terça-feira, 6 de junho de 2017

O Círio Pascal e Pentecostes

Há acontecimentos que surgem nas nossas vidas e que às vezes não são claros logo no início. Passo a explicar. Comecei a época da Quaresma na Vila de Mafra. Vivenciei estes momentos com muita intensidade, tendo tido a oportunidade de escrever vários artigos que me deram um enorme prazer. Pela minha mente surgiram os títulos de alguns desses artigos (a Procissão da Burrinha ou das Sete Dores de Maria, Tradições Seculares Versus os Novos Tempos, a Procissão do Enterro do Senhor, a Camisa de Sagração do Rei D. Luís XV de França, entre outros). Este fim-de-semana regressaria à Vila de Mafra.

No horizonte, tinha como objetivo passar uns momentos familiares agradáveis, continuando a fazer o luto, num regresso ainda doloroso, às memórias do passado, devido ao falecimento de familiares muito próximos, que importava integrar em toda a sua plenitude, para que a vida possa seguir em frente. A vida continua. Nesse esforço, esqueci-me completamente que era domingo de Pentecostes. Contudo, creio que inconscientemente, se encontrava latente.

No domingo, cheguei demasiado cedo à Basílica de Nossa Senhora e de Santo António para participar na Missa. Posto isto, resolvi visitar mais uma vez, (ainda que numa deslocação rápida), o Palácio Nacional de Mafra, protegendo-me assim do vento frio que se fazia sentir. Poderia fazer uma bela caminhada no longo corredor do Palácio, (o maior corredor palaciano da Europa, que antigamente era utilizado para o passeio da corte, tão ao gosto do século XVIII, em que se costumavam exibir os seus belos vestidos e jóias, confidenciando as últimas notícias políticas e amorosas). Houve ainda algum tempo para passar pelo quarto onde o rei D. Manuel II, passou a última noite no reino de 4 para 5 de Outubro de 1910, antes de partir para o exílio, bem como, para admirar alguma arte sacra e a enfermaria do Convento.

O tempo voava. Pela janela do corredor, observei a Basílica, recordando que, ao procurar o horário, tinha lido no facebook, que havia alguns jovens a celebrar a sua Profissão de Fé. A Santa Missa já tinha começado. Desci o mais depressa possível. A Igreja encontrava-se repleta. Ainda assim, consegui um lugar em pé situado à frente por detrás do coro. Que sorte! Poderia observar o altar, bem como a Capela do Santíssimo Sacramento, que se encontrava lindíssima com o Sacrário coberto com um véu esplêndido, como a circunstância assim o requeria, graças à Real Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra. Lamentei o meu atraso que não me permitiu ouvir a homilia do sacerdote. Foi nessa altura, que me veio ao pensamento, que era a celebração do domingo de Pentecostes. Nada acontece por acaso. Tinha começado a Quaresma nesta Basílica e concluía aqui o tempo pascal. Os desígnios de Deus são insondáveis! Ao terminar o tempo que tem o seu início na Páscoa, é apagado o Círio Pascal, ou seja, a sua luz que nos acompanhou ao longo dos cinquenta dias da Páscoa. Agora, é chegado o momento de integrarmos essa luz nas nossas vidas, sermos nós a luz de Cristo. O sopro divino dá a Vida, dá o Espírito Santo que torna novas todas as coisas. Que o Espírito da Vida, da União, do Amor, venha sobre nós, sobre as pessoas que amamos, sobre todos. Assim, a partir do local onde vivemos, o mundo será outro, será verdadeiramente um mundo onde reina o amor, a justiça e a paz.

“O Espírito do perdão, que tudo resolve na concórdia, impele-nos a recusar outros caminhos: os caminhos apressados de quem julga, os caminhos sem saída de quem nos fecha as portas, os caminhos de sentido único, de quem critica os outros. Ao contrário, o Espírito exorta-nos a percorrer o caminho com duplo sentido do perdão recebido e do perdão dado… Peçamos a graça de tornar o rosto da Mãe Igreja cada vez mais belo… Peçamos ao Espírito Santo, fogo de amor que arde na Igreja e dentro de nós: “Espírito de Deus, Senhor que estais no meu coração e no coração da Igreja, Vós que fazeis avançar a Igreja moldando-a na diversidade, vinde, precisamos de Vós, como de água para viver: continuai a descer sobre nós e ensinai-nos a unidade, renovai os nossos corações e ensinai-nos a amar como Vós amais, a perdoar como Vós perdoais”. (Papa Francisco na Solenidade de Pentecostes).

Feliz com a coincidência por celebrar o domingo de Pentecostes em família, na Vila de Mafra, vi o sacerdote apagar o Círio Pascal. Comovida deixei a Basílica reunindo-me com a família. O meu coração, ao partir no dia seguinte, permanecia em pensamento em Mafra.

Maria Helena Paes



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