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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ontem à noite, direto de Roma, a primeira audiência do cardeal com a Royal Comission sobre os abusos do clero australiano.

O prefeito para a Economia jura sobre a Bíblia e rejeita as acusações de encobrimento

  Igreja e Religião

Catholic Church England and Wales

Jura sobre a Bíblia dizer toda a verdade, o cardeal George Pell, antes de responder às perguntas da “Royal Commission into institutional Responses to Child Sexual Abuse”, a Comissão de investigação sobre as respostas das instituições aos abusos sexuais a menores nos anos 1970 e 1980, na Austrália. Antes, porém, o prefeito da Secretaria para a Economia faz uma premissa: “Deixe-me só dizer isso, como uma esclarecimento inicial, e que eu não estou aqui para defender o indefensável. A Igreja tem cometido grandes erros e está trabalhando para resolve-los”.

“A Igreja – acrescenta Pell – em muitos lugares, certamente na Austrália, negligenciou as coisas, deixou que as pessoas caíssem. Não estou aqui para defender o indefensável. Os defeitos foram em sua maioria pessoais, fracassos pessoas, mais do que de estrutura. No passado havia queixas razoáveis sobre abusos, mas o uso comum era de não relatá-los à polícia”.

O cardinal tem o seu interrogatório em hang-out do Hotel Quirinale da Via Nazionale, em Roma. A Comissão Real o havia convidado a visitar a Austrália para prestar depoimento, mas o prelado não pôde realizar uma viagem ao exterior. Problemas de hipertensão e doenças cardíacas, diz um atestado médico.

A audiência com a Comissão na sessão em Ballarat, em Melbourne, aconteceu na Sala Verdi do conhecido hotel, preparada para a ocasião ao vivo em áudio e vídeo. É a primeira de três audiências. Começou às 22 e terminou por volta das 2 da madrugada (horário de Roma). O prelado foi interrogado pelo legista da comissão Gail Furness, que começou o interrogatório perguntando a natureza do seu cargo no Vaticano.

“Algo equivalente a um tesoureiro”, respondeu Pell. Em seguida começaram as recordações a partir dos anos 70, quando era vice-pároco e um dos consultores do bispo Ronald Mulkearns na diocese de Ballarat com a “responsabilidade de aconselhar o bispo sobre a nomeação dos sacerdotes nas paróquias”. Passou, então, para 1987, quando foi nomeado, ele mesmo, bispo e no período de 1996-2001, com o cargo de arcebispo de Melbourne.

Na primeira fila, a “olhar nos olhos” do cardeal, com camisolas vermelhas que diziam “No More Silence”, havia um grupo de 15 pessoas. São o “Ballarat Survivors Group”, vítimas de abusos por membros do clero, liderados pelo porta-voz Andrew Collins e acompanhados por três psicólogos encarregados de dar-lhes assistência em uma eventual crise emotiva. Porque “não será fácil ver os símbolos do catolicismo em toda parte. Os hábitos, os crucifixos…”, como disse um dos sobreviventes em um chat durante a viagem a Roma.

Viagem que foi financia através de uma campanha de crowdfunding via web, na qual se pedia levantar pelo menos 55.000 dólares australianos ($ 39.000) para as despesas. Foi arrecadado 130 mil; todo o dinheiro excedente – informa o site – será doado para um instituto de serviço de saúde mental na diocese de Ballarat.

Precisamente a cidade natal de Pell está no olho do furacão, como palco de vários casos de abusos de menores entre os anos 60 e 80 e, consequentemente, suicídios entre as vítimas: 47 no total. Em Ballarat, só o Instituto dos “Irmãos Cristãos” foi chamado a responder por uns 850 crimes, com 281 religiosos envolvidos; a instituição até hoje teve que esvaziar os caixas e pagar 37 milhões de dólares de compensação. Mas, de acordo com o grupo, não é suficiente: estes mortos continuam a gritar justiça.

Em Ballarat, Pell tornou-se vigário apostólico encarregado de supervisionar a educação, em 1973. Em 1977, tornou-se parte do conselho da diocese de Melbourne que ajudava o bispo Mulkearns nas nomeações dos sacerdotes nas paróquias. De 1996 a 2001, ele foi arcebispo da diocese.

Durante o interrogatório, a Furness questiona duramente sobre o padre Gerald Ridsdale, o clérigo acusado por 138 casos de abusos sexuais pelos danos causados a 53 vítimas realizados por duas décadas e que actualmente está cumprindo pena em uma prisão. O seu nome rodou por muito tempo entre as paróquias, mais do que entre os departamentos policiais, e continuou a cometer crimes na diocese.

O Cardeal – que conhecia o sacerdote desde os tempos do noviciado e que o acompanhou também na sua primeira audiência do processo de julgamento do ano 93 – afirma que não sabia, na época, dos horrores cometidos por Ridsdale; admite, no entanto, que “foi uma catástrofe” não tomar providências contra ele e também acreditar na versão dos sacerdotes culpados mais do que na das vítimas que os acusavam. “Tenho que dizer que naquela época, se um sacerdote negava este tipo de comportamentos, eu era fortemente inclinado a acreditar nele”. 

Em seguida tocou-se no nome do padre Paul David Ryan, mas o prefeito para oa Secretaria da economia diz secamente: “Não tenho certeza de que Ryan fosse  pedófilo, eu não sou especialista sobre Ryan. Não tive muito a ver com a sua história”. Depois monsenhor John Day; sobre ele Pell disse que “a Igreja foi influenciada pelo fato de que algumas das acusações contra ele tinham sido retratadas”. Por fim, Edward Dowlan, professor no Colégio St. Patrick, uma das escolas dirigidas pelos Irmãos Cristãos, acusado de crimes sexuais em 20 meninos e condenado a 6 anos de prisão, também de domínio público na escola. O cardeal rejeita as acusações de encobrimento: “Eu tinha ouvido alguns rumores de comportamentos inapropriados” nos anos 70, diz, “concluí que fossem comportamentos pedófilos”.

A audiência vai continuar esta noite às 22:30, (horário de Roma). Esta manhã, no entanto, o cardeal prefeito foi recebido em audiência pelo Papa para uma das reuniões regulares com os chefes dos Dicastérios. Difícil imaginar que no colóquio se fale só dos orçamentos da Secretaria.

O nome de Pell, entre outras coisas, ressoou várias vezes entre os muros leoninos no último período. O primeiro a tocar no seu nome foi Peter Saunders, vítima de abusos, bem como um dos membros proeminentes da Pontifícia Comissão para a Protecção das Crianças, afastado do cargo “com umas férias não remuneradas”, como disse a Santa Sé; e depois demitido sem aviso prévio, como declarou ele mesmo.

Convidado no ano passado para o programa de televisão australiano 60 minutos, Saunders acusou o cardeal, indicado como “sociopata” que “está tomando a comissão do Papa e das Vítimas”. A ex-vítima exigia a renúncia do cardeal de suas posições importantes no Vaticano. A Secretaria para a Economia rapidamente respondeu definindo “falsas e enganosas” estas acusações e também os bispos australianos haviam tomado partido par defender o então arcebispo Sydney.

Como se não fosse suficiente, cerca de dez dias atrás, um jornal australiano acusou Pell directamente de abusos de uma jovem de 15 anos, durante um acampamento de verão em Philipp Island, em 1962, citando os relatórios de uma investigação da polícia do Estado de Victoria. “Acusações sem fundamento e absolutamente falsas”, sentenciou o cardeal. Em uma nota, o seu departamento resumia o “relatório Southwell,” uma investigação independente da Igreja, que exonerou o cardeal. “Os encargos relacionados com Phillip Island são públicos há 15 anos e o relatório Southwell que exonera o cardeal Pell é de domínio público desde 2002”, se lê.


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