sexta-feira, 5 de maio de 2017

Autoridade

Para celebrar o 90º aniversário do Papa emérito, tenho estado a ler “Bento XVI, Conversas Finais com Peter Seewald”. Já na página 219, Seewald (que voltou à Fé de seus pais durante a primeira longa entrevista que fez ao ainda Cardeal Ratzinger) transcreve duas belas passagens da homilia proferida na Missa de inauguração do seu pontificado. Eis a primeira: “O meu verdadeiro programa de governo não é fazer a minha vontade, impor as minhas ideias, mas, em conjunto com toda a Igreja, pôr-me à escuta da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele”. E a segunda: “Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário.”

Sim, “escutar a palavra do Senhor e deixar-se guiar por Ele” deve ser o programa de vida de todos nós. Trata-se de um objectivo possível, e até acessível e, certamente meritório. É possível e acessível porque “cada um de nós é fruto de um pensamento de Deus”. Isto é, Deus criou cada pessoa para uma determinada missão e concede-lhe as qualidades necessárias para a poder levar a cabo com sucesso, embora, na nossa ignorância, nem sempre consideremos essas “qualidades” como sendo boas. Estou a recordar-me de um colega de faculdade. Era cego e estava a tirar o curso de matemática. Era muito inteligente. Passava as aulas com o relógio de pulso nas mãos (seria também um gravador?), mas com imensa atenção. Anos depois, soube que tinha sido o autor de um manual de matemática, em Braile, no qual já apareciam os símbolos e “desenhos” apropriados ao estudo da teoria dos conjuntos.

Assim se entende que cada missão possa também ser meritória, além de possível e acessível. É certo que “cada um de nós é querido e amado” por Deus, mas pode ignorar ou não corresponder a esse amor e preferir escusar-se a ser “necessário”. Deus quis necessitar de nós como um pai necessita de cada filho. Têm, Deus e os pais, necessidade da nossa companhia, da nossa conversa, da nossa ajuda (cada um com as suas habilidades e habilitações), dos nossos sorrisos, das nossas notícias... mas por amor. É por sermos livres, e podermos não alinhar no projeto divino, que a “escuta” da palavra de Deus e a vontade de Lhe obedecer são atos meritórios.

O mérito aumenta com o empenho por cumprir com a missão que nos foi destinada. Assim, o tempo que é dedicado ao silêncio e solidão, o dinheiro que se gasta para poder “ouvir Deus” num retiro ou para ir a uma igreja onde confessa o bom diretor espiritual “descoberto” no dito retiro, são meritórios. Lembro-me de um pregador que ao passar no corredor do colégio viu uma adolescente a escrever. “Estás a fazer a lista dos teus pecados?”, perguntou-lhe. “Anda cá que eu passo-tos a limpo” e encaminhou-a para o confessionário. Sim, Deus também se pode “impor” através dos padres, dos pais, do Papa. Não nos esqueçamos de que o exercício da autoridade é uma necessidade própria da natureza humana. Assim como alimentar-se e respirar ar puro são necessidades do corpo, mandar e obedecer são necessidades do convívio humano que se aprendem em família, claro, num ambiente de responsabilidade e amor, e na sociedade.

A inteligência, a ciência, a justiça... e até a idade são fatores que dão força ao exercício da autoridade, como sucede com Bento XVI, que também não esqueceu que governar é uma forma de serviço.

Isabel Vasco Costa



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