapete, dançava, erguendo os braços para entrechocar os címbalos. Os rins curvados, a cabeça descaída para trás, como derreada ao peso dos bastos cabelos ruivos, os olhos húmidos de volúpia, ardente e lânguida, flexível, — ela teria feito empalidecer de inveja a própria Cleópatra”. Num belo dia a dançarina desapareceu e Lâmia a buscou “pelas vielas suspeitas e tavernas de má fama”. Ficou então sabendo que ela “fazia parte de um bando de homens e mulheres, que seguiam os passos de um jovem taumaturgo galileu. Chamava-se Jesus; era de Nazaré, e foi crucificado por não sei que delito”. Por fim Lâmia pergunta a Pilatos se ele se lembra disto. Erguendo as sobrancelhas, como quem se esforça para trazer algo à memória, Pilatos responde: “Jesus? Jesus de Nazaré? Não, não me recordo”.

Cai o pano e fecha-se o conto. O que esperar de uma árvore que oferece tais frutos? O que se lê com um esgar, com um sorriso de canto de boca, é matéria de combustão da fornalha do inútil. É puro desperdício regar palavras amargas quando se poderia erguer os olhos e, em dados momentos, simplesmente admirar a existência. Por ironia, entretanto, as palavras duras e cínicas fazem sucesso. Se encaixam como luva em desafetos e mascaram frustrações do agressor,  mas isto é muito pouco. Porque não animam a vida e não lhe dão sequer um pingo de sentido.

J. B. Teixeira

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