quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Boletim de Espiritualidade Nº5 - Janeiro de 2015



Um Santo Português no Sri-Lanka: o Padre José Vaz

A expansão portuguesa dos séculos XV e XVI produziu um fecundo encontro de culturas e a irradiação do cristianismo por paragens longínquas da África, Ásia, América e Oceânia. Assim, a ilha do Ceilão visitada pelos portugueses desde princípios de Quinhentos tornou-se berço de uma florescente Cristandade, graças ao zelo apostólico de franciscanos, jesuítas, dominicanos e agostinhos.
 
Porém, a conquista pelos holandeses de todas as posições portuguesas naquela ilha, entre 1638 e 1658, arruinou essa Cristandade, dilatada por mais de um século. Com efeito, os hereges concederam aos hindus e muçulmanos templos, ídolos, mesquitas, festas públicas e só aos católicos perseguiram, maltrataram e vedaram o acesso à prática religiosa.
 
É neste adverso enquadramento da Ilha Taprobana que decorreu o apostolado fervoroso e heróico do Padre José Vaz, da Congregação do Oratório de Goa, entre 1687 (ano em que entrou na ilha, disfarçado de mendigo) e 1711 (data da sua morte).
 
Peregrinou, com indizível fadiga e correndo riscos, por vários lugares – Jáfana, Mantota, Vanym, Potulão, Cândia, Columbo, Nigumbo. Diligenciou no sentido de se descobrir aos católicos, sem ser conhecido dos hereges holandeses. Cada ano corria uma vez quase toda a ilha, que tem duzentas léguas de perímetro. E com igual desvelo buscava a muitas almas, como a uma só. Se achava nos caminhos pessoas cristãs que tinham passado muito tempo sem se confessarem, parava ainda que no meio dos matos, ouvia-as de confissão e dava-lhes a instrução possível para que ficassem doutrinadas, confessadas e compungidas.
 
Seguia sempre o mesmo método na realização de uma missão: quando chegava ao lugar, mandava convocar a gente; recitada a ladainha de Nossa Senhora, explicava os actos da confissão para se prepararem para ela. Nos domínios holandeses só fazia exercícios da missão, de noite, aturando no confessionário até às três da manhã; logo depois rezava a missa, dava a comunhão, fazia casamentos e pregava; mas antes de amanhecer acabava todo o exercício e partia para outro; nunca ficava numa paragem duas noites, sem necessidade precisa. E havendo-a, mudava-se duma casa para outra do mesmo território.
 
Ao sair da ermida em que tinha acabado a missão, deixava no altar uma oferta ao ermideiro. Este estava encarregado de ensinar doutrina ao povo, nos domingos e dias santos e fazer-lhes práticas espirituais, lendo aquelas que estavam escritas em livro que cada igreja e ermida tinham. Procurava, dessa forma, assegurar a continuidade da prática religiosa na ausência do sacerdote.
Quando encontrava pedintes pelo caminho, repartia com eles o arroz que levava para a comitiva. Converteu apóstatas na fé, hereges holandeses, gentios... Passou por diversos perigos, tais como ataques de animais ferozes ao atravessar os matos, bastas vezes na senda de cristãos em aldeias isoladas; enormes dificuldades ao vadear os rios e regatos, coalhados de lagartos não menos ferozes; intempéries, calúnias, perseguições...
 
O Padre Vaz realizou alguns prodígios. Em 1697, tendo deflagrado uma peste geral de bexigas, este e os demais missionários foram extremamente caritativos, fazendo o ofício de enfermeiros, improvisando hospitais, confessores, catequistas, cozinheiros, preparando panelões de arroz, coveiros, etc. No lapso de um ano, tempo que durou a peste no mesmo reino, mais de mil gentios se converteram ao catolicismo.
 
É muito fervorosa a devoção pelo Padre José Vaz, em Goa. Milhares e milhares de peregrinos, vindos da Índia, do Sri-Lanka e doutras paragens afluem anualmente ao seu Santuário em Sancoale (Salcete) para participar na sua novena e festa, em 16 de Janeiro. É, sem dúvida, a festividade mais concorrida em Goa, depois da de S. Francisco Xavier.  
 
Passamos a contar com mais um santo – desta feita um santo português – a quem podemos invocar nas nossas preces: o Padre José Vaz que já nos finais de Seiscentos e na primeira década da centúria seguinte, deixava a sua terra natal de Goa “para ir para as periferias”, no dizer do Papa Francisco – primeiro para o Canará e depois para o Ceilão, actual Sri-Lanka. Com efeito, o bem-aventurado Padre José Vaz vai ser canonizado pelo Santo Padre no dia 14 de Janeiro de 2015, no Sri-Lanka. Um testemunho edificante que nos poderá transportar para outras periferias, ancorados numa fé autêntica e fervorosa. 







Maria de Jesus dos Mártires Lopes
Historiadora




Gostava de ser feliz e não sabe como?

A solução é viver cada dia em plenitude, sem aflições ou preocupações mas sim com muitas ocupações…
 
A cada dia seu cuidado, cumprir o pequeno dever de cada instante e agarrá-lo porque nosso é somente o presente, esse fluir de breves e irrepetíveis momentos.
 
O ontem já lá vai e o amanhã ainda não chegou nem sabemos se chegará para cada um de nós.
 
Nada justifica andarmos angustiados ou ansiosos por algo que não existe e, se um dia vier a existir será, certamente, diferente, pois terá outros matizes e novos contextos.
 
O que importa é o Hoje, a capacidade de viver cada momento cumprindo o nosso dever sem adiamentos, falsas desculpas ou vãos projectos.
 
Aqui e agora é tudo o que possuímos, cada dia é único na nossa vida, nenhum é igual mas todos são diferentes.
 
À mística do oxalá devemos dizer não, o passado já lá vai e, por vezes, a nossa imaginação é inimiga e engana-nos com fantasias ou falsas recordações que ampliam ou deformam a realidade e nos projectam para longe do que somos e do que temos.
 
O desânimo não pode fazer parte de nós e as preocupações só aumentam a dificuldade e diminuem a capacidade de cumprir o dever do momento: fazer o que se deve e estar no que se faz de sorriso confiante é uma forma mágica para rentabilizar o tempo e poupar energias.
 
Abracemos a vida que vai passando e não torna a voltar, tal como as águas de um rio que deslizam rumo à foz e não retrocedem, tal como as rosas, assim os dias, nunca se repetem.

Maria Susana Mexia


Os corredores

Os corredores são compridos. Há pessoas a passar, muitas, às vezes demais, mas é quase sempre pior quando são de menos. Há outras paradas, de caras inquietas viradas para a janela (à espera do horário das visitas).
 
Há umas batas brancas que passam sozinhas ou em grupo, devagar ou apressadas, a falar ao telefone ou a falar com os botões. Há doentes que vão para o corredor, andá-lo de uma ponta à outra. Uns porque querem, outros por obrigação. Há uns que passam sobre rodas e há o que vem lá ao fundo, pequenino, de pijama, com o soro atrás dele. Depois chega ao pé de nós (quando esperamos) e afinal ele é grande e o soro é ainda maior.

Nas paredes dos corredores há coisas que mudam, mas há outras que ficam. Mudaram agora os enfeites de Natal, arrumaram-nos. Mudam os posters com os trabalhos dos alunos, os casos interessantes dos doutores, os casos raros do Serviço. Volta e meia pintam-nas, mudam-lhes a cor.
 
Mas ficam as notícias, o inesperado, aquilo que nos disseram (ou que dissemos) e que não queríamos ouvir (mas principalmente, a forma como nos disseram – a forma como eu o digo), a dor que isso provocou, a incerteza, o abandono.
 
Fica o dia em que começou a doer menos. O dia em que descobriram a cura. O momento em que se lhes diz adeus e se vai para casa, de preferência, para não mais voltar. Fica aquela pequena conversa que fez a grande diferença.
 
Fica ele, terno, meigo, enquanto esperamos que chegue, antes pequenino agora grande, de pijama: dá-se uma palavra amiga e aproveita-se para ajustar o soro.

Olá a todos e, embora não tenham conseguido sair do corredor, bem-vindos ao hospital…






Frederica Vian Costa
Médica


Os presentes guardados, a casa vazia...

Os presentes guardados, a casa vazia, a árvore de Natal desmontada, tudo já passou mas Jesus não se despediu de nós… E nós teremos sido já tentados a esquecê-Lo?

Para que isso não aconteça é preciso fazer crescer o Menino que em nós nasceu. Como? É preciso dar-lhe atenção, muito carinho, muito amor, muita entrega, uma entrega total…

Dedicar-Lhe o nosso tempo e, confiantes, vê-Lo crescer em nós.

Os dias continuam curtos, frios e o tempo à lareira, propício à reflexão, é ideal para o contacto com Deus, para a oração sentida. Mas que bom seria também fazê-lo logo pela manhãzinha, antes de sair do quentinho da cama, tornando-se um hábito essa conversa com Deus e, assim, começar o dia com outro sentido, cheios fé e alegria. Serão então dias totalmente diferentes e tudo faremos focados e com muito amor.

Os resultados aparecerão e começaremos a perceber o mundo e a nós próprios de uma maneira diferente, vendo em cada ser e em cada situação uma manifestação de Deus e uma oportunidade de crescermos em direcção a Ele.

À medida que os dias forem crescendo e o sol nos for presenteando, cada vez com mais horas de luz, assim também nós, ao ritmo da naturaza, deveríamos fazer crescer a Luz d´O Menino que em nós nasceu para que na Primavera transborde e possamos ser flores e jardins para todos aqueles que conviverem connosco.

E que tesouro sagrado será a vida cheia desta graça!





Sara Meireles




Pobre, seropositiva, expulsada pelo seu marido… A Cáritas e umas religiosas mudaram a sua vida

Viver com a sida é possível onde há apoio e esperança 

Josepha Habonimana perdeu vários filhos e é seropositiva, mas com a ajuda da Cáritas e missionárias prepara um futuro melhor

Actualizado 21 de Novembro de 2014

Rosa M. Bosch y Álex García/La Vanguardia

Josepha Habonimana é vítima da discriminação numa sociedade patriarcal na qual a tradição manda que os homens herdem a terra.

Josepha foi encaixando as fatalidades que lhe surgiram, por ser pobre e mulher. Com os seus 33 anos deu à luz oito filhos, dois dos quais morreram poucos meses depois de nascer.
"Há tempo comecei a sentir-me muito mal, sabia que tinha tuberculose mas estava tão enferma que no hospital disseram-me que também fizesse o teste da sida. Deu positivo. Os meus filhos mais velhos, de 14 e 12 anos, vivem; o terceiro e o quarto morreram; o quinto é seropositivo, e os três mais novos estão bem", conta enquanto evita que as gémeas que tem nos braços, Misterine e Butoye, de 16 meses, continuem lutando.

Josepha é uma das doze mulheres instaladas temporariamente nas modestas dependências da Fundação Stamm de Kizuka, na província de Bururi, Burundi, em África, onde seguem um programa de formação para tentar ganhar algum dia a sua independência.

O denominador comum destas mulheres é o VIH, ser mães solteiras ou abandonadas pelos seus pares.

"O meu marido, que nunca quis saber se ele também tinha sida, despejou-me de casa com todas as crianças. Disse-me que não podia carregar com uma enferma. Fui e ele juntou-se com outra mulher", relata Josepha, que começou o tratamento com antivirais em 2008, no centro de saúde de Mutumba, na vizinha província de Bujumbura Rural.

Ali conheceu a irmã Emmanuelle Ghioldi, uma monja suíça que está desde 1964 no Burundi e que como directora deste dispensário seguiu a evolução de Josepha.

"Disse à irmã Emmanuelle que queria aprender um ofício e pagou-me os bilhetes de autocarro para que viesse com as quatro crianças pequenos para aqui, onde me ensinaram a ler e a escrever e agora começarei um curso para aprender a elaborar sabão. Os mais velhos estão com a avó e vão à escola."

"O programa dura seis meses durante os quais lhes ensinamos uma especialidade, podem escolher entre a fabricação de sabão ou como explorar uma horta e um rebanho; também lhes oferecemos alojamento e comida. Ao acabar assessoramos-lhas para montar o seu negócio, mas não lhes damos dinheiro", explica Verena Stamm, directora da fundação do mesmo nome.

"Sou optimista - disse Josepha -, quando finalize a formação quero trabalhar e conseguir um alojamento decente para os meus filhos".

Pelo dispensário da irmã Emmanuelle passaram milhares, dezenas de milhares de mulheres com os seus bebés.
Na manhã de 28 de Outubro atenderam três partos e vacinaram mais de sessenta crianças contra a pólio, tuberculose, tétano, hepatite B, pneumonia...

Nesse dia as monjas da ordem de Santa Maria de Schoenstatt estavam de celebração, pois estrearam uma geladeira, alimentada por energia solar, para conservar a uma temperatura estável entre 2 e 8 graus as vacinas.

"No Burundi temos cortes no fornecimento com muitíssima frequência, a alternativa era o petróleo mas provoca muito fumo", comenta a irmã Emmanuelle. Este é um projecto-piloto da Unicef que se prevê estender a outros serviços de vacinação.

Gloriose Maniramba é a enfermeira responsável da consulta de VIH deste centro pelo que cada mês passam 140 mulheres grávidas para ver se se contagiaram. Se é assim começam o tratamento com antivirais. Nesta e outras 84 clínicas apoiadas pela Cáritas detectaram que em dez anos baixou o número de pessoas infectadas: em 2004, 6,9% dos pacientes que chegavam tinha o vírus, percentagem que se reduziu a 2,8%.

Maniramba controla a evolução de Germaine Mtezi, de 35 anos, e do seu marido, Ferdinand Minane, de 43.

Ambos sofreram um calvário até que em 2004 foram diagnosticados de VIH. "O nosso primeiro filho nasceu em 2002 e faleceu os poucos meses. Era um bebé enfermiço mas não sabemos a causa da sua morte. No ano seguinte teve dois abortos e em 2004 apareceu-me uma enfermidade na pele e confirmaram-me que tinha o VIH. O meu marido não aceitou fazer o teste até meses depois, quando começou a sentir-se mal", relata Germaine.

Apesar de tantas desgraças, Germaine estava muito animada com a ideia de ser mãe. Começou um tratamento com antivirais e pouco depois ficou grávida. Zaburo, que já tem nove anos, nasceu são tal como os pequenos Samuel e Adrien.

"Saber que o que tínhamos era a sida foi um alívio", afirma o marido para surpresa dos seus interlocutores. "Sim, sim, é que pensávamos que sofríamos uma maldição. Nós vendemos as duas parcelas para poder pagar a um feiticeiro que rompesse o bruxedo. Por isso, quando nos disseram que era o VIH pensamos que tínhamos futuro", explica Ferdinand, que agora sobrevive com um pequeno comércio e aceitando qualquer trabalho que lhe apareça.

Germaine e a imensa maioria das mulheres burundienses são as que cultivam o campo, ainda que a propriedade é dos homens. Os que herdam são os irmãos varões, entende-se que elas já trabalharão nas terras dos seus maridos, supondo que todas se casem.

E se a descendência só é feminina ou se a esposa enviúva? O normal é que se procure algum familiar masculino para que fique com as propriedades. "A mulher está numa situação de desamparo, o caso mais grave é quando fica viúva e a família do marido a despeja", aponta Pedro Guerra, do departamento de protecção da infância da Unicef.

Guerra recorda o caso de Valérie, uma menina que aos 15 anos viu morrer com poucos meses de diferença os seus pais. Ela ficou vivendo só na casa familiar até que os seus irmãos regressaram para reclamar a quinta.

Como se negou a sair, os irmãos queimaram a vivenda e Valérie encontrou-se só e na rua até que uns vizinhos a acolheram. Valérie revelou-se como uma rapariga esperta: em pouco tempo já era presidente do grupo de microcréditos do seu povo. Agora, com 19 anos, gere uma loja-bar e tem dois órfãos a seu cargo.

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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Papa Francisco: "O tempo gasto junto do doente é um tempo santo"

Texto completo. Mensagem do Santo Padre Francisco para o XXIII Dia Mundial do Doente 2015


Roma, 30 de Dezembro de 2014 (Zenit.org)


Queridos irmãos e irmãs,

por ocasião do XXIII Dia Mundial do Doente, instituído por São João Paulo II, dirijo-me a todos vós que carregais o peso da doença, encontrando-vos de várias maneiras unidos à carne de Cristo sofredor, bem como a vós, profissionais e voluntários no campo da saúde.

O tema deste ano convida-nos a meditar uma frase do livro de Job: «Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo» (29, 15). Gostaria de o fazer na perspectiva da «sapientia cordis», da sabedoria do coração.

1. Esta sabedoria não é um conhecimento teórico, abstracto, fruto de raciocínios; antes, como a descreve São Tiago na sua Carta, é «pura (…), pacífica, indulgente, dócil, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem hipocrisia» (3, 17). Trata-se, por conseguinte, de uma disposição infundida pelo Espírito Santo na mente e no coração de quem sabe abrir-se ao sofrimento dos irmãos e neles reconhece a imagem de Deus. Por isso, façamos nossa esta invocação do Salmo: «Ensina-nos a contar assim os nossos dias, / para podermos chegar à sabedoria do coração» (Sal 90/89, 12). Nesta sapientia cordis, que é dom de Deus, podemos resumir os frutos do Dia Mundial do Doente.

2. Sabedoria do coração é servir o irmão. No discurso de Job que contém as palavras «eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo», evidencia-se a dimensão de serviço aos necessitados por parte deste homem justo, que goza duma certa autoridade e ocupa um lugar de destaque entre os anciãos da cidade. A sua estatura moral manifesta-se no serviço ao pobre que pede ajuda, bem como no cuidado do órfão e da viúva (cf. 29, 12-13).

Também hoje quantos cristãos dão testemunho – não com as palavras mas com a sua vida radicada numa fé genuína – de ser «os olhos do cego» e «os pés para o coxo»! Pessoas que permanecem junto dos doentes que precisam de assistência contínua, de ajuda para se lavar, vestir e alimentar. Este serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e pesado; é relativamente fácil servir alguns dias, mas torna-se difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até anos, inclusive quando ela já não é capaz de agradecer. E, no entanto, que grande caminho de santificação é este! Em tais momentos, pode-se contar de modo particular com a proximidade do Senhor, sendo também de especial apoio à missão da Igreja.

3. Sabedoria do coração é estar com o irmão. O tempo gasto junto do doente é um tempo santo. É louvor a Deus, que nos configura à imagem do seu Filho, que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão» (Mt20, 28). Foi o próprio Jesus que o disse: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 27).

Com fé viva, peçamos ao Espírito Santo que nos conceda a graça de compreender o valor do acompanhamento, muitas vezes silencioso, que nos leva a dedicar tempo a estas irmãs e a estes irmãos que, graças à nossa proximidade e ao nosso afecto, se sentem mais amados e confortados. E, ao invés, que grande mentira se esconde por trás de certas expressões que insistem muito sobre a «qualidade da vida» para fazer crer que as vidas gravemente afectadas pela doença não mereceriam ser vividas!

4. Sabedoria do coração é sair de si ao encontro do irmão. Às vezes, o nosso mundo esquece o valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir, esquece-se a dimensão da gratuitidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro. No fundo, por detrás desta atitude, há muitas vezes uma fé morna, que esqueceu a palavra do Senhor que diz: «a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

Por isso, gostaria de recordar uma vez mais a «absoluta prioridade da “saída de si próprio para o irmão”, como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda a norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 179). É da própria natureza missionária da Igreja que brotam «a caridade efectiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove» (Ibid., 179).

5. Sabedoria do coração é ser solidário com o irmão, sem o julgar. A caridade precisa de tempo. Tempo para cuidar dos doentes e tempo para os visitar. Tempo para estar junto deles, como fizeram os amigos de Job: «Ficaram sentados no chão, ao lado dele, sete dias e sete noites, sem lhe dizer palavra, pois viram que a sua dor era demasiado grande» (Job 2, 13). Mas, dentro de si mesmos, os amigos de Job escondiam um juízo negativo acerca dele: pensavam que a sua infelicidade fosse o castigo de Deus por alguma culpa dele. Pelo contrário, a verdadeira caridade é partilha que não julga, que não tem a pretensão de converter o outro; está livre daquela falsa humildade que, fundamentalmente, busca aprovação e se compraz com o bem realizado.

A experiência de Job só encontra a sua resposta autêntica na Cruz de Jesus, acto supremo de solidariedade de Deus para connosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso. E esta resposta de amor ao drama do sofrimento humano, especialmente do sofrimento inocente, permanece para sempre gravada no corpo de Cristo ressuscitado, naquelas suas chagas gloriosas que são escândalo para a fé, mas também verificação da fé (cf. Homilia na canonização de João XXIII e João Paulo II, 27 de Abril de 2014).

Mesmo quando a doença, a solidão e a incapacidade levam a melhor sobre a nossa vida de doação, a experiência do sofrimento pode tornar-se lugar privilegiado da transmissão da graça e fonte para adquirir e fortalecer a sapientia cordis. Por isso se compreende como Job, no fim da sua experiência, pôde afirmar dirigindo-se a Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de Ti, mas agora vêem-Te os meus próprios olhos»(42, 5). Também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela própria inteligência, de o compreender até ao fundo.

6. Confio este Dia Mundial do Doente à protecção materna de Maria, que acolheu no ventre e gerou a Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, nosso Senhor.

Ó Maria, Sede da Sabedoria, intercedei como nossa Mãe por todos os doentes e quantos cuidam deles. Fazei que possamos, no serviço ao próximo sofredor e através da própria experiência do sofrimento, acolher e fazer crescer em nós a verdadeira sabedoria do coração.

Acompanho esta súplica por todos vós com a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de Dezembro – Memória de São Francisco Xavier – do ano 2014.

Franciscus

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Em 2014 foram assassinados 26 agentes pastorais no mundo

Pelo sexto ano consecutivo, o número mais alto de mortes foi registado na América


Roma, 30 de Dezembro de 2014 (Zenit.org)


Em 2014, foram assassinados 26 agentes pastorais no mundo, três a mais que no ano anterior. Morreram de forma violenta 17 sacerdotes, um religioso, seis religiosas, um seminarista e um leigo. Pela sexta vez consecutiva, o número mais alto de assassinatos foi registado na América. Nos últimos dez anos (2004-2013), foram mortos no mundo todo 230 agentes pastorais, dos quais três eram bispos. Os dados foram divulgados pela agência Fides.

Por continente, foram assassinados durante este ano 14 agentes pastorais na América, sendo 12 sacerdotes, um religioso e um seminarista; na África, 7 agentes pastorais (dois sacerdotes e cinco religiosas); na Ásia, dois agentes pastorais (um sacerdote e uma religiosa); na Oceania, dois agentes pastorais (um sacerdote e um leigo); e na Europa, um sacerdote.

O relatório, publicado nesta terça-feira, menciona também as vítimas do vírus do ebola, que provocou milhares de mortes na África ocidental, região em que as estruturas católicas se mobilizaram desde o começo da epidemia. A família religiosa dos Irmãos Hospitaleiros de São João de Deus perdeu na Libéria e em Serra Leoa quatro irmãos, uma irmã e treze empregados de hospitais em Monróvia e Lunsar. Eles contraíram o vírus em seu generoso compromisso de cuidar dos doentes. “Nossos irmãos deram a vida pelos outros, como Cristo, a ponto de morrer infectados por esta epidemia”, escreveu o prior geral, frei Jesus Etayo. Sorte similar correram as seis religiosas missionárias italianas das Irmãs Pobrezinhas de Bergamo, falecidas no Congo em 1995 por terem contraído o vírus do ebola depois de decidirem não abandonar a população carente de atendimento de saúde. Seu processo de beatificação foi aberto em 2013.

Como acontece já faz algum tempo, a lista não inclui só os missionários ad gentes em sentido estrito, mas todos os agentes pastorais assassinados de forma violenta. "Não usamos o termo ‘mártires’ a não ser no sentido etimológico de ‘testemunhas’, para não entrar no parecer que a Igreja poderá dar sobre alguns deles e também por causa das poucas notícias que podem ser obtidas sobre a sua vida e sobre as circunstâncias da sua morte", explica a Fides.

"Mais uma vez, a maior parte dos agentes pastorais assassinados em 2014 encontrou a morte como resultado de tentativas de roubo ou furto, agredidos, em alguns casos, com uma ferocidade sintomática do ambiente de decadência moral e de pobreza económica e cultural que gera violência e desprezo pela vida humana", prossegue o texto.

"Nenhum deles realizou gestos incríveis, mas eles viveram com perseverança e humildade o seu compromisso diário de dar testemunho de Cristo e do seu Evangelho. Alguns foram assassinados pelas mesmas pessoas a quem ajudavam. Outros abriram a porta para quem pedia ajuda e foram atacados. Outros foram assassinados durante um roubo. Para outros, o motivo dos assaltos e sequestros que terminaram tragicamente não é claro; talvez nunca se saibam as verdadeiras causas".

Por outro lado, em 2014 foram condenados os mandantes do homicídio do bispo de La Rioja, na Argentina, dom Enrique Angelelli, 38 anos depois do assassinato do prelado. Os criminosos tentaram simular um acidente de carro. Também foram condenados os mandantes e os executores do assassinato de dom Luigi Locati, vigário apostólico de Isiolo, no Quénia, assassinado em 2005. Foram presos, além disso, os responsáveis pela morte do reitor do seminário de Bangalore, na Índia, padre Thomas, assassinado em 2013. 

Continua sendo motivo de grande preocupação o destino de outros agentes pastorais sequestrados ou desaparecidos, como é o caso dos três sacerdotes congoleses da ordem dos agostinianos da Assunção. Eles foram sequestrados em Kivu do Norte, na República Democrática do Congo, em Outubro de 2012. Igualmente desaparecidos estão o jesuíta italiano Paolo Dall'Oglio, sequestrado na Síria em 2013, e o padre Alexis Prem Kumar, sequestrado em 2 de Junho deste ano em Herat, no Afeganistão.

No dia 24 de Maio, foram beatificados o missionário padre Mario Vergara, do Pontifício Instituto de Missões Estrangeiras (PIME), e o catequista leigo Isidoro Ngei Ko Lat, assassinados na Birmânia (atual Myanmar) em 1950 por causa do ódio contra a fé. “Que a sua heróica fidelidade a Cristo possa ser estímulo e exemplo para os missionários e especialmente para os catequistas que, nas terras de missão, desempenham um trabalho apostólico valioso e insubstituível”, disse o papa Francisco.

À lista provisória elaborada anualmente pela agência Fides "é preciso acrescentar sempre o longo elenco de muitos cujo nome não se sabe e dos quais talvez nunca se venha a ter notícia, e que, em todos os rincões do planeta, sofrem e pagam com a vida pela fé em Jesus Cristo", encerra o informe.

Jovem kamikaze sírio salva-se do inferno do Estado Islâmico

Sua única possibilidade de escapar: tornar-se voluntário para um ataque suicida


Roma, 30 de Dezembro de 2014 (Zenit.org)


Um adolescente se dirigiu até a entrada de uma mesquita xiita em Bagdade, abriu o zíper da jaqueta, deixou à mostra um cinto de explosivos e se entregou aos guardas.

"Estou usando uma jaqueta suicida, mas não quero me imolar". Para o jovem sírio, apresentar-se como voluntário para um ataque suicida foi a única possibilidade de escapar do grupo terrorista Estado Islâmico (EI).

Usaid Barho, de 14 anos, entrou no grupo terrorista por vontade própria e porque "acreditava no islão", conforme o próprio adolescente disse ao ser entrevistado pelo jornal New York Times. Ele foi recrutado pelos extremistas do Estado Islâmico numa mesquita da sua cidade natal, Manbij, perto de Aleppo. O jovem afirma que sofreu uma lavagem cerebral e foi convencido de que tinha que matar os xiitas porque eles eram infiéis e estupravam as mulheres sunitas.

Certa manhã, em vez de ir à escola, Usaid fugiu. Os radicais sunitas o levaram para um campo de treinamento no deserto, onde os milicianos do Estado Islâmico lhe deram alguma formação militar. Não tardou a ser enviado para o Iraque, mas a essa altura já tinha percebido que a sua decisão de combater pelo “Califado” tinha sido um erro. "As coisas que eu vi não tinham nada a ver com o islão", explica o jovem.

Os radicais castigavam cruelmente os civis surpreendidos fumando, mas, no campo, havia combatentes que também fumavam. Usaid também se chocou porque os jihadistas “estão matando muita gente inocente”.

Durante um mês, o adolescente foi treinado para usar espingardas e lutar. Depois, teve que decidir se queria ser um kamikaze ou ir para o fronte. Foi quando surgiu a ideia de se voluntariar para um atentado suicida em Bagdade e, uma vez na capital iraquiana, entregar-se às autoridades e poder voltar para a sua família, na Síria.

Usaid está preso em um lugar secreto e deve permanecer no Iraque para colaborar com a investigação. Os oficiais de inteligência lhe prometeram devolvê-lo aos pais e tentar impedir que ele seja levado a julgamento, já que a sua decisão de entregar-se "salvou vidas humanas".



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Francisco aos jovens de Taizé em Praga: abram caminhos de liberdade

Milhares de jovens reúnem-se no tradicional encontro europeu de oração da comunidade ecuménica


Madrid, 30 de Dezembro de 2014 (Zenit.org) Ivan de Vargas


Começou nesta segunda-feira e vai até o próximo dia 2 de Janeiro o 37º encontro europeu de Taizé, que desta vez acontece na cidade de Praga. Jovens de toda a Europa e de outras partes do mundo são acolhidos pelas famílias e igrejas locais da República Checa, país que celebra os 25 anos do seu retorno à democracia.

"O papa tem confiança na imaginação e na criatividade de vocês para que a alegria do Evangelho seja anunciada e escutada hoje nos seus países", diz Francisco em mensagem enviada à comunidade de Taizé por ocasião do encontro. "Vocês estão convidados a abrir caminhos de liberdade, entregando-se com a mesma disponibilidade de Maria em Nazaré quando acolheu nela a vida do Filho de Deus. Esta é a vida chamada a se desenvolver em vocês também", destaca o Santo Padre. "Vocês vão procurar descobrir, na oração e no diálogo com os outros, como ser sal da terra (...) Vão descobrir a surpreendente confiança de Cristo em vocês. Não se deixem impressionar pelas suas limitações e pela sua pobreza".

Em seu site, a comunidade de Taizé informa que preparou este encontro "a convite da Conferência Episcopal Checa e do Conselho das Igrejas da República Checa". O evento "reunirá dezenas de milhares de jovens na próxima etapa da 'peregrinação de confiança através da terra', iniciada pelo irmão Roger no final dos anos 70".

"No coração da Europa, a cidade das mil torres e dos mil campanários continua unindo os povos e pessoas de diferentes origens, oferecendo a sua cálida hospitalidade através dos seus tesouros culturais e da sua herança espiritual", prossegue o site. "Vir ao encontro europeu de jovens significa ser convidado às fontes do Evangelho através da oração, do silêncio e da procura. Cada um vem para descobrir ou redescobrir um sentido na sua vida, para se revigorar e se preparar para assumir responsabilidades ao voltar para casa".

Os jovens farão oração em comum, intercâmbios em pequenos grupos e encontros com pessoas comprometidas na vida das paróquias de acolhida ou dos bairros. O irmão Alois, prior de Taizé, falará aos participantes no final da oração da tarde. Também haverá oficinas em diversos lugares da cidade.

Em 31 de Dezembro, será celebrada uma vigília de oração pela paz seguida de uma "festa dos povos" nas paróquias de acolhida.

A comunidade de Taizé reúne cerca de cem irmãos, católicos e de diversas origens protestantes, de mais de trinta nações. Desde o começo, a comunidade é um sinal concreto de reconciliação entre cristãos divididos e povos separados.
Para mais informação: www.taize.fr

São Rugero

A gentileza e zelo pela salvação das almas marcaram o seu apostolado


Horizonte, 30 de Dezembro de 2014 (Zenit.org) Fabiano Farias de Medeiros


"Ele foi muito gentil e zeloso pela salvação das almas. A sua casa estava sempre aberta para acolher os peregrinos e pobres”, narra o Cannes Anonymous sobre o Bispo Rugero. As fontes são escassas sobre dados referentes ao seu nascimento e infância, mas sabe-se que nasceu por volta do ano 1060 na cidade italiana de Cane.

A sua postura como Bispo supõe uma infância e juventude dedicadas à oração e principalmente ao serviço aos pobres e necessitados, além de uma profunda humildade visto que o mesmo definia seu episcopado como um serviço e não como um instrumento para alcançar prestígio. E assim aconteceu que após a morte do bispo de Cane, Rugero foi consagrado bispo no ano de 1083 e eram tempos de muito trabalho, pois a cidade havia sido devastada pelos ataques do rei normando Robert Guiscard. Rugero empreendeu grandes e valorosos esforços para reconstruir a cidade desde a sua estrutura física até a estrutura moral e de fé de seu povo. Andava descalço por todos os arredores da cidade acolhendo os pobres, doentes e órfãos e conduzindo-os para cuidados em um asilo que ele mesmo construiu para esta finalidade.

Sua contribuição foi notável também na renovação da Igreja nos séculos XI e XII conforme registos dos Papas Pascoal II e Gelásio II que revelam o contacto com Rugero na busca de conselhos e também solicitando sua intervenção em questões e conflitos de sua época. Estes factos valeram-lhe o título de Reformador de Cane.

Rugero faleceu no dia 30 de Dezembro do ano 1129 e o mesmo foi imediatamente proclamado santo. Um pergaminho datado do ano 1327 sob o selo de Dom Pascalis, Bispo de Canes confirma a santidade de Rugero. Seu corpo foi enterrado na Catedral de Cane e suas relíquias foram depois transferidas para a cidade de Barleta em 1276 e depositadas na Catedral de Santa Maria Maior e definitivamente no Mosteiro de Santo Estevão.

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O furação Francisco e a perturbação dos intelectuais

Um conhecido escritor católico, no jornal italiano Corriere della Sera, se pergunta sobre as aparentes contradições do pontificado de Bergoglio


Roma, 29 de Dezembro de 2014 (Zenit.org) Massimo Nardi


No dia 24 de Dezembro, foi publicado no Corriere della Sera um artigo de Vittorio Messori com o título “As dúvidas sobre a virada do Papa Francisco”

Neste artigo, o conhecido escritor católico propõe uma "reflexão pessoal", na verdade, "uma espécie de confissão", sobre a "imprevisibilidade" do Papa Francisco, destinada a perturbar "a tranquilidade do católico médio” com uma série de escolhas que poderiam parecer também contraditórias.

Messori enumera alguns aspectos do Pontificado de Bergoglio que, em sua opinião, poderiam causar confusão, para depois concluir, com a humildade própria do crente, que “chefe único e verdadeiro da Igreja é aquele Cristo omnipotente e omnisciente, que sabe melhor do que nós qual seja a melhor escolha para seu temporário representante terreno": e isso explica porque, na perspectiva milenária da história, “todo Papa desempenhou o seu papel apropriado e, no final, se demonstrou necessário”.

O artigo publicado pelo jornal Milanês é uma oportunidade para entender melhor o pontificado do Papa Francisco.

O primeiro elemento de reflexão é sobre o papel histórico do papa Francisco. No mundo em que nós costumamos chamar de "avançado", os cenários de escravidão, guerra, mercantilização, exploração descontrolada e negação da dignidade humana estão mais presentes do que nunca. E diante de tudo isso, o que fazem os grandes da terra? De tempo em tempo se reúnem e produzem um documento morno, em nome da realpolitik, que termina normalmente com um nada feito.

Só um homem, da varanda da praça de São Pedro e nas principais instâncias internacionais, se atreve a gritar para despertar as consciências, se atreve a falar de "globalização da indiferença" acusando os perversos mecanismos do poder. Aquele homem é o Papa Francisco. Totalmente compatível com o ensinamento de Jesus nos Evangelhos.

O Papa Francisco, em sua entrevista para Eugenio Scalfari explicou: "Eu acredito em Deus. Não em um Deus católico, não existe um Deus católico, existe Deus. E acredito em Jesus Cristo, na sua encarnação".

Este conceito representa, talvez, uma negação da Igreja como "corpo místico de Cristo"? Absolutamente não. A Igreja mantém o seu carácter de universalidade, mas o Papa Francisco é, ao mesmo tempo, consciente de que as grandes religiões do mundo têm uma base comum. Basta pensar que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo são chamados de "religiões abraâmicas" porque vêem em Abraão um pai comum da fé.

Podemos recordar o caso em que, no "Sermão da Montanha", Jesus não quebra a continuidade com Abraão, mas diz: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; Não vim para abolir, mas para cumprir" (Mt 5, 17).

Esclarecedora, a tal respeito, a leitura do último livro do padre Antonio Spadaro, Oltre il muro. Dialogo tra un musulmano, un rabbino e um Cristiano, Rizzoli, 2014, (Além do muro. Diálogo entre um muçulmano, um cristão e um rabino), que traz na capa uma frase simbólica do Papa Francisco: "Precisa-se da coragem do diálogo. Construir a paz é difícil, mas viver sem a paz é um tormento".

Messori argumenta que há uma contradição entre o Papa Francisco que rejeita o proselitismo como uma ferramenta para difundir a fé católica e a situação da América Latina, onde há uma perda de católicos para o protestantismo pentecostal.

Mais uma vez, porém, o Pontífice argentino explicou que: "A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atracção de testemunhas". O significado é claro: a fé não é um "produto" que é vendido com as técnicas de marketing. E o Papa não é uma "contabilidade", que leva em conta o número de fiéis.

Como podemos esquecer a cena maravilhosa narrada no Evangelho, quando Jesus, pressionado pela multidão, pergunta: "Quem tocou na minha roupa?". Jesus não se preocupa com o clamor que o circunda, mas daquela alma individual que se dirige a ele em busca de ajuda.

Dito isso, deve-se notar que a personalidade e o estilo pontifical do papa Francisco estão exercendo uma atracção tal que, em todo o mundo, tem havido uma recuperação significativa de consenso com relação à fé católica.

É o "populismo" isto?, se pergunta Messori. Da nossa parte nos limitamos a observar que, na linguagem leiga, haverá sempre uma palavra, um termo, uma definição, para tentar ler com corrosiva ironia as coisas mais belas. Também isso é um sintoma da “dor de viver” contemporânea, contra a qual Francisco lançou seu desafio.

Messori centra-se no compromisso comunicativo da Igreja, definindo “terrível” a responsabilidade de quem hoje deva “anunciar o Evangelho”, mostrando que “o Cristo não é um fantasma desaparecido e remoto, mas o rosto humano do Deus criador”.

Neste sentido, lembramos de um congresso realizado em Roma na Comunidade de Santo Egídio, por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2014. Recordamos em particular, as palavras da jornalista Elisabetta Piqué, que há anos conhece Bergoglio: "O Papa Francisco não tem uma estratégia de media, nele não há nada estudado, mas, em um mundo desprovido de líderes autênticos, as pessoas gostam dele justamente por isso”.

Acreditamos que estas palavras constituam também uma resposta eficaz às "contradições" aparentes de Bergoglio: um sacerdote sério, humilde, rigoroso e, ao mesmo tempo, animado pelo Evangelho do sorriso, da paixão de estar com as pessoas. Um Pontífice da Igreja Universal, que não perdeu a vocação do "sacerdote da rua".

"Precisa-se sair para fora – afirmava o arcebispo Bergoglio no ano 2000 - e falar com as pessoas reunidas nas varandas.  Temos que sair das nossas conchas e dizer que Jesus vive, e afirma-lo com alegria, mesmo que às vezes pareça um pouco louco”. É o programa que hoje está levando como Pontífice, com o nome de Francisco.

Em 2014, quase 6 milhões de pessoas encontraram-se com o papa Francisco no Vaticano

Dados da Casa Pontifícia sobre a participação dos fiéis em audiências, celebrações litúrgicas e ângelus


Cidade do Vaticano, 29 de Dezembro de 2014 (Zenit.org)


Em 2014, foram 5.916.800 os peregrinos que participaram dos encontros com o papa Francisco no Vaticano, informou hoje a Sala de Imprensa da Santa Sé, levando em consideração os dados da Casa Pontifícia sobre a participação dos fiéis nas audiências das quartas-feiras, nas audiências especiais, nas celebrações litúrgicas e no ângelus.

Os números se baseiam principalmente na quantidade de ingressos solicitados para os encontros. Em 2014, 1.199.000 pessoas estiveram nas 43 audiências gerais com o pontífice e 567.100 nas audiências especiais; 1.110.700 nas celebrações litúrgicas presididas pelo Santo Padre e ao menos 3.040.000 pessoas estiveram presentes na Praça de São Pedro aos domingos para o ângelus com o papa.

A Casa Pontifícia é formada pelos encarregados da agenda, do cerimonial e das actividades religiosas e civis do Santo Padre, entre as quais se incluem as recepções a chefes de Estado, as audiências públicas e privadas e as viagens, entre outros compromissos. O prefeito da Casa Pontifícia é monsenhor Georg Gänswein.



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México: o papa lamenta o assassinato do padre Gregorio López Gorostieta

Francisco envia mensagem de pêsames ao bispo de Ciudad Altamirano


Madrid, 29 de Dezembro de 2014 (Zenit.org)


O papa Francisco lamentou o assassinato do sacerdote mexicano Gregorio López Gorostieta, "vítima de uma injustificável violência", e manifestou suas condolências aos familiares, ao bispo de Ciudad Altamirano, dom Maximino Martínez Miranda, e a todos os fiéis da diocese.

"Com profundo pesar pela triste notícia do assassinato do padre Gregorio López Gorostieta, o Santo Padre expressa seus mais sinceros pêsames a Vossa Excelência, assim como ao clero, comunidades religiosas e fiéis dessa amada diocese, ao mesmo tempo em que oferece sufrágios pelo eterno descanso do sacerdote de Cristo, vítima de uma injustificável violência", diz a mensagem assinada neste domingo pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolín, em nome do papa Francisco.

"Sua Santidade, ao expressar mais uma vez o seu firme repúdio de todo atentado contra a vida e dignidade das pessoas, exorta os sacerdotes e demais evangelizadores da diocese a prosseguirem com ardor a sua missão eclesial, apesar das dificuldades", complementa o texto divulgado pela Conferência Episcopal Mexicana (CEM).

O pontífice "deseja manifestar também aos familiares do padre López Gorostieta a sua proximidade nesta provação tão dolorosa" e "oferece a confortadora bênção apostólica a essa comunidade eclesial como sinal de esperança cristã no Senhor ressuscitado".

No dia 21 de Dezembro, em Ciudad Altamirano, o padre Gregorio foi sequestrado por uma facção criminosa mexicana. Seu corpo foi achado sem vida no dia de Natal, em Tlapehuala.

A teologia da selfie

Um desejo de eternidade


Roma, 29 de Dezembro de 2014 (Zenit.org) Jorge Henrique Mújica


A NASA criou, em 2014, um mosaico temático feito com 36.422 fotos de pessoas de mais de cem países, tiradas por elas próprias e enviadas através das redes sociais com a hashtag #GlobalSelfie. A participação massiva é mais um reflexo do fenómeno da autofotografia, ou “selfie”, que se tornou “a palavra do ano” em 2013 na opinião do prestigioso dicionário Oxford da língua inglesa. E a “selfie” é um fenómeno que, pelo visto, parece destinado a continuar indo bem além de 2013.

O que leva as pessoas a compartilhar tantas fotos delas mesmas tiradas por elas mesmas? Só em 2013, houve 1 milhão de publicações desse tipo de imagem por dia! O fenómeno não é apenas resultado da actual facilidade técnica para tirar fotos em qualquer lugar e a qualquer momento; também existe algo de psicológico nessa manifestação cultural: as pessoas se sentem, embora pareça uma redundância, protagonistas das próprias fotos, não apenas por serem fotografadas, mas por se fotografarem.

Essa dimensão do protagonismo quer testemunhar com imagens que “eu estive lá”, que “eu sou assim”, que “eu estive com Fulano”; e, com um pouco de sorte, conseguir, quem sabe, alguma fama efémera, caso a imagem se torne viral.

O fenómeno selfie pode envolver também certos matizes patológicos. Em maio de 2014, no “Giro d’Italia”, o ciclista alemão Marcel Kittel caiu e um jovem se aproximou dele rapidamente; mas não era para ajudá-lo, e sim para tirar uma selfie com o atleta. Atitudes semelhantes se repetem com muitas pessoas no mundo todo e fazem parte do pano de fundo do curta-metragem “Aspirational”, da actriz Kirsten Dunst.

No filme, Kirsten critica a cultura da selfie e a desumanização das pessoas em tempos de Instagram. Vemos a actriz, no curta-metragem, esperando alguém diante de sua casa quando passam duas garotas que a reconhecem, se aproximam com seus smartphones na mão e, sem mais nem menos, começam a tirar selfies com ela. Terminada a “sessão fotográfica”, as jovens vão embora praticamente sem abrir a boca. “Não querem me perguntar nada?”, indaga Kirsten, enquanto uma das jovens se limita a perguntar à outra: “Quantos seguidores você acha que eu vou conseguir com esta foto?”.

“Aspirational” é uma caricatura, mas tem fundamento bastante real. Como não recordar o menino espanhol que se emocionou até chegar às lágrimas por ter tirado uma foto com o jogador argentino Lionel Messi? “O que foi que o Messi disse para você?”, perguntou um jornalista ao menino. “Nada”, foi a resposta. Ele queria a foto, não as palavras do craque.

As selfies não são algo novo. O mito grego de Narciso nos apresenta o rapaz que se apaixonou pela própria imagem reflectida na água e, enquanto contemplava a sua beleza, caiu no rio e morreu afogado. Aquela “selfie mitológica”, aplicada às circunstâncias actuais, pode servir como convite para prestarmos mais atenção não somente a essa super-exposição vaidosa, mas também à falta de autenticidade das imagens manipuladas para aparentar o que não somos.

Historicamente falando, a primeira selfie data de 1914 e a protagonista foi uma adolescente de 13 anos: a grã-duquesa Anastácia, da Rússia. No âmbito religioso, podemos citar o Santo Sudário e o manto da Virgem de Guadalupe, duas “selfies” de peculiaridade sobrenatural. E, indo ainda mais longe, a primeira de todas as selfies remonta ao próprio Deus e tem como fundamento teológico a Bíblia.

O capítulo primeiro do livro do Génesis, em seus versículos 26 e 27, diz claramente que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Será que não podemos considerar a nós próprios como “selfies” de Deus? Neste sentido, cada selfie humana de hoje em dia é uma imagem que reflecte algo de divino e que remete a Deus. Mas Deus é ainda mais original e tirou a mais perfeita de todas as selfies: Jesus Cristo, que, muito além de mera “imagem” de Deus, é Deus em pessoa feito carne.

As selfies, de certa forma, são expressões da capacidade criadora semeada por Deus no coração humano e materializada em imagens. Não são uma simples popularização da fotografia, mas expressões muitas vezes instintivas que nos revelam um pouco do anseio de eternidade que temos na alma. Cada foto é uma forma de dizer “eu existo”, “eu faço parte da história humana” e, ainda mais profundamente, “eu sou imagem e semelhança de Deus”.