sexta-feira, 31 de março de 2017

Mortificação

No ano em que celebramos o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, o Papa Francisco falou do uso do cilício. Disse que o usara na sua juventude, como era costume dos jesuítas, e que só lhe fizera bem. Encorajava os sacerdotes a voltar generosamente ao seu uso.
 
É necessário coragem para falar de mortificação no séc. XXI; e coragem não falta ao Papa. Também não faltou coragem a Nossa Senhora que veio pedir a três crianças para rezarem e se mortificarem para consolarem Nosso Senhor e converterem os pecadores. Sim! Estamos a falar de mistérios: o sofrimento das crianças, o poder da oração e dos sacrifícios... Estamos a falar, sobretudo, de amor e vontade. Logo na primeira aparição, a 13 de Maio de 1917, a Virgem Maria pergunta aos pequenitos “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”1 Eles responderam que sim, por palavras e obras. Imediatamente começaram a descobrir mortificações e a revelá-las uns aos outros: as urtigas que picavam; o prescindir da merenda que começaram por distribuir pelas ovelhas e a dar a uns pedintes, depois; a corda que encontraram no chão, dividiram pelos três e usaram como cilício até fazer sangue; suportar as perguntas intermináveis das visitas curiosas; sofrer a desconfiança e as incriminações dos familiares que os culpavam de ser a causa da ruína das suas propriedades, agora espezinhadas pelos peregrinos... Mais tarde, já o Francisco e a Jacinta estavam doentes, Nossa Senhora voltou a visitá-los. As palavras são da Jacinta: ”Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco, muito breve, para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus.”2

No começo da Quaresma, é oportuno recordar estas verdades: Jesus salvou-nos sofrendo por nós. O sofrimento torna-nos semelhantes ao Salvador, ao próprio Deus, porque manifesta o nosso amor e nos capacita para amar cada vez mais, a Deus e ao próximo. É difícil? Sim! E é muito gratificante, dá paz e alegria a quem quer sofrer por amor. Deus não pede a todos o mesmo. S. Josemaria Escrivá, que pregou o chamamento de todos à santidade, convidava os fiéis comuns a fazer pequenas mortificações. A sua preferida era “sorrir”. Dizia que o sorriso pode ser heróico, escondendo preocupações, dores, sono, ressentimentos, humilhações...Mas há muitas mais: deitar-se e levantar-se a horas; deixar as coisas arrumadas: a mesa de trabalho, a cozinha, o quarto de banho (lavatório limpo), a roupa, os brinquedos, os sapatos, as luzes apagadas; terminar todos os trabalhos; colaborar na limpeza da casa; guardar silêncio; visitar doentes moribundos, ajudando-os a viver esses momentos com a dignidade própria de pessoas, rezando com eles jaculatórias como “Jesus, confio em vós”, “Jesus, misericórdia” que são apropriadas para a hora da morte.

Afinal, a mortificação é uma manifestação própria do amor.


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[1] “Pastorinhos de Fátima”, M. Fernando Silva, Paulinas
[2] “Memórias da Irmã Lúcia” I, III, nº2, pg. 43, citado em “Pastorinhos de Fátima”, pg. 321
 



Isabel Vasco Costa



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