sexta-feira, 23 de junho de 2017

Responsabilidade

Sim, tenho noção de que esta palavra não está de moda... a não ser para os outros: “Tens de responsabilizar-te pelo teu trabalho e chegar a horas...”; “Tens de responsabilizar-te pela tua vida e estudar”; etc. No entanto, durante uma agradável conversa, constatei que esta virtude gerou santos. Apercebi-me de que é a virtude das pessoas apaixonadas, a virtude do amor, e confesso que passei a preferir esta expressão, responsabilidade, à palavra amor que é muitas vezes usada no sentido instintivo, sensual e até ... de espectáculo, como são as manifestações amorosas em público que chegam a imitar comportamentos animalescos, cada vez mais afastados das atitudes protectoras e discretas próprias dos homens para com as suas amadas e a sociedade em geral[1]. Vamos pois em defesa da responsabilidade.

Saulo era um jovem cheio de energia e com enorme sentido de responsabilidade. Pretendia defender a verdadeira fé, aquela que aprendera no lar paterno e na sinagoga. Para isso, teve o cuidado de o fazer legalmente, munindo-se dos documentos necessários para poder prender e levar para Jerusalém os habitantes de Damasco que professavam uma crença “herética”, o cristianismo. Estava enganado no que dizia respeito ao cristianismo, mas Deus reconheceu a rectidão de intenção das suas ações – o amor a Deus sobre todas as coisas – manifestada numa ação violenta, sim, mas plena de sentido de responsabilidade, virtude esta presente na vida dos santos, como a deste jovem  que veio a ser S. Paulo.

Também S. Francisco se responsabilizou por algo que não tinha percebido bem: reconstruir a Igreja, com maiúscula. Para ele, tão pobre e ainda inexperiente, a reconstrução da igreja de S. Damião, então em ruínas, já era obra de grande envergadura, uma responsabilidade que abraçou como vinda do céu. Foi nesse sentido de responsabilidade que Deus reconheceu nele o homem capaz de fundar a ordem mendicante dos franciscanos que “reconstruiu” a sua Igreja.

Arrisco-me a afirmar que S. Tomás Moro foi mártir devido ao seu sentido responsabilidade. Esta virtude inclui “senso”, discernimento, capacidade de julgar... a ponto de aceitar que se pode não ter razão, enganar-se, porque o único que nunca se engana é Deus. Esta certeza leva a uma enorme tranquilidade de espírito. É difícil compreender, no séc. XXI, que o jovem Tomás, chegado à idade de casar, tenha tomado a atitude responsável de contrair matrimónio, não com a jovem para a qual se sentia inclinado, mas com a sua irmã mais velha, como era costume na época. Ao ficar viúvo, Moro chegou a casar-se com esta cunhada, mas a sua vontade aceitou novas responsabilidades: o bem do seu rei, Henrique VIII, e do seu povo, o britânico. A sua cabeça levou-o a perceber onde estava a razão que leva à verdadeira e eterna felicidade – não na vontade do rei, sim na vontade divina. Foi esta razão, este sentido de responsabilidade, que levou o rei a ordenar que fosse decapitado.

Neste dia em que escrevo, não posso esquecer a responsabilidade (insólita, mas necessária) de Stº António, manifestada num conhecido episódio da sua vida. Refiro-me ao momento em que Frei António[2] se apercebeu de que o povo estava ausente da igreja. Desgostoso por constatar tal desinteresse em ouvir a palavra de Deus, e para que se não perdesse a doutrina, preparou um sermão dirigido aos peixes. Esta necessidade de pregar, este sentido da responsabilidade que Deus infundiu no seu frade com um certo toque de bom humor, foi premiado com uma enorme assistência de peixes que o foram ouvir, mantendo as cabeças fora de água e recebendo este alento novo que os homens tinham repudiado.

Junho, tempo de amores? Tempo de responsabilidades.


[1] Uma cena chocante sucedida num avião, durante o voo, e  narrada em alguns meios de comunicação, é disso exemplo.
[2] Nascido em Lisboa como Fernando Bulhões, recebeu o nome de António - como sinal de “renascimento” – ao professar na vida religiosa.

Isabel Vasco Costa





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