segunda-feira, 5 de junho de 2017

Demografia e migrações

O estudo “Migrações e Sustentabilidade Demográfica”, coordenado por João Peixoto, Daniela Craveiro, Jorge Malheiros e Isabel Tiago de Oliveira e patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, recentemente publicado, salienta que o acolhimento de imigrantes será imprescindível para garantir a sustentabilidade demográfica em Portugal e evitar a redução e o envelhecimento drásticos da sua população. Mas não será suficiente, pois não é realista pensar que temos uma capacidade de acolhimento de uma tão massiva e contínua entrada de imigrantes. Impõe-se, por isso, de qualquer modo, inverter a tendência de queda da natalidade que tem caracterizado as últimas décadas.

Já não adianta ocultar a dimensão deste problema, que já foi identificado como o mais grave com que se deparam a sociedade portuguesa e as sociedades europeias em geral.

A presença de múltiplas culturas em Portugal e na Europa torna-se, assim, incontornável e devemos estar preparados para a enfrentar. Erguer novos muros é, além do mais, ilusório e só contribuirá para acentuar o verdadeiro suicídio demográfico a que vimos assistindo. O diálogo de culturas pode ser enriquecedor, como a história da Humanidade nos revela. Não temos que recear a perda da nossa identidade, se dela, e dos valores em que a baseamos (historicamente ligados à mensagem cristã) tivermos uma consciência forte. Afirmou o Papa Francisco no discurso que deixou escrito quando visitou a Universidade Roma Tre, em 17 de fevereiro passado:

«Considerando que a primeira ameaça à cultura cristã da Europa vem precisamente do seio da Europa, o fechamento em si mesmos ou na própria cultura nunca é a solução para voltar a dar esperança e realizar uma renovação social e cultural. Uma cultura consolida-se através da abertura e do confronto com as outras culturas, desde que haja uma consciência clara e madura dos próprios princípios e valores».

Mas se é certo que a imigração não deve ser temida como uma “invasão”, muito problemática será uma sociedade em que os nativos são predominantemente idosos e os jovens predominantemente estrangeiros. Esse desequilíbrio já poderá criar mais ou menos fundados receios de perda da identidade nacional. O Papa Francisco também salientou num outro discurso, aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, de 9 de janeiro último, que é necessário «saber conjugar o direito de cada ser humano a “transferir-se para outras comunidades políticas e nelas domiciliar-se” e, ao mesmo tempo, garantir a possibilidade duma integração dos migrantes nos tecidos sociais onde se inserem, sem que estes sintam ameaçada a sua segurança, a sua própria identidade cultural e os seus próprios equilíbrios político-sociais.»

Impõe-se, pois, como salientam as conclusões do referido estudo, acolher imigrantes, mas também inverter a tendência de queda da natalidade que quase parece inevitável nas sociedades contemporâneas.

É verdade que fenómenos como o desemprego juvenil, a precariedade laboral e a dificuldade de conciliação entre o trabalho e a vida familiar, que se vão acentuando, não favorecem (antes pelo contrário) essa inversão de tendência. Penso, porém, que a crise demográfica só será vencida com uma mudança cultural, uma mudança de mentalidade.

Na verdade, as gerações precedentes, que não conheceram este problema, não experimentaram adversidades menores do que as de hoje A natalidade não é muito maior em países economicamente mais prósperos, ou nos estratos sociais mais abastados. Continua muito baixa em países com generosos apoios às famílias com filhos, como a Alemanha. E mesmo em França e nos países nórdicos, em que as taxas de natalidade são ligeiramente mais elevadas, estas não chegam para assegurar a renovação das gerações.

O Papa emérito Bento XVI na encíclica Cartias in Veritate fala em «cansaço moral» e «falta de confiança no futuro» como causas da crise da natalidade.

Não se vence a crise demográfica sem vencer a crise da família. A rejeição do casamento como doação total e compromisso definitivo não pode deixar de traduzir-se na rejeição da natalidade. A fuga diante de escolhas definitivas, o viver projetado apenas no imediato, sem um projeto que envolva toda a vida, leva também à recusa da que é, talvez, a mais irreversível das opções: a de ter filhos.

A crise demográfica só será vencida com a consciência de que a vida é sempre um dom e uma riqueza, que compensa sacrifícios e renúncias. Já alguém disse que é o maior dom que recebemos e, por isso, o maior que podemos dar. É ilusório pensar que se vence a crise demográfica sem qualquer forma de renúncia a algum bem-estar material ou tempo livre, ou sem contrariar a mentalidade individualista, hedonista e consumista que hoje impera.

Pedro Vaz Patto



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