terça-feira, 25 de julho de 2017

O Lençol Branco Bordado

Olá, venho contar-vos a minha história. A minha dona comprou-me numa loja de bordados. Ouvi-a comentar enquanto fazia o pagamento que era tão bonito, que certamente surgiria uma ocasião especial para ser utilizado. E o tempo foi passando… guardado numa gaveta almejava poder ser um dia útil, mas esse dia tardava. De vez em quando a gaveta abria-se. Ficava com uma enorme expetativa. Mas era sempre escolhido outro lençol. Ouvia comentar que dava muito trabalho a passar por cauda dos bordados. Paciência! Recordei que tudo tem um custo na vida. Ouvi a minha dona referir que o que quer que tentemos concretizar, tem sempre implícito, uma desistência de algo, em prol da tentativa de alcançarmos os objetivos traçados. Nada se obtém sem esforço. A título de exemplo, enfatizava que algumas pessoas tiveram de desistir de algo que almejavam para alcançar uma meta, dando como exemplo os pais que se têm de sacrificar em prol do bem-estar dos filhos. Também para se construir uma carreira enquanto médico, autor, professor, gestor, cientista, entre muitos outros, há muitas coisas que têm de ficar pelo caminho face à necessidade da dedicação ao estudo, à pesquisa, à leitura…

A minha dona comentou ainda que o Papa tinha sublinhado que, muitas vezes na vida, existe a tentação de “remoer” as dores e as desilusões. “Chega-se mesmo a familiarizar-se com a tristeza que se torna casa. Jesus pelo contrário quer tirar-nos das “areias movediças”. Francisco recordou as situações de “incerteza”, as “feridas do passado” e os tratamentos injustos que acontecem na vida, realçando que a paz acontece quando Jesus entra na vida de cada um. “Muitas metas são ilusórias, prometem o alívio e apenas distraem um pouco, asseguram paz e divertimento mas depois deixam na solidão de antes, são fogo-de-artifício”. Torna-se necessário sair de si próprio com objetivos traçados”. 

A gaveta abriu-se novamente. Desta vez a minha dona procurava uns lençóis muito coloridos com ursinhos. A sua neta vinha dormir na sua casa. Ainda não é desta vez, acho que estou a ficar fora de moda com tantos bordados ou talvez não seja adequado para uma criança. Bem, não posso ficar triste. A esperança é a última a morrer.

Mais uma vez a gaveta foi aberta. A minha dona encontrava-se algo triste e ansiosa. Comentou com uma amiga que tinha falecido alguém com algumas necessidades. Não tinha família. Estava na morgue, envolvido num saco. Era necessário fazer-se o funeral, mas não havia roupa para vestir. Que tristeza partir assim. Tinha decidido, que ao menos um lençol ajudaria a cobrir a nudez e a ter alguma dignidade neste triste momento. Fui eu o lençol branco bordado que foi escolhido. Afinal, vou ser útil, finalmente, vou cumprir a missão que me estava destinada e que tem a ver com a caridade. Quanto me regozijo! Já que alguém sofreu tanto em vida, pelo menos descansa agora envolvido num lindo lençol, já que não foi possível fazer mais em vida. Senti-me feliz. Estava nu e eu cobri-o. 

À laia de epílogo transcrevo um comentário recente do Papa Francisco: “Há necessidade de dar prioridade absoluta aos pobres, aos refugiados, aos que sofrem, aos deslocados e aos excluídos, sem distinção de nação, raça, cultura e religião, bem como de rejeitar os conflitos armados”. 

Maria Helena Paes



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