terça-feira, 9 de maio de 2017

Nas nuvens

Não foi por ter chegado de avião a Roma, mas sim pelo que ali se passou naqueles cinco dias. Iriam ordenar-se trinta e um sacerdotes, dois dos quais portugueses. Os outros eram oriundos de Espanha, Bélgica, Perú, Itália, Filipinas, Líbano, Canadá, Colômbia, Quénia, Guatemala, Estados Unidos, Austrália, Venezuela, Chile e Polónia. Dois dos espanhóis eram irmãos, tal como Georg e Joseph Ratzinger que foram ordenados presbíteros no mesmo dia.

Nesse sábado, a Basílica de Santo Eugénio estava cheia. O coro colocou-se do lado esquerdo do transepto, diante do retábulo que representa a aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, no qual o pintor Jaime Martins Barata representara uma das pastorinhas, tendo como modelo a sua filha Assunção. O ambiente era de grande alegria e solenidade. A liturgia foi rica em cânticos e gestos simbólicos. Emocionante foi ver como cada “padrinho” (um sacerdote amigo ou professor) se aproximava do seu “afilhado” já ordenado sacerdote, mas ainda vestido de diácono. Vinha acompanhado por um seminarista que transportava nos braços os paramentos de presbítero. Compete ao “padrinho” o gesto de retirar a estola de diácono e substituí-la pela de presbítero, colocando-a ao pescoço do ordenando com as pontas caídas sobre o peito, revestindo-o, depois, com o paramento igual ao dos seus companheiros. Pouco antes, durante o canto da Ladainha de Todos os Santos, o grande tapete vermelho estivera salpicado de 31 diáconos, revestidos de alvas brancas, sobre ele estendidos.

À saída, a multidão fluía, ansiosa por encontrar os seus familiares e amigos. Sempre que surgia uma nova batina negra, viam-se braços levantados num aceno alegre, por vezes acompanhado pelo chamamento de um nome. Apercebi-me do bater de palmas, seguido de um cântico. Curiosa, voltei-me para ver o que acontecia. O grupo do Quénia, com as suas mulheres vestidas de cores garridas, dançava comedida e discretamente (o jovem sacerdote também), numa tradicional manifestação de regozijo. Ali estava, patente e viva, a catolicidade da Igreja. Foram horas emocionantes.

Dois dias depois, assisti a nova cerimónia. Desta vez, havia um único diácono e a sua ordenação presbiterial foi clandestina. Tratava-se de um chinês, segundo rebento de um casal cujo país segue a política do filho único. Sua mãe fugiu de casa, quando se encontrava no quarto mês de gravidez, para poder ter o filho em segredo. Guardou-o num armário para o esconder de possíveis denunciantes. O bebé chorava, mas quando entravam desconhecidos, encontrava-se sempre a dormir. Fan-ming (nome fictício) considera que sobreviveu porque Deus o queria sacerdote. Ainda não conhece o seu bispo, pois há vinte anos que o seu paradeiro é desconhecido; não se sabe se está preso ou escondido. Fan-ming diz que a única coisa que os une é a oração. Há outros sacerdotes da sua diocese que também nunca viram o bispo, “mas este nunca se enganou nas escolhas que fez”, afirma o novo sacerdote. E acrescentou “A coragem do meu coração, vem disto”, e referia-se ao sacramento da ordem que acabara de receber. 

Foram momentos emocionantes. Os pais e irmã partilhavam com ele o banco corrido da primeira fila e choravam. Não foram os únicos. Pela primeira vez na vida, vi vários chineses que choravam, alguns deles alunos de outros seminários de Roma. Bem sabiam que Fan-ming seria preso logo que voltasse ao seu país. O próprio bispo que o ordenou estava emocionado e a voz embargou-se-lhe enquanto, segundo o ritual, decorria o diálogo com o reitor do seminário: “Reverendíssimo Padre, a santa Madre Igreja pede que ordenes presbítero a este nosso irmão”. E o bispo pergunta: “Sabes se é digno?”. E o reitor responde: “Segundo o parecer daqueles que o apresentam, depois de consultar o povo cristão, dou testemunho de que foi considerado digno”. O bispo diz: “Com o auxílio de Deus e de Jesus Cristo, nosso Salvador, escolho este nosso irmão para a Ordem dos presbíteros”.

É costume beijar as palmas das mãos do novo sacerdote após a cerimónia. Enquanto esperava pela minha vez, presenciei o comovente abraço de um colega do Quénia. Era mais alto que Fan-ming e o tom da sua pele contrastava com a do chinês. Ambos estavam emocionados. Percebia-se naquele amplexo um diálogo mudo, mas eloquente: “Em breve, partirás para a China onde, provavelmente, serás feito prisioneiro. Eu, uma vez ordenado, irei para o Quénia. É natural que não nos tornemos a ver, mas somos irmãos, filhos do mesmo Deus, na mesma Igreja Católica, universal.”

Sentimo-nos envolvidos naquele abraço.

Isabel Vasco Costa



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