quarta-feira, 5 de abril de 2017

De Parapente

Que fascinante será poder voar de parapente! Vejo os desportistas lançarem-se das arribas da Ericeira e ficarem a pairar, ao sabor do vento e da própria vontade. É talvez o tipo de voo que mais se assemelha ao das aves, mas com uma enorme diferença: para as aves, basta usar o instinto, pois voar faz parte da sua natureza; para o homem, embora também na posse de reações instintivas, isso não chega. A sua inteligência e vontade superam em muito as capacidades corporais, dando-lhe “asas” para voar.

Para fazer parapente, é necessário seguir um curso de um ano e sujeitar-se ao exame e à avaliação dos instrutores. O “parapentista” deve ser disciplinado, meticuloso e, sobretudo, sensato e prudente. Sem estas virtudes, a prática deste desporto é perigosa. Aproveitemos estas “brisas” favoráveis para deixar o nosso parapente voar pela vida quotidiana e pensar, por exemplo, como seria útil a existência obrigatória de cursos de um ano para noivos. E se os “instrutores” pudessem avaliá-los e impedir alguns de se “lançarem” numa aventura que, preveem, poderia ter um desfecho triste.

Este desporto é perigoso e deve ser sempre praticado em grupo – não nos devemos esquecer de que o casamento também necessita do apoio da família alargada e da sociedade.

No alto, o frio é muito e aumentado pela imobilidade dos desportistas. Ali, sentado numa cadeirinha que inclui uma proteção contra o frio, semelhante a um saco cama, quase não se transpira. Um capacete especial protege a cabeça de possíveis impactos. Zenão, o amigo que me informa das suas aventuras, gosta de sentir no pescoço as mudanças de temperatura e do sentido do vento. Ele confidencia-me que, quando sente mudar o humor da mulher, a leva a jantar fora, assim como ela lhe costuma preparar uma cerveja fresca se o vê chegar a casa cansado.


Reparo na forma meticulosa como o parapente está disposto no chão e numa série de aparelhos desconhecidos. A actividade do grupo é grande. O sofisticado GPS dá-lhes a leitura de várias coordenadas, pois é vital conhecer a latitude, longitude, altitude e altura. A altura dá a informação da distância do desportista ao solo, que pode ser de poucos metros, ao sobrevoar um monte de 1500 metros de altitude; deixar de prestar atenção aos pormenores de delicadeza, pode levar à rotina, ao desleixo e à deterioração das relações familiares.

Também levam um pequeno rádio com apenas dois comprimentos de onda; um permite o contacto permanente entre os parapentistas no ar, e o outro liga cada um deles à pessoa que o deve acompanhar no solo e tem a responsabilidade de o recolher no final do voo.

No momento do lançamento, os voadores esperam pelos seus companheiros. Quando já estão todos no ar, começam a separar-se segundo os seus gostos e capacidades. Um voo pode durar horas, exigindo, claro, provisão de alimentos. Depois, o silêncio vai aumentando e os olhos descobrem “um mundo novo” que convida à meditação. Os encontros variam com a altitude e não se limitam a aves e insectos. Voando relativamente baixo, os helicópteros podem representar um perigo real.

Zenão diz-me que nunca se aventura sem tomar as devidas precauções: avaliar o estado do tempo e da sua alma; se algum deles não está “em condições”, não arrisca sair. Espera por um dia de sol com vento fraco e, sobretudo, uma boa confissão. Imaginei-o, então, a entrar numa corrente térmica, isto é, as colunas invisíveis de brisas ascendentes de calor e que os parapentistas aproveitam para subir. Usam-nas como se fossem elevadores e, à semelhança das gaivotas, dão voltas no seu interior até alcançarem a altura desejada. Na vida, diz Zenão, serve-se dos retiros espirituais para ganhar altitude na sua vida interior e chegar ao Céu.

É assim que, graças à conversa com Zenão, este artigo vos chegará de parapente.

Isabel Vasco Costa



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