quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um homem tramado

1 – Enquadrando o nascimento de Jesus na encenação do que era a vida quotidiana do povo, de acordo com a estética barroca e a espiritualidade inaciana, o presépio tradicional português afirma claramente que a vida das pessoas e da sociedade tem um centro e uma fonte que as ilumina e perspetiva: Jesus Cristo Salvador, o Emanuel, o Deus connosco. Mas essa mesma encenação tornou o presépio visualmente muito ruidoso: além dos anjos, dos magos com seus camelos e dos pastores com suas ovelhas, ali vemos representadas as diversas profissões, mulheres lavando a roupa no ribeiro e os patinhos a nadar junto da pequena ponte; mais além, os homens na taberna e o moleiro com o burro carregado de sacos de grão a caminho do moinho; do outro lado, num recanto, a mulher que vai à fonte e a matança do porco, enquanto desce ordeiramente pela rua a procissão com banda de música e foguetes. Os olhos passeiam-se em todas as direções, e naquela exuberante catadupa de imagens tudo respira e transpira alegria e festa. Contrastando com toda esta animação, a figura de Jesus na manjedoura está envolvida de silêncio pela presença muda da vaca e do burro e pela adoração e interioridade de Maria e de José. 

Quem é José? Como o seu homónimo filho de Jacob, é o homem dos sonhos. Deus revela-lhe a Sua palavra durante o sono. O Evangelho deste quarto domingo do Advento coloca diante de nós o anúncio a José, ou seja, a evangelização deste homem discreto, justo e silencioso, pela qual lhe é revelado o desígnio de Deus que ele abraça com prontidão. Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu Maria sua esposa. 

2 - Acolhendo a mensagem do anjo, José ficou tramado no desígnio de Deus. Escutou dormindo mas respondeu acordado, aceitando a eleição divina e obedecendo à Sua vontade. Não se revoltou, não discutiu, não protestou, não reivindicou o direito a viver a sua vida como tinha planeado, não negociou condições. José escuta e obedece. Recebe como ordem divina aquelas palavras do Anjo que não eram uma ordem mas um convite. Essas palavras do anúncio, ao iluminá-lo acerca da gravidez de Maria revelam-lhe também que Deus o escolhera para ser o pai adotivo do Seu Filho a Quem ele, José, poria o nome de Jesus. Era necessário que o Filho de Deus tivesse uma família onde pudesse crescer e tornar-se adulto, e José foi escolhido por Deus para ser o chefe dessa família única, a primeira família do Novo Testamento, imagem e modelo de todas as famílias cristãs e da própria Igreja. 

Os evangelistas não registaram dele uma única palavra. O silêncio orante deste homem contemplativo, servidor diligente e humilde da Encarnação do Verbo de Deus juntamente com Maria, foi a moldura justa e necessária para que Jesus, a Palavra Encarnada, desabrochasse humanamente. Tal como Maria sua esposa, José aceitou livre e amorosamente ser tramado, quer dizer, ser integrado neste tecido que é o desígnio de Deus a realizar-se. Mas como facilmente se depreende de tudo o que nos é referido acerca dele, José não se tornou uma pessoa tramada, difícil, complicada, ressentida e azeda. Não viu Deus como seu adversário, não duvidou do Seu amor e pôs-se inteiramente ao Seu serviço como servo fiel e prudente à frente da Sua casa. E o Senhor confiou a este homem justo os maiores tesouros: o Filho de Deus feito homem e a Virgem sua mãe. A nós, pastores da Igreja, também.

3– Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio do profeta que diz: A Virgem conceberá e dará à luz um filho, chamado Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. 

A Virgem grávida! Eis o sinal de esperança que, do Génesis ao Apocalipse percorre a Sagrada Escritura, e a História da Humanidade. Quando tudo parece desaguar na morte, a miraculosa fecundidade da mulher, a Virgem grávida, é o sinal de que há futuro porque Deus está connosco. Há tanta gente que pede milagres e sinais e tenta a Deus, e não consegue decifrar os sinais que Deus generosamente coloca diante dos seus olhos. A Virgem grávida, hoje, é a Igreja, posta no mundo como sinal, como Sacramento de Salvação. Este é o grande sinal de esperança oferecido por Deus aos homens. Mas quem repara nele? Muitos rejeitam este sinal incómodo porque convida a mudar de vida. Defendem-se dele e hostilizam-no, mas não conseguem destruí-lo porque Deus o defende. Têm-no diante dos olhos e não o sabem interpretar. De facto, o sinal precisa da palavra que o explicite. José precisou de ser evangelizado, de receber o anúncio do anjo para compreender o sinal e aceitar, sem medo, o desígnio de Deus a seu respeito. Assim também nós.

4 – Nas representações mais antigas do nascimento de Jesus, José é representado, não na gruta, junto de Jesus e de Maria, mas numa extremidade da cena, sendo tentado pelo demónio na figura de um pastor que lhe diz: estás tramado! Tens de criar um filho que não é teu! Nada disto faz sentido: onde é que já se viu uma virgem dar à luz? Dá um pontapé nesta história e vive a tua vida como qualquer outro homem! José vence a tentação arrancando do fundo do seu silêncio esta certeza: É verdade! Sou um homem livremente e por amor tramado para que Deus tenha lugar no mundo e assim possam despertar do sono e destramar-se do mal aqueles que se julgam livres e felizes no seu egoísmo, tramando os outros. Possamos dizer isto, com verdade, nós também. 

Meus queridos irmãos e amigos: a todos vós, tramados pelo Espírito Santo com Jesus, Maria e José na vontade amorosa do Pai, desejo um santo Natal.

+ J. Marcos


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