quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eutanásia

(a morte duma sociedade, duma cultura e duma civilização)

Se pensa bater no cão, esqueça que é crime, mas se quer libertar-se do seu velho/a não se preocupe que tem aí umas mentes brilhantes a facilitarem-lhe a decisão e vai até ser elogiado por tamanha faceta ultramoderna, com laivos de pós-verdade e de politicamente correcto, barbaridades com que alguma comunicação social pensava que ia formatando a nossa cabeça e o nosso coração.

Com a evolução dos conhecimentos científicos, tecnológicos e médicos que nas últimas décadas o mundo conheceu, é absolutamente surpreendente e inaceitável que as pessoas com doenças terminais ou muito graves ainda morram no meio de dores insuportáveis e de situações de extrema angústia, quando poderiam e deveriam ter à sua disposição cuidados médicos e humanos já existentes cujo fim é eliminar ou minorar o sofrimento, confortar-lhes a alma, dar-lhes carinho e companhia nos momentos finais de espedida da vida. 

Independentemente do credo, da ideologia ou da corrente política e filosófica que cada um de nós perfilhe (ou até nem perfilhe), a questão da eutanásia ou da morte assistida coloca à nossa consciência individual e à sociedade em geral o problema de saber se, perante a dor terminal própria ou alheia, é lícito pôr termo a essa vida dolorosa, em homenagem à vontade absoluta e íntima de cada pessoa sobre a sua própria sobrevivência. 

Se fomos dos primeiros estados a abolir a pena de morte em 1867, é verdadeiramente lamentável que agora sejamos um dos poucos a querer sofregamente implementar o direito ao suicídio ou ao homicídio, nomeadamente por profissionais de saúde, a quem compete o dever e a honra de zelar por ela, a quem pagam para tratar dos doentes e não para se tornar um assassino. O fim da medicina é curar, apoiar e não matar!

As sociedades que, em nome da tolerância, da pseudo liberdade ou do hedonismo, típicos de grupos políticos ditos progressistas, vão abrindo os seus regimes jurídicos à legalização da eutanásia ou da morte assistida, estão, talvez sem disso terem consciência, a trilhar os caminhos de autodestruição e barbárie, para a destruição duma sociedade assente no valor e na dignidade da vida humana. De relevar que esta determinação não está relacionada com nenhum credo religioso.  

A nossa Constituição que, por acaso é laical e posterior ao 25 de Abril, define a vida humana como “inviolável” e esta expressão quer dizer que a vida tem um valor absoluto e não pode ser condicionado por quaisquer outros factores ou pressões partidárias, económicas ou políticos, estrategicamente manobradas com o aval de alguma comunicação social.  

O caminho mais racional e democrático não seria desenvolver e fomentar uma maior assistência na dor, no acompanhamento do doente, com carinho, conforto e serenidade nos momentos finais da existência?

Creio que sim, mas a miragem do comércio com a morte e da subserviência a algumas forças destruidores ao serviço duma política manipuladora e degradante é-lhes mais favorável.

Manuel Maria de Vasconcelos


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