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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Espiritualidade ecológica

1. Ecologia integral
A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem, lemos na encíclica Louvado sejas (n. 138). O ser humano, dotado de capacidades reflexivas, deve pensar e orientar a sua vida, corpo e espírito, em todas as relações, sem excluir nenhuma. Nos capítulos IV e V da encíclica o Papa Francisco menciona e descreve todas essas relações, mostrando a sua importância para a realização plena e harmónica do ser humano.

A ecologia ambiental, económica e social estão interligadas. Nenhuma pode ser excluída em benefício de alguma delas. A exclusão de alguma dessas relações ou de algum membro da nossa sociedade é um empobrecimento da realidade e tem repercussões no bem integral do todo. Por isso, como seres dotados de inteligência, criados à imagem e semelhança de Deus, foi-nos confiado o cuidado de toda a criação. O nosso próprio bem depende do todo que nos envolve.

O desenvolvimento económico, desligado de todos os outros aspectos, procura apenas o maior lucro, o mercado, sem ter em conta o desenvolvimento humano e social e sem preservar o ambiente. A técnica ao serviço da economia causa muitos estragos ao ambiente e lança muita gente para o desemprego. Como já foi dito nestas considerações sobre esta encíclica, o trabalho faz parte da realização da dignidade humana. Um desenvolvimento sem consideração da dignidade da pessoa torna-se desumano. É preciso saber colocar a técnica ao serviço da pessoa e não ao contrário. Já D. José do Patrocínio Dias, o bispo soldado de Beja, dizia que uma máquina ceifeira tirava o trabalho a 40 pessoas. O que se fez delas? Muitas ficavam nas praças das aldeias à espera que alguém as contratasse. Outras emigraram. E assim começou a desertificação do Alentejo. Hoje, muitas aldeias estão desertas ou apenas habitadas por idosos. Como rejuvenescer a nossa sociedade? Esta encíclica põe a descoberto muitos dos erros do nosso desenvolvimento desumano. Sem apresentar soluções, pois não é essa a missão da Igreja, no entanto alerta os nossos políticos e empresários a não pensarem apenas no progresso económico e financeiro, depredando e degradando os nossos ecossistemas e tratando muitos seres humanos como descartáveis, lançando-os para as bermas do desenvolvimento tecnológico. A cultura e a justiça intergeracional também devem ser respeitadas.

No capítulo V o Papa apresenta algumas linhas de orientação e ação, como o diálogo sobre o meio ambiente na politica internacional, pensando o mundo como a casa comum de todos. Os acordos internacionais precisam de ser levados à prática, tendo em conta os países mais pobres. É preciso por a politica e a economia ao serviço da vida humana e ter em conta o património das religiões no diálogo com as ciências.

2. Uma educação e espiritualidade ecológicas
O sexto e último capítulo da encíclica aponta alguns elementos e perspectivas para uma educação e espiritualidade ecológicas. Já Aristóteles considerava a admiração como o princípio da filosofia. Faz parte da inteligência humana procurar as últimas causas, os fundamentos de toda a realidade e acontecimentos. Ora essa busca começa pela capacidade de nos admirarmos perante aquilo que nos rodeia e acontece.

Hoje em dia perguntamos mais sobre a utilidade das coisas. Para que servem? Mas este modo de conhecimento não é o mais característico da nossa inteligência. Os seres e os acontecimentos têm a sua beleza e existência própria. Admirá-los, conhecê-los e apreciá-los naquilo que são e não por causa da sua utilidade em relação ao nosso próprio bem estar, pressupõe uma atitude no uso da inteligência e dos afectos que exigem uma educação e uma espiritualidade da nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo. A educação filosófica, estética e espiritual tocam o âmago do ser humano. Infelizmente banimos o cultivo destas atitudes dos nossos sistemas educativos. Deixamos tudo isso às opções de alguns. Os resultados catastróficos estão à vista.

O Evangelho chama muitas vezes a atenção para isso. Olhai os lírios do campo, as aves do céu... A gratuidade do amor de uma mãe, o perdão e o amor aos inimigos, as bem-aventuranças e muitos outros apelos na vida de Jesus, dos santos e dos artistas não são da ordem da utilidade, do consumo, mas da beleza do outro para além de nós. O desprendimento dos bens materiais pelo voto de pobreza dos consagrados também é um forte testemunho no modo de considerar as coisas. Os próprios sacramentos, sinais eficazes do amor de Deus por nós, elevam a matéria, água, pão, vinho, óleo à dignidade da transmissão da vida divina ao ser humano.

Os místicos e os santos, assim como muitos artistas, interpelam-nos para a consideração da beleza da criação. O Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, Louvado sejas, Senhor, que deu o título a esta magna carta do Papa, é uma amostra de como precisamos de nos converter no modo de considerar e lidar com os bens da criação.

Deus Omnipotente, que estais presente em todo o Universo e na mais pequenina das vossas criaturas, Vós que envolveis com a vossa ternura tudo o que existe, derramai em nós a força do vosso amor para cuidarmos da vida e da beleza (n. 246). 

† António Vitalino, bispo de Beja

Nota semanal em áudio:



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