sexta-feira, 14 de abril de 2017

Homilia na Missa da Ceia do Senhor

1. É a Páscoa do Senhor!
Queridos irmãos e irmãs reunidos aqui na Sé de Beja, e todos vós que nos acompanhais por meio da Rádio Renascença, sobretudo aqueles que chegastes às festas pascais deste ano mergulhados na solidão, no sofrimento, sem alegria e sem esperança, muito desejosos mas incapazes de mudar a vossa situação, acolhei este anúncio que escutámos há momentos na primeira leitura: é a Páscoa do Senhor! 

Não é Páscoa quando nós decidimos mas quando Deus passa. A Páscoa é a passagem do Deus misericordioso que vem ao nosso encontro cheio de amor e de poder para nos libertar das nossas escravidões mais profundas, como outrora passou no Egito para libertar da servidão o povo de Israel. É a passagem do Deus da vida que libertou Jesus dos laços da morte e O ressuscitou. Ele vem ao nosso encontro, ao teu encontro, para transformar a tua vida, para abrir caminho através do cerco da morte que nos fecha em nós próprios e nos obriga a ser egoístas, a viver para nós mesmos. É verdade que, por nós próprios, não podemos fazer Páscoa, não podemos sair dos nossos vícios e pecados, mas a nossa Páscoa é Jesus Cristo, Filho de Deus que morreu e ressuscitou para que nós deixemos de viver para nós próprios e vivamos para Ele que por nós morreu e ressuscitou. Viver para nós próprios é o Egito da nossa escravidão. Viver para Ele no amor ao próximo e no serviço humilde e amoroso aos irmãos é a Terra Prometida onde só Ele nos pode introduzir. Porque Ele passa e abre caminho à nossa frente nós podemos passar. Ele é a nossa Páscoa! Com Ele, nós podemos celebrar e fazer Páscoa; com Ele, em Igreja, nós podemos passar da morte para a vida, da escravidão para a liberdade, da tristeza para a alegria, do inferno para o céu, do egoísmo para a caridade fraterna, da solidão para a comunhão. 

Queridos irmãos e irmãs: a festa da Páscoa não é uma comemoração de acontecimentos passados. Cristo nossa Páscoa está ressuscitado e vive para sempre! Ele é o mesmo ontem, hoje e por toda a eternidade e, pelo poder que o Pai lhe deu de dar vida aos que n’Ele creem em qualquer tempo e lugar, Ele vem hoje realizar a Páscoa para nós e connosco. Para isso nos reuniu nesta assembleia festiva. Assim, irmãos e irmãs, alegremo-nos, alegremo-nos no Senhor que, por seu amor e graça, nos convida a celebrar e a viver da sua Páscoa neste ano de 2017.

2. É Quinta-feira Santa. Celebramos a Última Ceia de Jesus com os seus apóstolos. Jesus sabia que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai morrendo crucificado, sabia que saíra de Deus e que para Deus voltava, sabia que o Pai lhe dera toda a autoridade, sabia que era o Mestre e o Senhor. Sabia também que Judas O estava atraiçoando, que Pedro O negaria e que todos os outros apóstolos O iriam abandonar e fugir no momento da sua prisão. Sabia também que estes homens que Ele chamara e ensinara e que O tinham seguido confiantes até ali não compreendiam nem as suas palavras nem os seus gestos porque traziam dentro de si os critérios do mundo e lutavam entre si para conseguirem os primeiros lugares. Precisavam de receber o Espírito Santo para serem transformados e assim poderem entender, viver e proclamar a sabedoria de Deus manifestada no mistério da Cruz. De outro modo, como seria possível a comunhão entre eles, como poderiam eles anunciar ao mundo a vida nova, a nova justiça trazida pelo Messias? O tempo de Jesus neste mundo estava a chegar ao fim e os apóstolos não entendiam nada do que se estava a passar ali, naquela sala, naquela Ceia. Jesus viera para plantar no mundo a comunhão divina e, naqueles que eram os seus mais próximos e tinham convivido mais de perto com Ele e estavam agora ali, sentados com Ele à mesa, só via ignorância, desconversa, incompreensão, divisões.

3. Queridos irmãos e irmãs: quantas vezes se terá repetido essa mesma situação nas nossas paróquias e nas nossas comunidades, também nas celebrações da Eucaristia! Quantas pessoas de relações cortadas por razões fúteis e mesquinhas que não foram iluminadas pela Caridade de Deus! Quanta competição e quantos jogos de interesses em que a cumplicidade substitui a Caridade, em que a soberba substitui a humildade, e em que o espírito do mundo ocupa o lugar do Espírito de Deus! Quantas situações de inveja nas nossas paróquias e comunidades que, em vez de serem luz do mundo e sal da terra são apenas mundo e paganismo revestidos de cristianismo! Quantos e quantas pessoas trabalham na Igreja não como quem perde a vida mas como quem a ganha, procurando fazer carreira, lutando pelos primeiros lugares, tudo ao contrário do que Jesus fez e ensinou! Desabafava comigo um padre de outra diocese dizendo: na minha paróquia tenho muita gente para chefiar e mandar e muito pouca para obedecer e trabalhar. Porquê?

4. Para ajudar os seus discípulos, para os ajudar a abrir os olhos de modo a poderem ver tudo com um novo olhar, Jesus começou a lavar os pés aos discípulos. Aquele que, por ser Quem é tem em tudo o primeiro lugar, fez-Se escravo de todos por amor. Aquele que sendo Deus não veio para ser servido mas para servir e dar a vida, ocupou o último lugar. Lavar os pés a alguém é colocar-se abaixo daquilo que o outro tem mais baixo, é considerar os outros superiores a si, é não buscar o próprio interesse nem a própria glória, é ter os mesmos sentimentos do Senhor que por amor de nós se esvaziou a si mesmo e Se tornou servo obediente até à morte e morte de Cruz.

A Pedro que Lhe resistia, Jesus disse que não poderia estar em comunhão com Ele se não o lavasse. Se não deixamos que Cristo nos lave, queridos irmãos e irmãs, não poderemos experimentar a maravilha que é vivermos em comunhão com o Senhor. Sim, é verdade que o Senhor já nos lavou sacramentalmente nas águas do Batismo. Mas vivendo neste lamaçal do mundo em que a nossa veste branca tão facilmente se mancha, sempre precisamos de que o Senhor nos lave no arrependimento dos nossos pecados e no sacramento da Reconciliação. Deixemo-nos lavar por Cristo, Servo humilde, para termos comunhão com Ele. E, por Ele e n’Ele, com a Santíssima Trindade!

5. Mas Cristo, o Senhor e o Mestre, manda-nos também que lavemos os pés uns aos outros, que ocupemos o último lugar, que sejamos servos e escravos por amor. A Igreja, para que possa dar ao mundo aquilo que o Senhor tem para lhe oferecer, não pode estar mundanizada. Certamente que o sabemos, mas é preciso que o ponhamos em prática. Para isso, precisamos do Espírito de Jesus pois, sem Ele, não poderemos realizar as suas obras, que são as mesmas obras do Pai. A comunhão da Igreja, na qual se manifesta aquele amor que triunfa sobre a morte, só é possível porque Cristo ressuscitado aparece no meio de nós. Trata-se de uma realidade sobrenatural mais que natural, divina mais que humana, espiritual mais que psíquica. A caridade fraterna é obra do Espírito Santo em nós, do Espírito que só Jesus, vencedor da morte, nos pode dar.

6. Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! Que pequeninos e indignos somos nós para tal empreendimento! Amar como Ele nos amou, amar como Ele nos ama! Ele deu a sua vida por nós quando éramos seus inimigos, malvados e pecadores! Como será possível nós amarmos assim, dando a vida pelos nossos inimigos? 

Irmãos e irmãs: como Santo Agostinho ensinou, oremos cheios de confiança: Senhor dá-nos o que mandas e manda o que quiseres! Dá-nos, senhor, a graça de reconhecermos e de recebermos o teu amor e poderemos amar-Te sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, como Tu nos amas! 

Não olhemos para as nossas limitações nem reparemos na nossa pequenez. Aquele que nos manda amar é justamente o Verbo de Deus para Quem dizer e fazer são a mesma coisa. É grande e poderoso Aquele que nos dá o mandamento e que apenas precisa de que, pela fé, nos disponhamos a colaborar com Ele..

Que o gesto litúrgico do Lava-pés que agora vamos fazer, queridos irmãos, se grave em nossos corações para que, como deve ser, aquilo que celebramos na igreja, por obra do Espírito Santo se realize plenamente em nossas vidas.

+ J. Marcos



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