quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eutanásia? Não. Vida.

As vezes, penso sobre a eutanásia. Ouvi um programa na televisão. Leio alguns textos que me aparecem no facebook. Ouço algumas pessoas falarem do assunto. Não tenho respostas muito bem fundamentadas. Não sou perita em direito, nem tenho dotes de filosofia.

Tenho sérias dúvidas sobre muitos assuntos porque compreendo diferentes opiniões. Parece-me que este é um daqueles assuntos que não podemos simplesmente personalizar ou, noutro extremo, achar que podemos criar uma teoria de liberdade individual, em que cada um faz o que lhe apetece. Porque a vida do outro também me diz respeito.

Apesar de não saber esgrimir argumentos de alta elevação, como os médicos, os cientistas e os advogados e filósofos, tenho de vos falar deste assunto. Para mim, e daqui não me movo certamente, a vida é um dom supremo. Acima de todos os outros. Cada vida é um tesouro irrepetível. Todas as vidas. Como já escrevi noutros textos. A minha, a da minha vizinha, a da minha amiga, a do Presidente da República, a de cada emigrante que atravessa o mediterrâneo, de cada sírio que morre bombardeado. A vida dos que lutam por uma cura. A vida dos doentes que já desistiram da cura. Cada vida. Toda a vida.

A grande aventura da vida é encontrar o lugar para a nossa existência, é descobrir o que temos a fazer com o tempo da nossa vida. Tudo ainda fica mais complicado, quando a vida nos pede para darmos algum tempo da nossa vida a cuidar de uma outra vida, cujo tempo está irremediavelmente comprometido. E tudo ainda fica pior, quando a vida nos pede que nos deixemos cuidar totalmente, sofrendo as dores de uma doença que chegou cedo demais. Eu não sei falar disto.

Cada pessoa tem uma história e cada história entrelaça noutras histórias. Cada pessoa tem a responsabilidade de cuidar sempre das vidas que tocam na sua. Seja dando um agasalho, seja telefonando a convidar para jantar, seja levando um presente no Natal, ou dizendo “Bom dia, como está?”. Mas cuidar dos outros também é aceitar que cuidem de nós, aceitar que damos trabalho, que precisamos dos outros, que não somos nada se não nos dermos, se não recebermos dos outros. Desde que nascemos até que morremos. Tempo ininterrupto.

A minha mãe morreu com Alzheimer. Esteve uns bons anos doente, para além de toda a vida ter sofrido com bronquite asmática. O Alzheimer levou-lhe a asma, o sorriso, a conversa lúcida, a memória do agora. O meu pai teve a oportunidade de escolher. Não quis ajuda. Tratou dela sozinho. Muitas vezes, em silêncio, sem se queixar.

Se me perguntarem se não foi melhor que Deus a tivesse levado no momento em que foi, pois a situação ia tornar-se muito complicada, tenho a certeza que tanto eu, como o meu pai, responderemos igual- sim. Mas a minha mãe morreu porque chegou a sua hora, não foi ninguém que o determinou, não foi o meu pai que decidiu, não foi o médico.

A doença da minha mãe levou-a muito cedo para longe de nós. Mas fez do meu pai um grande homem, muito mais sensível, muito mais doce, mais humano. A doença da minha mãe deu ao meu pai a oportunidade de amar verdadeiramente, sabendo que ela nunca lhe poderia dar nada em troca.

A doença da minha mãe fez-me amá-la ainda mais, admirar e amar ainda mais o meu pai. Quando olho para trás, o que recordo do meu pai é sobretudo a forma como cuidou da minha mãe. Nada é por acaso.

Rita Gonçalves
Licenciada em
LLM Estudos Portugueses e Franceses
Mãe



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