segunda-feira, 15 de maio de 2017

Tradições Seculares: Ermida da Nossa Senhora da Saúde e de S. Sebastião


Na sequência de alguns artigos já publicados, subordinados ao tema Tradições Seculares, em que tive a oportunidade de referir várias procissões, uma amiga falou-me sobre a Ermida da Nossa Senhora da Saúde e de S. Sebastião. A Real Irmandade desta Ermida, organiza anualmente, no primeiro sábado, entre o dia 4 e 11 de maio, a Procissão das Velas, pelas 21H00.


No domingo, a Procissão de Nossa Senhora da Saúde. Bem, confesso que me despertou alguma curiosidade. O melhor mesmo, seria aprofundar e divulgar esta nobre devoção, pelo que “Duc in Altum”, ou seja, fazer-me ao caminho.


Deparei-me com uma belíssima capela, possivelmente edificada no ano 1505, pela Rainha D. Catarina e doada aos artilheiros para o culto a S. Sebastião. Outro historiador refere que foram os artilheiros da Corte, instalados no Castelo de S. Jorge como agradecimento pela intercessão deste santo mártir por terem recebido tão grande favor de Deus - o final da peste que houve por várias vezes durante este século. Segundo reza a história, este culto seria sustentado pelos artilheiros, que para esse efeito, sofriam descontos nos seus vencimentos.

Contextualizando: “durante o século XVI Portugal foi flagelado por diversas vezes pela peste, de tal modo grave foi esta epidemia que o reino ficou em grande parte despovoado. A classe militar foi particularmente atingida, daí, ter invocado o auxílio de S. Sebastião, soldado romano que foi mártir, representado amarrado num tronco, atingido por várias flechas. A sua pagela refere a seguinte oração: “Mártir S. Sebastião, valoroso cristão, alcançai-nos de Deus Todo Poderoso o dom da fé e a graça da saúde da alma e do corpo. Livrai-nos da peste, da fome e da guerra. Por Cristo Nosso Senhor. Amén. No ano de 1569, a peste mataria só na cidade de Lisboa, entre 50 a 60 mil pessoas, sendo que a sua população nessa época era de 120.000 habitantes. Por dia seriam enterrados mais de 600 pessoas, segundo informação facultada, tornou-se necessário recorrer à ajuda de alguns reclusos a fim de se conseguir realizar esta obra de misericórdia. As portas da cidade, por medida de precaução, foram encerradas, tendo a corte deixado a cidade de Lisboa. Face a este momento de enorme sofrimento, a população bem como a nobreza, apelaram à intercessão de Maria, Nossa Mãe do Céu, Saúde dos Enfermos. 


Nossa Senhora atendeu à sua solicitação e em prova da sua gratidão foi mandada fazer uma imagem da Virgem, que foi consagrada com o título de Nossa Senhora da Saúde, ficando exposta à veneração do público, na Ermida do Colégio de Jesus dos Meninos Órfãos, de onde saia nessa época a Procissão. No ano de 1662 recolheria à sua capela atual, face a um acordo estabelecido previamente com os artilheiros. Nessa altura as duas Irmandades existentes fundiram-se numa única com o nome de Real Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e de S. Sebastião. Tendo como protetores perpétuos os Monarcas. O primeiro cortejo processional de Nossa Senhora da Saúde foi realizado a 20 de Abril de 1570, dirigindo-se em primeiro lugar à Sé de Lisboa, onde foi cantado o “Te Deum Laudamos”, seguindo depois pelas principais ruas da cidade, até à Igreja de S. Domingos onde se fez a pregação das glórias da Virgem, recolhendo posteriormente ao Colégio dos Meninos Órfãos.

No dia 10 de Abril de 1572, o Município da época deliberou que passaria a realizar a procissão, sendo aprovado e confirmado pelo Rei D. Sebastião. O documento refere entre outros: “… que sirvo de escrivão da dita câmara…foi praticado e tratado da mui mortífera peste, que na dita cidade houvera no ano de 1569, que foi a maior que os nascidos viram, e que não se achava em memória dos homens houver outra igual; em tanta maneira que, sendo esta cidade a mais insigne que havia no mundo, de que todo o bem e saúde deste reino pendia, se viu assolada e cheia de mortos que caiam em bandos, só e desamparada de todos; tudo nela era fogo e mortandade, choros e gemidos, e ia em tanto crescimento, que os antigos da dita cidade e físicos…a houveram como perdida e estragada e que tarde ou nunca teria ser sem nome; por o que, considerando as grandes maravilhas e milagres que Nosso Senhor por ela fizera, em a restituir de novo a seu primeiro estado, e tão depressa sarando-a, livrando-a milagrosamente, e desimpedindo-a de tão grande fogo e mal contagioso, do qual fora tocada e infeccionada; e como coisa mui justa e mui devida, que tão milagrosa saúde e vitória recebida de um Deus tão propício e misericordioso, seja para sempre lembrada: Assentaram que em memória de tão alto benefício, a cidade fizesse cada ano, uma procissão de graças ao Senhor”…

Anos mais tarde, não existindo registo da data, este encargo seria transferido para a Irmandade já atrás referida, sendo que em 11 de Abril de 1717, já é o Patriarca de Lisboa que convida a autarquia a fazer parte da procissão. Hoje em dia é a Irmandade que convida a Câmara para integrar a procissão. Esta foi interrompida desde 1910 até ao dia 21 de Abril de 1940 em que se voltou a realizar, reatando-se assim, a secular manifestação de fé, de devoção à Bem-Aventurada Virgem Maria da Saúde que, como referiu o Papa Inocêncio XII, nunca deixou de atender aqueles que a invocam nas horas tortuosas da sua vida.

Ao longo dos anos foram feitas inúmeras dádivas à Nossa Senhora da Saúde, contando no seu espólio com inúmeros vestidos e mantos de rara beleza, sendo que o mais rico vestido é possivelmente o de gorgorão cor de cereja, bordado a ouro, que se julga que o mesmo tenha servido à rainha D. Mariana de Áustria no dia do seu casamento com D. João V. Acredita-se ainda que o vestido encarnado foi oferecido por D. Miguel. Diz-se que a Infanta D. Maria da Assumpção teria então objetado quanto à sua cor, referindo: “Era melhor que fosse antes azul, que é a cor do céu, ou branco, que é o símbolo da pureza”. D. Miguel terá replicado: “Está a mana enganada; Nossa Senhora chorou lágrimas de sangue, e o sangue é vermelho”. Em 1856 por ocasião de uma epidemia de “cholera-morbus”, D. Maria II, ofereceu um vestido e um manto de cetim branco, bordado com estrela em ouro.

Muito mais haveria para contar sobre esta tradição secular. Ouso ainda referir a Oração que a pagela refere: “Soberana Senhora, Mãe de Deus e Mãe nossa, Virgem singular e Advogada dos pecadores, que entre as inumeráveis prerrogativas que vos adornam sois invocada com o título glorioso de Saúde dos Enfermos, dignai-vos alcançar do Vosso amado Filho, aquela Saúde da alma de que tanto carecemos para chegar à glória do paraíso e a saúde de corpo para bem podermos cumprir a nossa peregrinação na terra. Amén. Agradeço reconhecidamente à Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e de S. Sebastião toda a informação facultada, que me permitiu elaborar este artigo. Concluo citando S. Josemaria in  Forja 137. “Torna o teu amor a Nossa Senhora mais vivo, mais sobrenatural. Não vás ter com Santa Maria só para pedir. Vai também para dar! Dar-lhe afeto, dar-Lhe amor para o seu Divino Filho: manifestar-Lhe esse carinho com obras ao serviço dos outros, que são também seus filhos”.

Maria Helena Paes



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