sábado, 18 de fevereiro de 2017

Consciência

O Papa Bento XVI afirma que “A unidade do homem tem um órgão: a consciência”. Os filósofos gregos já se tinham apercebido de como é difícil para o homem agir como pensa. Para se explicarem, faziam a comparação com um auriga, cocheiro que conduzia o carro grego puxado por dois cavalos. O auriga deveria conduzi-los com habilidade de forma a mantê-los paralelos e ao mesmo ritmo, de modo a não chocarem um contra o outro e a não se afastarem do eixo (o que poderia provocar acidentes). Também o homem deve saber conduzir a sua vida com harmonia, sabendo manter o equilíbrio entre o dever e o apetecível, entre o gosto pela aventura e a prudência, entre o intelecto e o físico... entre o corpo e o espírito. Onde ir buscar a chave da sabedoria esse prémio que é o equilíbrio, a unidade do homem? À consciência, responde Bento XVI, mas à consciência bem formada.

A palavra consciência tem, no início do séc. XXI, dois significados. O Papa alemão explica-nos que “para S. Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um só homem. Mas, atualmente, a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não poderia haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem, como tal, não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito (...).”

Como se vê, os dois conceitos opõem-se. No primeiro, a verdade e o bem podem ser intuídos pelo homem que percebe, nas outras pessoas, os seus mesmos interesses, inclinações, sofrimentos, alegrias... A Verdade não lhe é totalmente acessível, mas tem a esperança de poder aproximar-se dela se buscar essa Verdade, Deus. O próprio Deus se dá a conhecer a quem o busca sinceramente. No segundo conceito, apenas baseado na razão de cada sujeito, isso nem faz sentido, pois “que busca é essa que nunca pode chegar à meta?” De facto, se tudo é relativo (segundo cada pessoa), a Verdade não existe; não se procura aquilo que se sabe não existir. O Papa continua: “Mas não será antes uma arrogância dizer que Deus não nos pode dar o presente da Verdade? Não será desprezar a Deus afirmar que nascemos cegos e que a Verdade não se coaduna connosco?... A verdadeira arrogância consiste em querer ocupar o posto de Deus e querer determinar quem somos, que fazemos, que queremos fazer de nós e do mundo.”

Este Papa põe o dedo na “ferida intelectual” do homem pós moderno. Com medo de ter de aceitar Deus, ele perde a capacidade de raciocinar com coerência e... mente a si mesmo, abafando, assim, a voz da sua consciência e tornando-se cego para as realidades da vida humana. O homem pós moderno já não vê que o aborto e a eutanásia são assassinatos, embora em diferentes fases da vida humana; já não vê a injustiça do adultério; já não vê a desumanidade que representa o desinteresse pelos filhos; já não vê a alegria dos doentes que são visitados por familiares e amigos... O Papa Francisco tem visto tudo isto e anima-nos a abrir os olhos da nossa consciência.

Isabel Vasco Costa



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